{"id":9289,"date":"2021-02-11T21:18:08","date_gmt":"2021-02-11T21:18:08","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=9289"},"modified":"2021-02-11T22:49:43","modified_gmt":"2021-02-11T22:49:43","slug":"o-flamengo-e-a-maldicao-da-camisa-listada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/o-flamengo-e-a-maldicao-da-camisa-listada\/","title":{"rendered":"A maldi\u00e7\u00e3o da camisa listada"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Outro dia, aqui no portal, o Arthur tentou fazer cr\u00f4nica mas fez poesia: \u201cQuando as primeiras c\u00e9lulas rubro-negras procariontes come\u00e7aram a se multiplicar como loucas, l\u00e1 na sopa primordial darwiniana, o elemento perrengue j\u00e1 estava presente.\u201d Glub, glub, pude at\u00e9 ouvir o som.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Sim, aqui \u00e9 Flamengo. Aqui \u00e9 perrengue. Mas afinal, por que cargas d\u2019\u00e1gua tem de ser assim, e desde sempre? Por que diabos o mart\u00edrio e as agruras est\u00e3o agarradas no casco das naus flamengas, desde os primeiros dias de 1895? A culpa \u00e9 das amebas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Bem, de algumas. Mas n\u00e3o de todas, pelo que pude apurar ao longo desses dias. Estava t\u00e3o sedento por respostas que virei minha biblioteca de cabe\u00e7a para baixo, troquei sopapos e canga-leit\u00f5es com \u00e1caros e, no auge da afli\u00e7\u00e3o, liguei at\u00e9 numa mesa-redonda na TV.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Foi quando, a voz do Cereto ao fundo, me veio a luz: num ensaio de hist\u00f3ria medieval, encontrei a pe\u00e7a que faltava ao quebra-cabe\u00e7as. A pista que enfim oferece sentido a toda Hist\u00f3ria do Flamengo. E que, talvez, explica at\u00e9 as mais dolorosas derrotas, e os gols inconceb\u00edveis sofridos contra times rid\u00edculos, como o Santo Andr\u00e9, o Am\u00e9rica asteca e o Liverpool.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">A pista: desde que o mundo \u00e9 mundo, ali um pouquinho depois das amebas, dos dinossauros e dos av\u00f4s do Bolsonaro, a humanidade convive com uma maldi\u00e7\u00e3o sinistra. A maldi\u00e7\u00e3o das camisas listadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Hein? N\u00e3o, n\u00e3o estou inventando nada, que em reta final de campeonato n\u00e3o se brinca. O ensaio e a teoria existem, descritas por um franc\u00eas mestre em hist\u00f3ria medieval que provavelmente nasceu com a mamadeira na m\u00e3o e um tomo de Victor Hugo na outra. Michel Pastoureau \u00e9 seu nome, e o livro se chama \u201cO pano do diabo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">De acordo com Pastoureau, as roupas com listras sempre foram vistas como coisas malignas, impuras, e isso marca a hist\u00f3ria do nosso planetinha desde a B\u00edblia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Era preciso ler e investigar isso a fundo. Corri nos sebos (virtuais), liguei para o Rodrigo da Folha Seca e, antes de tudo isso, desliguei o Cereto na TV. Mas nada feito. Por sorte, encontrei bel\u00edssima resenha do mestre dos mestres Sergio Augusto, que ao contr\u00e1rio do ataque atual do seu Botafogo, mata a pau.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">E foi quando entendi tudo. O Flamengo, assim como outros times com mantos energizados pelas listras, n\u00e3o apenas acordam os deuses quando entram em campo. Ele os afronta, os desafia. E, vez por outra, os vence.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Sim, a resposta para nossos males e b\u00ean\u00e7\u00e3os est\u00e1 nela, nas listras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cListras. As Sagradas Escrituras j\u00e1 n\u00e3o as recomendavam\u201d, esmiu\u00e7a Sergio Augusto. \u201cEst\u00e1 no Lev\u00edtico: \u2018N\u00e3o levar\u00e1s sobre ti uma veste que seja feita de dois.\u2019 Dois tons, bem entendido. A fama, portanto, n\u00e3o \u00e9 antiga, \u00e9 antiqu\u00edssima. Pastoureau, contudo, fez do s\u00e9culo XII o seu ponto de partida, por ter sido naquela cent\u00faria que os carmelitas causaram esc\u00e2ndalo com seus primitivos mantos barrados. Nem um apelo do papa Alexandre IV, em 1260, conseguiu convenc\u00ea-los a adotar uma veste lisa.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Pedrada, n\u00e9? Meu \u00fanico lamento \u00e9 que Pastoureau n\u00e3o deve saber nada de m\u00fasica popular brasileira, caso contr\u00e1rio teria escrito sobre \u201cCamisa listada\u201d (assim mesmo, sem R), grande sucesso de Assis Valente no carnaval de 1938 que tamb\u00e9m deu maior treta, ao ser gravado por Carmen Miranda. (V\u00e1 na biografia do Ruy Castro para saber mais.