{"id":7674,"date":"2020-01-19T22:32:22","date_gmt":"2020-01-19T22:32:22","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=7674"},"modified":"2020-01-20T20:45:14","modified_gmt":"2020-01-20T20:45:14","slug":"carioca-e-matar-ou-morrer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/carioca-e-matar-ou-morrer\/","title":{"rendered":"Carioca \u00e9 Matar ou Morrer"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Somos todos analfabetos em recupera\u00e7\u00e3o, status do qual s\u00f3 nos veremos livres quando promovidos a analfabetos irrecuper\u00e1veis. E por compartilharmos essa condi\u00e7\u00e3o \u00e0s vezes nos falta <em>aquela<\/em> palavra. Aquele termo absolutamente necess\u00e1rio e indispens\u00e1vel para expressar um pensamento com exatid\u00e3o. Na maior parte das vezes a ignor\u00e2ncia, a pressa e a nossa vontade de falar s\u00e3o maiores que o nosso zelo pela clareza e exatid\u00e3o e acabamos nos contentando com a primeira palavra cujo sentido se aproxime do pensamento original que busc\u00e1vamos exprimir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u00c9 um costume reprov\u00e1vel, que n\u00e3o ajuda a aumentar o vocabul\u00e1rio, nem a clareza das ideias, e ainda d\u00e1 margem \u00e0s mais amalucadas interpreta\u00e7\u00f5es daquilo que dizemos. Mas analfabetos s\u00e3o assim mesmo. Esse desapego pela palavra exata, <em>le mot juste<\/em>, que poderia ser o slogan do grande Luiz Mendes, nos faz muitas vezes adotar algumas express\u00f5es terrivelmente inver\u00eddicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Uma delas \u00e9 o chamado v\u00edcio em Flamengo. Cada um se vicia no que quiser, a Na\u00e7\u00e3o \u00e9 laica. E n\u00e3o viemos ao mundo pra cortar a onda de ningu\u00e9m. Mas em Flamengo n\u00e3o d\u00e1 pra se viciar. Podemos nos apaixonar pelo Flamengo, podemos precisar do Flamengo, podemos ficar doid\u00f5es com o Flamengo, usar o Flamengo como uma fuga da realidade e at\u00e9 passar mal sem o Flamengo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Mas apesar da interse\u00e7\u00e3o de muitos sintomas com a s\u00edndrome de abstin\u00eancia, o Flamengo n\u00e3o \u00e9 um v\u00edcio. Na verdade, \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio, a paix\u00e3o pelo Flamengo \u00e9 o ant\u00f4nimo perfeito de v\u00edcio. O Flamengo \u00e9 uma virtude. O que vicia mesmo \u00e9 televis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">A famosa frase de Marx na Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Cr\u00edtica da Filosofia do Direito de Hegel, de 1844 \u201cA religi\u00e3o \u00e9 o \u00f3pio do povo&#8221; foi rapidinho parafraseada na Escola de Frankfurt pra incluir a televis\u00e3o no inqu\u00e9rito. E os letristas do Beatles n\u00e3o estavam errados, a televis\u00e3o, ou M\u00e1quina de Fazer Doido, como a chamava o Stanislaw Ponte Preta, vicia mesmo. S\u00f3 que a televis\u00e3o, ao contr\u00e1rio do \u00f3pio, tira o sono. E cria h\u00e1bitos sedent\u00e1rios e contemplativos dos quais \u00e0s vezes \u00e9 dif\u00edcil se libertar. Como por exemplo, assistir ao Campeonato Carioca, uma droga que nem onda d\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Ontem o Flamengo estreou na 114\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Carioca com a pompa a circunst\u00e2ncia de uma reuni\u00e3o de condom\u00ednio. O interesse gerado pelo embate desigual entre o Flamengo e o Alvianil Praiano foi quase nulo. Os 27 mil abnegados presentes s\u00f3 levaram de memor\u00e1vel pra casa o singelo minuto de sil\u00eancio em homenagem \u00e0 jornalista Marilene Dabus, pioneira desbravadora do matagal do jornalismo esportivo desde o tempo em que mulher mal podia frequentar as arquibancadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">O jogo mesmo foi uma mix\u00f3rdia, o imberbe sub-20 que o Flamengo colocou em campo fez o que estava ao seu alcance, mas n\u00e3o foi capaz de movimentar o placar, que permaneceu mostrando o insosso 0x0 at\u00e9 o fim. Colocando o Flamengo, ao menos por uma rodada, na embara\u00e7osa terceira coloca\u00e7\u00e3o do Grupo A. E todos, menos alguns, se importaram com isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Porque sem a televis\u00e3o para edulcorar e magnificar suas disputas paroquiais o idoso Campeonato Carioca n\u00e3o desperta nenhum sentimento mais nobre do que a piedade. J\u00e1 passou da hora de deixar o Carioca, aos menos em seu atual formato, morrer e acabar de uma vez com seu sofrimento. \u00c9 uma competi\u00e7\u00e3o anacr\u00f4nica e desigual, que rouba tempo precioso de quem almeja alguma coisa melhor na vida, privilegiando os ricos e massacrando os pobres. Vamos combinar que nada no mundo que re\u00fana essas caracter\u00edsticas cachorras pode dar certo, t\u00e1 okei?