{"id":7122,"date":"2019-11-19T15:35:34","date_gmt":"2019-11-19T15:35:34","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=7122"},"modified":"2020-05-15T15:52:30","modified_gmt":"2020-05-15T15:52:30","slug":"confissoes-de-um-flamengo-arrependido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/confissoes-de-um-flamengo-arrependido\/","title":{"rendered":"Confiss\u00f5es de um flamengo arrependido"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Chegamos ao M\u00e9xico numa fresca noite de outubro, 500 anos depois de Hern\u00e1n Cort\u00e9s. (Diferente de n\u00f3s, o sanguin\u00e1rio conquistador espanhol na certa escapou da escala no Panam\u00e1.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">No \u00f4nibus razoavelmente limpo e confort\u00e1vel que nos levou da Cidade do M\u00e9xico a Puebla, repouso no joelho uma nova edi\u00e7\u00e3o do livro de Erico Verissimo que nos serve de guia, o cl\u00e1ssico de viagens \u201cM\u00e9xico\u201d de 1957, e fa\u00e7o um coment\u00e1rio qualquer tentando impressionar a companheira de viagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">A espl\u00eandida ideia de um giro por terras e\u00a0bodegas\u00a0mexicanas\u00a0partira\u00a0dela, e viera acompanhada de um salutar conselho: \u201cAproveita esses dias e descansa a cabe\u00e7a um pouco de Flamengo&#8230; Pensar em futebol o tempo todo n\u00e3o pode fazer bem \u2013 \u00e9 final em Santiago, depois final no Paraguai, final sei l\u00e1 onde\u2026 Isso pode prejudicar sua sa\u00fade\u201d. Concordei, e lembrei de um certo poeta amigo de Erico, que j\u00e1 escrevera com sabedoria:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cBem-aventurados os que n\u00e3o entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles \u00e9 o reino da tranquilidade. Bem-aventurados os que, por entenderem de futebol, n\u00e3o se exp\u00f5em ao risco de assistir \u00e0s partidas, pois n\u00e3o voltam com decep\u00e7\u00e3o ou enfarte.\u201d Chamava-se\u00a0Drummond, voc\u00eas devem ter ouvido falar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Atravessamos a pra\u00e7a principal de Puebla (o chamado <em>z\u00f3calo<\/em>) fintando doces bruxinhas, pequenos esqueletinhos e am\u00e1veis mortas-vivinhas, alguns juntos aos pais, outros, mais pobrezinhos, sozinhos a pedir moeditas ou chocolates, nessa ordem. Mesmo no Dia dos Mortos, os ainda vivos precisam se virar&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u00c9 ao lado da pra\u00e7a que fica a imponente Catedral de Puebla, e para l\u00e1 nos encaminhamos. No livro de Erico Verissimo, hav\u00edamos lido sobre sua fama de ser a mais <em>\u201chermosa catedral de America\u201d<\/em>, e n\u00e3o nos decepcionamos ao entrar. Na dire\u00e7\u00e3o do altar impactante e \u00fanico, o ch\u00e3o est\u00e1 coberto por um tapete de p\u00e9talas de cravos-de-defunto, a flor laranja-choque t\u00edpica do feriado mexicano. \u201cAlgo me oprime o peito. \u00c9 como se eu voltasse do enterro dum amigo\u201d, escreveu Erico, ao deixar a igreja. Meu esp\u00edrito \u00e9 outro ao adentr\u00e1-la, o de turista curioso, achando tudo bonito e digno de uma espiada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Ao avan\u00e7ar catedral adentro, percebo a presen\u00e7a de um padre velh\u00edssimo, sentado num confession\u00e1rio de madeira a escutar os pecados de uma devota. Atr\u00e1s dela, uma fila consider\u00e1vel de locais pueblanos, turistas e crist\u00e3os de v\u00e1rios matizes prontos a confessar. O sacerdote tamb\u00e9m me nota, e fica a me fitar, com seu olho esquerdo mais esbugalhado que o direito. Procuro baixar a vista, e \u00e9 quando percebo o belo ch\u00e3o da bas\u00edlica: um piso de pedras frias\u00a0antigas, com quadrados pretos e vermelhos de cer\u00e2mica alternados, como uma enorme, secular e sagrada camisa papagaio de vint\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Basta aquela vis\u00e3o para que eu perceba que algo tamb\u00e9m me oprime o peito e precisa ser expelido: olho a face pergaminhada do padre, seu olho esbugalhado duro contra os meus, e\u00a0desabo de joelhos, contrito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u2013\u00a0<em>Perd\u00f3n, viejo Padre! Estoy arrepentido y tengo de confessar&#8230;<\/em> Si, Padre, eu fui contra a demiss\u00e3o do Abel! \u2013 e come\u00e7o a desfiar meus pecados, aos borbot\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u2013 <em>Si, Padre, yo admito!