{"id":8075,"date":"2020-06-08T03:35:23","date_gmt":"2020-06-08T03:35:23","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=8075"},"modified":"2021-03-01T21:04:25","modified_gmt":"2021-03-01T21:04:25","slug":"nao-choro-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/nao-choro-mais\/","title":{"rendered":"N\u00e3o Choro Mais"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">O choro \u00e9 um efeito fisiol\u00f3gico pr\u00f3prio dos seres humanos. Quando estamos em um estado emocional alterado nosso sistema l\u00edmbico, respons\u00e1vel pelos sentimentos, associa um est\u00edmulo emotivo com aqueles que j\u00e1 temos guardados na mem\u00f3ria. O que detona um processo interno em que v\u00e1rias drogas legais que o nosso corpo produz, como a noradrenalina e a serotonina, come\u00e7am a ser liberadas. A\u00ed o sistema nervoso contrai a gl\u00e2ndula lacrimal e j\u00e1 era, malandragem. L\u00e1grimas rolam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Nunca fui muito de chorar. Pelo Flamengo a \u00faltima vez em que as l\u00e1grimas irrigaram essa cara que mam\u00e3e beijou foi no dia de Iemanj\u00e1 de 1979. O que provocou o choro do moleque Arthur foi o gol odioso feito no Flamengo pelo Renato S\u00e1, um ponta esquerda que tinha vindo do Gr\u00eamio e se orgulhava de ter as pernas cabeludas por jamais ter tomado massagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Esse gol bandido, somado \u00e0 impec\u00e1vel atua\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Luiz de Moura, o Borrachinha (filho do grande Luiz Borracha, reserva de Jurandir no primeiro Tri do Flamengo e defensor da ultima cidadela rubro-negra em 154 partidas), fechando o gol alvinegro, terminaram com a promissora s\u00e9rie de 52 partidas sem derrota daquele Flamengo espetacular de Raul, Junior, Ad\u00edlio e Zico que ainda ganharia tudo que havia para se ganhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Na ancestral arquibancada, naquela adolescente entrega extremada \u00e0s coisas de menor import\u00e2ncia, o moleque Arthur chorou. Chorei mesmo, sem controle, solu\u00e7ando, aos prantos como s\u00f3 um moleque de 15 anos \u00e9 capaz de fazer sem parecer for\u00e7ado. Cada defesa de Borrachinha era um punhal cravado no meu peito. Os amigos que foram comigo no Maracan\u00e3 nem me zoaram, sentiam tamb\u00e9m a mesma dor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">E olha que no ano anterior eu tinha chorado, n\u00e3o pelo Flamengo, mas pela Sele\u00e7\u00e3o, o que julguei ter sido ent\u00e3o meu \u00faltimo choro por futebol na vida. Quando a Argentina,\u00a0com extrema facilidade, meteu o terceiro gol no Peru na \u00faltima partida do Grupo B que classificaria uma sele\u00e7\u00e3o pra grande final percebi que o jogo que eu amava, e entendia como a express\u00e3o mais pura da justi\u00e7a e do m\u00e9rito, fora miseravelmente comprado e que o mundo n\u00e3o tinha mais rem\u00e9dio. Foi traum\u00e1tico e ao mesmo tempo libertador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">J\u00e1 assisti a final daquela Copa da Ditadura Militar com o distanciamento e a maturidade de quem tinha 14 anos e achava que j\u00e1 tinha entendido tudo. Nem o gol de Nanninga que empatou pros holandeses quase no finzinho do jogo me tirou a certeza conformada de que a Argentina ia levar aquela Copa de qualquer jeito. Soube exatamente ali que o futebol era uma farsa, <em>show business<\/em>, que s\u00f3 enganava aos tolos. Inconscientemente, estava decidindo ali tamb\u00e9m que seria um tolo volunt\u00e1rio pelos anos \u00e0 frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Depois da minha fraquejada no funesto Flamengo x Botafogo de fevereiro de 79 os caras correndo atr\u00e1s da bola nunca mais me fizeram chorar. Claro que desde ent\u00e3o chorei outras vezes. Chorei de felicidade pelo nascimento das filhas, de tristeza por algumas perdas dif\u00edceis, por uma fratura de dois dedinhos do p\u00e9 numa pelada de sal\u00e3o, vendo a cena em que Whoopy Goldberg reencontra os filhos em &#8220;A cor p\u00farpura&#8221; e numas duas separa\u00e7\u00f5es amorosas com as quais n\u00e3o estava 100% de acordo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">E assim fui levando minha vida, convicto de que possu\u00eda absoluto controle sobre as bolsas lacrimais, me achando um dos \u00faltimos dur\u00f5es desse crep\u00fasculo do macho em que vivemos. At\u00e9 que um dia, do nada, sem aviso e, aparentemente, sem motivo, chorei de novo quando lia uns coment\u00e1rios feitos em v\u00eddeos de m\u00fasicas antigas no Youtube.