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Maior respons\u00e1vel pela suas gl\u00f3rias e o \u00fanico a garantir a sua sobreviv\u00eancia nos \u00faltimos anos, o Flamengo pode estar dando o <em>coup de gr\u00e2ce<\/em> no vegetativo Carioca. Se o Flamengo mantiver sua posi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o fechar o acordo com a emissora que o transmite para todo o pa\u00eds, o Campeonato Carioca vai \u00e0 garra. E a morte do Carioca por inani\u00e7\u00e3o provocada por aus\u00eancia do Flamengo dever\u00e1 ser comemorada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Se o Flamengo dispensar ao estadual a import\u00e2ncia que ele realmente merece em muito pouco tempo ir\u00e1 fazer desabar todo o sistema federativo que engorda a cartolada e mant\u00e9m o futebol brasileiro em algum lugar do passado, entre a chegada de Charles Miller e a Copa de 70. Com o fim dos regionais o calend\u00e1rio nacional ir\u00e1 fatalmente se alinhar ao calend\u00e1rio mundial, poupando nossos jogadores da extenuante maratona de 70 jogos por ano, mitigando os efeitos nocivos das janelas de transfer\u00eancia europ\u00e9ia e chinesa sobre os times brasileiros e dando \u00e0s competi\u00e7\u00f5es de indiscut\u00edvel relev\u00e2ncia a aten\u00e7\u00e3o devida. O gurufim do Carioca vai ser s\u00f3 lazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Mas n\u00e3o se fazem revolu\u00e7\u00f5es sem algum sangue derramado, e uma enorme parcela da Na\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 sendo prejudicada sem a transmiss\u00e3o dos jogos do Flamengo no Carioca. Para quem n\u00e3o mora no Rio e arredores, at\u00e9 que o Flamengo estreie na Libertadores, em mar\u00e7o, a \u00fanica forma de combater a s\u00edndrome de abstin\u00eancia do Flamengo ser\u00e1 a Metadona da transmiss\u00e3o radiof\u00f4nica. Me solidarizo com a mulambada Off Rio, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o fim do mundo. Al\u00e9m do r\u00e1dio ser muito legal e exercitar a nossa imagina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podemos nos esquecer que foi atrav\u00e9s das ondas do r\u00e1dio que a Na\u00e7\u00e3o se construiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">O que n\u00e3o se discute \u00e9 que enquanto o Flamengo for conivente com a maneira como o Campeonato Carioca \u00e9 disputado, a competi\u00e7\u00e3o nunca evoluir\u00e1. O Flamengo, pelo seu tamanho e protagonismo, tem a obriga\u00e7\u00e3o de devolver algo \u00e0 sociedade que fez dele o gigante que \u00e9. E n\u00e3o \u00e9 fazendo filantropia e mantendo viva uma competi\u00e7\u00e3o condenada pela ci\u00eancia que a essa d\u00edvida intang\u00edvel do Flamengo ser\u00e1 paga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Se existe uma entidade que pode efetivamente fazer algo pela moderniza\u00e7\u00e3o do futebol brasileiro essa entidade \u00e9 o Flamengo. Ainda que o maior prejudicado em um primeiro momento seja seu torcedor. O Flamengo tem deveres, temos que aceitar essa realidade. De minha parte aceito de bom grado a minha cota de sacrif\u00edcio e sei que n\u00e3o estou s\u00f3. Muito poucos n\u00e3o trocariam numa boa os Cariocas que conquistamos nos \u00faltimos 10 anos por mais Libertadores e Brasileiros disputados decentemente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u00c9 da natureza do Flamengo liderar as grandes mudan\u00e7as estruturais no futebol p\u00e1trio. Tem sido assim desde 1936 quando o Flamengo firmou p\u00e9 e fez com o que o futebol brasileiro adotasse o regime profissional. E em 1977 quando Marcio Braga exigiu que as emissoras de TV pagassem ao Flamengo para transmitir seus jogos. Mas vejam como as mudan\u00e7as demoram a se cristalizar, 84 anos depois do enorme avan\u00e7o obtido por Jos\u00e9 Bastos Padilha e o Flamengo ainda abriga amadores em seus quadros diretivos. O Flamengo abandonar o Carioca, e deixar de ter seus jogos transmitidos pela TV significa exatamente isso, \u00e9 apenas o primeiro passo. Longo \u00e9 o caminho, mas grande \u00e9 a meta. A luta continua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><strong>Meng\u00e3o Sempre<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><div class='button-row'>\n\t<a href='https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/arthur-muhlenberg\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Arthur Muhlenberg\t<\/a>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Somos todos analfabetos em recupera\u00e7\u00e3o, status do qual s\u00f3 nos veremos livres quando promovidos a analfabetos irrecuper\u00e1veis. E por compartilharmos essa condi\u00e7\u00e3o \u00e0s vezes nos falta aquela palavra. Aquele termo absolutamente necess\u00e1rio e indispens\u00e1vel para expressar um pensamento com exatid\u00e3o. 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