{"id":9684,"date":"2021-06-21T14:36:56","date_gmt":"2021-06-21T14:36:56","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=9684"},"modified":"2021-07-03T18:11:03","modified_gmt":"2021-07-03T18:11:03","slug":"uma-bicicleta-sem-freio-chamada-flamengo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/uma-bicicleta-sem-freio-chamada-flamengo\/","title":{"rendered":"Bicicletinha sem freio"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">O que nos resta depois de tomar um gol aos 52 do segundo tempo, chorar os tr\u00eas pontos derramados em pleno Maracan\u00e3 e despencar at\u00e9 o meio da tabela do Campeonato Brasileiro?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Espernear nas redes sociais \u00e9 uma sa\u00edda. Mais v\u00e1lido, por\u00e9m, \u00e9 se entupir de filosofia. Com uns pistaches ent\u00e3o, fica del\u00edcia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Dia desses, li no jornal sobre uma velha tese de Adorno e Horkheimer, publicada em 1944 \u2013 mesmo ano, olha a\u00ed, de outra obra crucial: \u201cHist\u00f3rias do Flamengo\u201d, do cientista social Mario Filho. Mas a descoberta da dupla foi a seguinte: o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico e os barulhos do progresso seriam imitados pelos gestos humanos, que com o tempo iriam se tornando rudes e barulhentos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Como exemplo, os alemas mencionavam as portas, os carros e as geladeiras, que tinham de ser fechados com brutalidade, repetindo os maus tratos dos governos autorit\u00e1rios. O colunista da \u201cFolha\u201d Mario Sergio Conti ent\u00e3o reparou: \u201cViva o progresso \u2014as portas de geladeiras e carros caros hoje fecham como plumas.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Era isso, Conti, era isso! Impressiona como s\u00f3 os profetas enxergam o \u00f3bvio (podem me citar). Sen\u00e3o, vejamos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">O Flamengo, desde sempre, foi um clube movido pelo barulho, alimentado pelo escarc\u00e9u, e prova disso foi a simbiose, desde os anos 1940, com a algazarra promovida pela Charanga Rubro-Negra. N\u00e3o \u00e0 toa, nossos escretes mais triunfais, nossas mais letais equipes poderosas (Furac\u00e3o 2000) foram carinhosamente apelidadas de m\u00e1quinas ruidosas e destrutivas. Casos do &#8220;Rolo Compressor&#8221;, do &#8220;Bonde Sem Freio&#8221; e, claro, da &#8220;M\u00e1quina de T\u00edtulos&#8221; de Jorge Jesus, o comandante que vociferava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">E hoje, com Rog\u00e9rio Ceni? Moderno e esclarecido, o atual treinador busca um Flamengo adequado aos novos tempos, de modos gentis e discretos, anti-truculento na ess\u00eancia, influenciado pelos ventos da mudan\u00e7a que pedem um mundo moderado, sustent\u00e1vel e anti-autorit\u00e1rio. Viva o progresso, passamos a ver um Flamengo cort\u00eas, que praticamente pede &#8220;licen\u00e7a&#8221; e &#8220;por favor&#8221; antes de atropelar os advers\u00e1rios, que gemem e sucumbem comovidos pela boa educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Nas outras cinco partidas \u2013 V\u00e9lez Sarsfield, Palmeiras, Coritiba, Am\u00e9rica e Coritiba de novo \u2013\u00a0o Flamengo foi assim, silencioso e infal\u00edvel como os possantes modernos e as geladeiras de luxo, o que nos fez passar 23 sossegados dias sem levar um m\u00edsero gol. Com direito a classifica\u00e7\u00f5es na maior paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Ceni \u00e9 um profissional antenado e de alta cultura, que faz de seu time um dispositivo sustent\u00e1vel e ecol\u00f3gico. Foi-se o tempo do bond\u00e3o sem freio fumegante do Ronaldinho, chegamos enfim \u00e0 era da bicicletinha el\u00e9trica desgovernada, pilotada pelo descacetado Rodrigo Muniz. Muito superior aos selvagens das motocicletas, com seus caronas e canos de descarga incivilizados que empesteiam o Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Mas n\u00e3o se pode vencer sempre. Para minar nossa cortesia e boas pr\u00e1ticas ambientais, surgiram uns-e-outros cheios de bebida en\u00e9rgica na cabe\u00e7a. E foi a\u00ed que Ceni, que se acostumara a orientar o time da sacrossanta paz do seu lar, soprando no ouvidinho de seus comandados atrav\u00e9s de um discreto fone, precisou berrar, se exaltar, segurar seus atacantes pelas orelhas. N\u00e3o podia dar certo, claro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">O sil\u00eancio rubro-negro que precedeu o esporro durou at\u00e9 os 12 minutos do jogo de s\u00e1bado. Foi a hora que o fabuloso Aderlan deu de chaleira do meio da \u00e1rea, em bola que parou no \u00e2ngulo direito de Diego Alves. Se houvesse o pr\u00eamio Puskas para gols cagados, ningu\u00e9m superava o fabuloso Aderlan, bravo lateral do Bragantino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">A partir daquele gol inacredit\u00e1vel, as engrenagens flamengas voltaram ao estado natural de ru\u00eddos. O ribombar de desespero, as britadeiras do caos, as cornetas rigorosas, os cora\u00e7\u00f5es a palpitar. Que fazer? \u00c9 assim o Flamengo, uma institui\u00e7\u00e3o que h\u00e1 quase 130 anos se equilibra entre a paz e o caos, entre o silencioso remo a cortar as \u00e1guas e a arcabuzada dos roj\u00f5es dos torcedores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Nunca fui fil\u00f3sofo e s\u00f3 estive em Frankfurt para beber cerveja. Mas, se tudo que aprendi nas gerais do Maracan\u00e3 fizerem sentido, esse trope\u00e7o ap\u00f3s 16 partidas sem derrota s\u00f3 pode render li\u00e7\u00f5es importantes.\u00a0 Isto, claro, se forem avaliadas de forma tranquila, \u00edntima e pac\u00edfica pelos jogadores e comiss\u00e3o t\u00e9cnica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Por enquanto, o que continua a gritar alto s\u00e3o os n\u00fameros do time: alta incid\u00eancia de chances claras, boa soma de chutes com perigo, 60% de posse bola e dom\u00ednio territorial do campo. A bicicletinha n\u00e3o breca, s\u00f3 n\u00e3o pode capotar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Como o profeta disse um dia, o torcedor flamengo n\u00e3o tem um dia de paz. Mas \u00e9 preciso que seguremos o barulho desse Bragantino 3 a 2 e n\u00e3o o descarreguemos de maneira bruta nas redes sociais ou nas costas dos jogadores. Afinal, como ensinaram os brilhantes mestres Solich, Carlinhos e Jesus, \u00e9 no sil\u00eancio di\u00e1rio e na calmaria dos treinamentos que se apertam as engrenagens dos grandes Flamengos da hist\u00f3ria. Pergunte a Adorno e sua turma.<\/p>\n<div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/marcelo\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Marcelo Dunlop\t<\/a>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que nos resta depois de tomar um gol aos 52 do segundo tempo, chorar os tr\u00eas pontos derramados em pleno Maracan\u00e3 e despencar at\u00e9 o meio da tabela do Campeonato Brasileiro? Espernear nas redes sociais \u00e9 uma sa\u00edda. 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