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Nos \u00faltimos tempos a leitura desses coment\u00e1rios se tornou um v\u00edcio pra mim. Alguns coment\u00e1rios s\u00e3o previs\u00edveis, sempre tem quem pergunte se algu\u00e9m est\u00e1 ouvindo aquela obra musical origin\u00e1ria do Plioceno em 2020, ou criticando o atual cen\u00e1rio musical e, em um tom que mistura lamento e admoesta\u00e7\u00e3o, afirmando que na \u00e9poca em que <em>Rock\u2019n Roll Lullaby<\/em> era o tema de Simone Marques e Cristiano Vilhena em Selva de Pedra (First Edition, 1972) \u00e9 que se fazia m\u00fasica de verdade, que as m\u00fasicas de hoje em dia n\u00e3o prestam e que, assim como a honestidade e o respeito aos mais velhos, tudo que era bom acabou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Mas alguns coment\u00e1rios n\u00e3o tem esse ran\u00e7o. Trazem mem\u00f3rias, pentimentos descobertos pelas velhas can\u00e7\u00f5es. Relatos ternos de tempos passados de felicidades idealizadas. S\u00e3o esses os que mais me emocionam. E por causa de um deles que voltei &#8212; a contragosto, confesso &#8212; ao h\u00e1bito de chorar sem ser pelo nascimento de mais uma garota na fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Foi num v\u00eddeo de Arranha C\u00e9u, uma seresta de Silvio Caldas e Orestes Barbosa, que meu pai adorava e trazia os densos versos <em>Nestes del\u00edrios nervosos\/ Dos an\u00fancios luminosos\/ Que s\u00e3o a vida a mentir\/ E cada vez que subia\/ O elevador n\u00e3o trazia\/ Essa mulher, maldi\u00e7\u00e3o.<\/em> O coment\u00e1rio era de um vi\u00favo, contempor\u00e2neo do lan\u00e7amento da can\u00e7\u00e3o, no lado B do mesmo 78 rpm que trazia o grande sucesso da dupla Caldas \u2013 Barbosa de 1937, a cl\u00e1ssica Ch\u00e3o de Estrelas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Em seu coment\u00e1rio, o j\u00e1 macr\u00f3bio internauta contava como Arranha C\u00e9u tinha sido decisiva para a conquista do cora\u00e7\u00e3o da mulher com quem se casaria e viveria por mais de 60 anos em sacramental coabita\u00e7\u00e3o. E ent\u00e3o passava a descrever as qualidades \u00edmpares da amada, sua seriedade, beleza e desvelo como esposa, m\u00e3e e av\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Empolgado, e provavelmente sem nenhum controle sobre as pr\u00f3prias bolsas lacrimais, ap\u00f3s os elogios introdut\u00f3rios o comentarista abandonava o tom paneg\u00edrico e confessava, da maneira mais desabrida, sincera e tocante, a falta que a mulher lhe fazia e as saudades que lhe provocavam dores f\u00edsicas. Pelo menos pra mim foi imposs\u00edvel prosseguir na leitura sem levar a palma da m\u00e3o aos olhos como se fosse uma esponja. Aquele coment\u00e1rio tinha sido escrito, ou melhor, rasgado, com o cora\u00e7\u00e3o mais pleno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Foi inevit\u00e1vel compartilhar a mesma emo\u00e7\u00e3o do comentarista. Chorei s\u00f3 de ler aquele relato de amor e saudade. Hoje, se ouvir Arranha C\u00e9u de novo, \u00e9 bem capaz da noradrenalina e da serotonina me fazerem chorar outra vez. E quando um sujeito t\u00e1 chorando s\u00f3 de ouvir Silvio Caldas ele j\u00e1 n\u00e3o tem mais salva\u00e7\u00e3o. Ontem, h\u00e1 91 dias sem Flamengo, mexendo num hardisk antigo achei umas fotos da marquise do velho Maracan\u00e3. Aquela elipse sinuosa e elegante em concreto armado, o <em>chiaroscuro<\/em> do lusco-fusco carioca, aquele mist\u00e9rio maracanesco que h\u00e1 muito se perdeu. . . J\u00e1 podem imaginar o que aconteceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><a href=\"https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/EZ2g6eOXsAQ4m5Q.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-8099\" src=\"https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/EZ2g6eOXsAQ4m5Q.jpg\" alt=\"EZ2g6eOXsAQ4m5Q\" width=\"764\" height=\"1019\" srcset=\"https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/EZ2g6eOXsAQ4m5Q.jpg 675w, https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/EZ2g6eOXsAQ4m5Q-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 764px) 100vw, 764px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Quero meu Flamengo de volta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><strong>Meng\u00e3o Sempre<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><div class='button-row'>\n\t<a href='https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/arthur-muhlenberg\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Arthur Muhlenberg\t<\/a>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O choro \u00e9 um efeito fisiol\u00f3gico pr\u00f3prio dos seres humanos. Quando estamos em um estado emocional alterado nosso sistema l\u00edmbico, respons\u00e1vel pelos sentimentos, associa um est\u00edmulo emotivo com aqueles que j\u00e1 temos guardados na mem\u00f3ria. O que detona um processo interno em que v\u00e1rias drogas legais que o nosso corpo produz, como a noradrenalina e &#8230; <a class=\"read-more-link\" href=\"https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/nao-choro-mais\/\">Read More <i class=\"ico-946\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":8077,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[114],"tags":[],"class_list":["post-8075","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pandemia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8075","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8075"}],"version-history":[{"count":29,"href":"https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8075\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9379,"href":"https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8075\/revisions\/9379"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8077"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8075"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8075"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8075"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}