{"id":9082,"date":"2020-11-26T17:23:23","date_gmt":"2020-11-26T17:23:23","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=9082"},"modified":"2020-11-26T23:30:45","modified_gmt":"2020-11-26T23:30:45","slug":"o-que-deixamos-em-lima","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/o-que-deixamos-em-lima\/","title":{"rendered":"O que deixamos em Lima"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u00c9 a melhor das roupas, \u00e9 a pior das roupas, mas definitivamente n\u00e3o \u00e9 o traje ideal para uma pr\u00e9-estreia de gala. Ainda assim, estou no sof\u00e1, de moletom, meias de l\u00e3 e camisa de basquete do Flamengo, no aguardo do document\u00e1rio \u201cOnde estiver estarei\u201d, curta-metragem sobre as andan\u00e7as em Lima dos cupinchas Claudio Cruz &amp; Moraes (que dupla!).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Fa\u00e7o pipoca. Ou por outra: penso em fazer pipoca. Come\u00e7o a me lembrar\u00a0o que vivemos em 23 de novembro de 2019, a mente divaga e a pregui\u00e7a vence, de virada. Opto por um creme-craquer com requeij\u00e3o e uma borrifada de mostarda por cima, lanche campe\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Gosto dos velhos personagens, admiro os produtores do filme, Pedro Asbeg e Arthur Muhlenberg, mas a ansiedade em rela\u00e7\u00e3o a esta (em bom portugu\u00eas) avant-premi\u00e9re est\u00e1 em buscar sentir novamente um pouco daquele turbilh\u00e3o saboreado ano passado. Exatamente um ano depois, ainda n\u00e3o fa\u00e7o a menor ideia de como descrever aquele turbilh\u00e3o, e sento no sof\u00e1 para tentar descobrir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">J\u00e1 assisti a todas as reportagens sobre o Flamengo x River Plate, li e reli os livros, cr\u00f4nicas e artigos (cr\u00f4nica \u00e9 contar um causo, artigo \u00e9 explicar o caso, ensinou Rubem Braga). Fica evidente que exprimir em frases aquela sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 tarefa mais complexa do que achar o Arrasca livre dentro da \u00e1rea aos 43 minutos do segundo tempo, como fez Bruno Henrique.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Mauro Cezar, em sua cr\u00f4nica no UOL, rememorou a final como \u201cum dos jogos mais espetaculares da hist\u00f3ria. E hoje ele completa um ano. Nenhum de n\u00f3s voltou de l\u00e1 sendo a mesma pessoa. Voltamos melhores\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Arthur Muhlenberg tamb\u00e9m deixou registrado em cr\u00f4nica \u2013\u00a0e em livro \u2013\u00a0o lance eterno da gl\u00f3ria idem: \u201cGabigol, investido de todos os poderes do mundo livre, mete a canhota na bola com tamanha convic\u00e7\u00e3o, tamanha verdade, tamanha certeza de que a nossa hora tinha chegado que nem esperou ela bater na rede para come\u00e7ar a tirar a camisa e correr pro abra\u00e7o com o eterno.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">J\u00e1 meu companheiro de arquiba Rafael Amaral resumiu tudo muito bem em outra m\u00eddia, via \u00e1udio de zap: \u201cNo gol da virada, primo, a alma saiu do corpo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Sim, esportivamente foi a vit\u00f3ria redentora, transformadora, de abra\u00e7ar o eterno, de deixar a alma se pirulitar do corpo. E n\u00e3o apenas aos flamengos: a decis\u00e3o da Libertadores na capital peruana foi uma fa\u00e7anha futebol\u00edstica pura, l\u00edmpida, absoluta. N\u00e3o contou com condi\u00e7\u00f5es artificiais como gols fora de casa, meia hora de VAR, prorroga\u00e7\u00e3o, penalidades, influ\u00eancia de STJD. Foi lindo, e qualquer amante do esporte, se teletransportado dos anos 1930 ou dos anos 1950, direto do Maracan\u00e3 novinho em folha, entenderia com exatid\u00e3o e l\u00e1grimas o que se passava diante dos seus olhos. Um personagem de \u201cThe English Game\u201d que