<\/em> Mas como\u00a0poderia\u00a0imaginar que depois do colombiano Rueda, que terminou \u00e0s turras com o elenco, um t\u00e9cnico estrangeiro iria conquistar esse elenco cheio de estrelas? E convencer \u00a0todas essas feras a correr o triplo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u2013 <em>Viejo Padre<\/em>, o Filipe Lu\u00eds me lembra um guitarrista vindo de Rio das Ostras, nem sabia que ele lia livros de anatomia e nutri\u00e7\u00e3o, Padre! E numa buena? Achava que bastava o Rafinha numa lateral para termos um grande time\u2026!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><em>\u2013 Imperdonable pecado, Padre! <\/em>Pensava no Bruno Henrique e s\u00f3 lembrava aquele atacante do Santos que fizera um gol contra pra gente, quando o Flamengo jogou com o Peixe ano passado&#8230; Padre, eu achava ele um perfeito reserva pro Vitinho! <em>Perd\u00f3n!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u2013 <em>Ah, El Gabigol, seo Padre\u2026<\/em> El Gabigol, para mim, sempre foi um atacante que fazia dois goles e perdia dez, e n\u00e3o via nada de mais nele, <em>usted compreende<\/em>? Como podia crer que ele escutaria os mandamentos de Jesus (n\u00e3o esse aqui deitado, o outro) e passaria a chutar de primeira sem dar dois toques na bola? <em>Perd\u00f3n!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u2013\u00a0E quando o Rodrigo Caio levou aquele gol de cabeza rid\u00edculo contra o Bangu, nos primeiros jogos do ano? <em>Padre, yo fiquei preocupado!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Neste instante, escuto uma voz vinda de cima: <em>\u201cOya a fila, cabr\u00f3n!<\/em>\u201d, mas sigo em frente:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u2013 <em>Oh Cielos!<\/em>\u00a0Eu tinha uma f\u00e9 impura que o Cu\u00e9llar era a base do time, que o Pablo Mar\u00ed era um R\u00e9ver de barbicha, o Gerson n\u00e3o passava de um Tor\u00f3 5G e, <em>Padre, \u00f3 Padre, yo confesso: un dia, foi solamente un dia<\/em>, eu xinguei o Ar\u00e3o! Hoje busco perucas do Ar\u00e3o para comprar na <em>calle Uruguayana<\/em> ou na loja do Fla, e ningu\u00e9m me vende, chuinf\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><em>\u2013\u00a0E Padre\u2026 Padre! Yo j\u00e1 tive temor do Gr\u00eamio, Padre!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Penso em descarregar outros pecadilhos, como os gibis antigos que surrupiei na primeira s\u00e9rie do Alu (foi mal,\u00a0Alu!) e aquela noite na boate Circus em que me aproveitei de um banho de espuma para bolinar uma&#8230; at\u00e9 que recebo um cutuque.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cVoc\u00ea est\u00e1 bem?\u201d, pergunta a companheira de viagem. \u201cVoltei do altar e encontrei voc\u00ea a\u00ed em transe, ajoelhado, o que houve?\u201d Desconverso: &#8220;Deve ser a altitude. Preciso de uma margarita de tamarindo, vamos?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Ao seguir caminhando, contudo, espio com o rabito dos olhos o velho p\u00e1roco, que enfim sorri, e piscando o olh\u00e3o esbugalhado, dispara em bom latim:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><em>\u2013 Yo te entendo, hijo! Reze 81 Padres-Nossos, 19 Aves-Marias e, ainda como penit\u00eancia, aguarde\u00a0uns perrenguitos contra Goyas, Corinthios, Botafuego e Basco\u2026 Vaya con Dios e con San Judas Thadeo, el \u00fanico santo que\u00a0ostenta medalhas!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">E sa\u00edmos, com a alma leve, o cora\u00e7\u00e3o puro e a f\u00e9 renovada no bom Jesus, e em todos os seus 32 ap\u00f3stolos de chuteiras. Am\u00e9m!<\/p>\n<div class='button-row'>\n\t<a href='https:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/marcelo\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Marcelo Dunlop\t<\/a>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chegamos ao M\u00e9xico numa fresca noite de outubro, 500 anos depois de Hern\u00e1n Cort\u00e9s. (Diferente de n\u00f3s, o sanguin\u00e1rio conquistador espanhol na certa escapou da escala no Panam\u00e1.) 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