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Sergio Augusto prossegue, deitando erudi\u00e7\u00e3o e bom estilo: \u201cOs mu\u00e7ulmanos sempre usaram mantos listrados numa boa; da\u00ed a pinimba da Igreja, avessa a qualquer parentesco com h\u00e1bitos orientais. De mais a mais, os tecidos listrados eram ent\u00e3o usados \u2013\u00a0em vestimentas, cintos, fitas, capuzes e barretes \u2013 por judeus, her\u00e9ticos, buf\u00f5es, saltimbancos, carrascos, prostitutas, leprosos e outros exclu\u00eddos da sociedade daquele tempo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Sim, amigos e irm\u00e3os flamengos, a mulambada se vestia como voc\u00ea e eu. Quer coisa mais bonita? Calma l\u00e1, que mestre Sergio Augusto n\u00e3o terminou, n\u00e3o seja rude:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cCaim, Judas, Dalila e Salom\u00e9 tamb\u00e9m haviam feito das listras um involunt\u00e1rio emblema de seu opr\u00f3brio. Nos pa\u00edses germ\u00e2nicos do s\u00e9culo XIII, as roupas dos bastardos, servos e condenados eram obrigatoriamente listradas. Acreditava-se que eles perturbavam ou pervertiam a ordem estabelecida e precisavam ser reconhecidos a dist\u00e2ncia. L\u00facifer e todas as criaturas sat\u00e2nicas eram quase sempre apresentados em trajes barrados, durante a Idade M\u00e9dia.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Aqui eu parei um pouco. Fiquei um pouco na d\u00favida se j\u00e1 existia a cor vermelha nessa \u00e9poca. Olhei o Cereto no mudo na TV. Preferi seguir adiante, que a aula do SA estava \u00f3tima. Na Renascen\u00e7a\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cEsse r\u00edgido esquema sinal\u00e9tico arrefeceu um pouco no Renascimento, mas a reputa\u00e7\u00e3o do pano listrado s\u00f3 mudaria substancialmente do final do s\u00e9culo XVIII em diante, depois de representar, na Fran\u00e7a, a vit\u00f3ria do bem (burgu\u00eas) contra o mal (aristocr\u00e1tico), o triunfo da marginalidade, e, no Novo Mundo, a implanta\u00e7\u00e3o da democracia moderna, raiada de stripes forever.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Eta, francesada boa da porra! Mas o Pastoureau n\u00e3o fica s\u00f3 de lero s\u00f3cio-cultural n\u00e3o, ele fala de quadrinhos e bola:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cNegativas nos uniformes dos campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas e dos presidi\u00e1rios do cinema e dos quadrinhos, as listras expandiram-se positivamente por outros corpos: de crian\u00e7as, banhistas, marujos e esportistas, seus mais benignos usu\u00e1rios. A semiologia das listras \u00e9 infinita e encontrou em Pastoureau um hermeneuta de ampla vis\u00e3o. Ampla o suficiente para incluir em seu invent\u00e1rio at\u00e9 as riscas do cal\u00e7\u00e3o do Obelix, do dentifr\u00edcio Signal e das camisas do Racing e do Juventus\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Aqui \u00e9 Flamengo, porra. N\u00e3o \u00e9 fabuloso? Quando os primeiros remadores, h\u00e1 125 anos, tiveram a brilhante ideia de trajarem listras, n\u00e3o imaginavam que quantidade de energia \u2013\u00a0e de cultura \u2013 estariam atraindo para as vestes flamengas. Um manto sagrado que, antes mesmo do Flamengo existir, j\u00e1 combatia preconceitos, vis\u00f5es tacanhas e mal\u00e9ficos religiosos medievais, inspira\u00e7\u00e3o para muita gente hoje a\u00ed no Twitter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Isso \u00e9 Flamengo. Isso \u00e9 manto sagrado. Isso \u00e9 perrengue. E, de mais a mais, quem se vestia igual Caim n\u00e3o vai agora dar mole para Abel, \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u00c9 reta final, \u00e9 Copa do Mundo, amigo. \u00c9 hora, enfim, de largar o ch\u00e1 com torrada e ir beber Parati. Vamos, Flamengo!<\/p>\n<div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/marcelo\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Marcelo Dunlop\t<\/a>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Outro dia, aqui no portal, o Arthur tentou fazer cr\u00f4nica mas fez poesia: \u201cQuando as primeiras c\u00e9lulas rubro-negras procariontes come\u00e7aram a se multiplicar como loucas, l\u00e1 na sopa primordial darwiniana, o elemento perrengue j\u00e1 estava presente.\u201d Glub, glub, pude at\u00e9 ouvir o som. Sim, aqui \u00e9 Flamengo. Aqui \u00e9 perrengue. 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