aparecesse ali tampouco precisaria perguntar nada, com exce\u00e7\u00e3o talvez sobre a cor das cabeleiras. Um roteiro perfeito ou, como dizem os fil\u00f3sofos, sem ca\u00f4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Mas nada disso explica o que sentimos, e sim por que o sentimos. Sim, quebramos cadeiras de pl\u00e1stico, beijamos cachorro na boca, soltamos morteiros no vizinho bacalhau (perd\u00e3o, turma) e ficamos, como meu amigo Leco, fritando no ch\u00e3o feito um robal\u00e3o fora d\u2019\u00e1gua. Mas o que foi exatamente aquilo que sentimos? Catarse coletiva. Transe. Euforia acumulada. N\u00e3o, amigos, foi bem mais do que isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Ali, naquele sof\u00e1, enquanto aguardava a Fla TV soltar o bendito filme, tive a luz, ao recordar um trecho escrito pelo franc\u00eas Emmanuel Carr\u00e8re. Em livro muito interessante sobre o subestimado poeta russo Limonov, Emmanuel se impressiona ao descobrir que seu personagem \u2013 poeta, mendigo, best-seller, guerrilheiro, inimigo de Putin e prisioneiro \u2013 foi capaz de, ao meditar e trabalhar sua respira\u00e7\u00e3o num pres\u00eddio sinistro na R\u00fassia, atingir a m\u00e1xima eleva\u00e7\u00e3o espiritual, a ilumina\u00e7\u00e3o mais pura, a plenitude do vazio. Sim, o que a sabedoria popular chama de nirvana, quando o tempo se anula e a alma, como afirma o poeta russo, \u00e9 raptada do corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Nas palavras do franc\u00eas Carr\u00e8re, quando somos al\u00e7ados a esse clar\u00e3o inimit\u00e1vel e inconfud\u00edvel, sentimos \u201calguma coisa que \u00e9 da ordem de um imenso al\u00edvio. Exonerados, o desejo e a ang\u00fastia que s\u00e3o a base da vida do homem. Eles voltar\u00e3o, claro, pois a menos que sejamos um desses iluminados que os hindus afirmam existir apenas um a cada s\u00e9culo, n\u00e3o podemos nos radicar nesse estado. Mas experimentamos o que \u00e9 a vida sem eles e sabemos de primeira m\u00e3o o que \u00e9 ser resgatado.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u00c9 isso, eu reflito. Sim, pelas barbas de Sidarta Gautama, foi isso o que nos aconteceu. O que as redes estufadas por Gabigol provocaram n\u00e3o foi uma explos\u00e3o de sentimentos, mas a implos\u00e3o de todos eles, o fim do apego, a liberta\u00e7\u00e3o das vontades individuais. Horas depois, claro, descemos, pousamos novamente em solo terreno e reencontramos o desejo e a ang\u00fastia, al\u00e9m da mob\u00edlia aos peda\u00e7os. Mas jamais ser\u00edamos os mesmos. Como exprimiu o poeta Eduard Limonov, falecido de c\u00e2ncer em 2020, \u201cnenhum castigo pode me atingir, saberei transform\u00e1-lo em felicidade. N\u00e3o retornarei \u00e0s emo\u00e7\u00f5es do homem comum.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u00c9 isso o Flamengo, uma entidade viva e eterna, capaz de banalizar at\u00e9 um \u00eaxtase espiritual como o nirvana, ao levar 40 milh\u00f5es de n\u00e3o hindus, ao mesmo tempo, a atingir tal estado da alma. O que explica, no fim das contas, por que s\u00f3 o Pedro est\u00e1 jogando bem (ele n\u00e3o foi a Lima), e o mau posicionamento do time em campo atualmente: \u00e9 duro jogar futebol quando se ainda est\u00e1 levitando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Abocanho o creme-craquer e lambo a mostarda no ded\u00e3o. O filme come\u00e7a, e a c\u00e2mera sobe por cima da multid\u00e3o na Candel\u00e1ria.<\/p>\n<div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/marcelo\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Marcelo Dunlop\t<\/a>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 a melhor das roupas, \u00e9 a pior das roupas, mas definitivamente n\u00e3o \u00e9 o traje ideal para uma pr\u00e9-estreia de gala. 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