{"id":8711,"date":"2020-09-04T13:11:29","date_gmt":"2020-09-04T13:11:29","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=8711"},"modified":"2020-09-04T13:13:40","modified_gmt":"2020-09-04T13:13:40","slug":"rpa-rural-informa-urge-acabar-com-as-sauvas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/rpa-rural-informa-urge-acabar-com-as-sauvas\/","title":{"rendered":"Urge acabar com as sa\u00favas."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Faz tempo. O google informa que a passagem do bot\u00e2nico franc\u00eas Auguste de Saint-Hilaire pelo Brasil aconteceu entre 1816 e 1822. Apesar do deslumbramento com a fauna e a flora, Saint-Hilaire se assustou com o poder de destrui\u00e7\u00e3o exercido pelas sa\u00favas inclusive sobre \u00e1rvores frondosas, e soltou a frase que virou meme: \u201cOu o Brasil acaba com as sa\u00favas, ou as sa\u00favas acabam com o Brasil.\u201d Dois s\u00e9culos se passaram e, at\u00e9 onde sei, as formigas cortadeiras permanecem firmes. O pa\u00eds \u00e9 que n\u00e3o anda l\u00e1 se sentindo muito bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Pois o futebol tamb\u00e9m tem convivido com tr\u00eas sa\u00favas devastadoras. A primeira e maior delas \u00e9, decerto, a pandemia, que impede a ida das pessoas aos est\u00e1dios e transformou o maior esporte que o ser humano foi capaz de inventar em algo sem sal, sem gosto e sem magia. N\u00e3o h\u00e1 como ser diferente do que tem sido \u2013 caso cl\u00e1ssico de s\u00f3 tem tu, vai tu mesmo \u2013, mas as partidas jamais foram t\u00e3o chochas e sem vibra\u00e7\u00e3o. Pouco antes do futebol retornar, Romildo Bolzan J\u00fanior, presidente do Gr\u00eamio, afirmou: \u201cSer\u00e1 triste e desestimulante, porque a torcida \u00e9 parte importante do jogo. Sem ela, os jogos ser\u00e3o treinos que ir\u00e3o valer alguma coisa.\u201d Quem viu a vit\u00f3ria do Flamengo sobre o Bahia h\u00e1 de concordar: teve toda a pinta de treino valendo tr\u00eas pontinhos.  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> A segunda sa\u00fava \u00e9 uma das mais est\u00fapidas mudan\u00e7as de regra operadas pela Fifa, e que praticamente elimina a diferen\u00e7a entre bola na m\u00e3o e m\u00e3o na bola. Para conversar sobre assunto de tal grandeza, nada melhor do que recorrer ao mestre dos mestres: no imprescind\u00edvel <em>O Negro no Futebol Brasileiro<\/em>, Mario Filho conta que no final da d\u00e9cada de quarenta, convencida de que diferen\u00e7as nos crit\u00e9rios de arbitragem haviam prejudicado nossa sele\u00e7\u00e3o na Copa de 1938, a CBD (m\u00e3e da CBF) convidou o juiz ingl\u00eas George Reader para apitar os amistosos que o Southampton faria no Brasil. Em um dos primeiros lances da partida entre o clube brit\u00e2nico e o Fluminense, a bola fugiu ao controle do atacante tricolor Orlando Pingo de Ouro e resvalou em sua m\u00e3o. Orlando parou, acusando a infra\u00e7\u00e3o, e se surpreendeu com a atitude de Mr. Reader, que viu e nada marcou. Mais tarde, o juiz esclareceu: como Orlando n\u00e3o tivera a inten\u00e7\u00e3o de colocar a m\u00e3o na bola, a jogada deveria seguir. Estava explicado o que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o sab\u00edamos: uma coisa era m\u00e3o na bola, outra coisa era bola na m\u00e3o. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Ainda hoje, de vez em quando aparece quem condene a antiga regra com o argumento de que \u00e9 imposs\u00edvel, ao juiz, determinar a inten\u00e7\u00e3o de um jogador. Uma dica: sempre que voc\u00ea ouvir isso, tenha a certeza de que o interlocutor nunca foi capaz de fazer tr\u00eas embaixadinhas no mais mixuruca dos campinhos de pelada. Sabe nada. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Para justificar a mudan\u00e7a na regra, surgiu outra bizarrice a que deram o nome de \u201cmovimento antinatural\u201d. T\u00e1 legal. A\u00ed o atacante carrega a bola junto \u00e0 lateral da \u00e1rea, prepara o cruzamento e, na corrida, o zagueiro \u00e9 obrigado a cruzar os bra\u00e7os atr\u00e1s das costas, como se dan\u00e7asse o xaxado. Natural \u00e0 be\u00e7a, n\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> A antiga regra era perfeita e sua justa aplica\u00e7\u00e3o dependia unicamente da qualidade dos ju\u00edzes. E o que temos agora? O segundo gol da sele\u00e7\u00e3o francesa contra os croatas, na decis\u00e3o da Copa do Mundo de 2018 (o placar estava um a um), veio com um p\u00eanalti em lance de bola na m\u00e3o. Na final da Champions League, temporada 2018\/2019, o primeiro gol do Liverpool aconteceu num p\u00eanalti em que o atacante Man\u00e9 cruzou a bola diretamente no sovaco de Sissoko, meio-campista do Tottenham. Se puder, reveja a jogada: caso Sissoko estivesse com o bra\u00e7o direito aberto (movimento antinatural?), n\u00e3o haveria o toque na m\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Embora a nova regra tamb\u00e9m sirva para anular gols, como no \u00faltimo Flamengo x Botafogo, intuo que a origem da mudan\u00e7a esteja no discut\u00edvel desejo de ampliar, a qualquer pre\u00e7o, o n\u00famero de gols durante as partidas. Volta e meia a Fifa tem essa reca\u00edda. Em meados da d\u00e9cada de noventa, e ainda sob a presid\u00eancia de Jo\u00e3o Havelange, a entidade discutia o aumento do espa\u00e7o entre as balizas. Pensava-se em deixar o travess\u00e3o 23 cent\u00edmetros mais alto, enquanto a dist\u00e2ncia da trave direita para a esquerda cresceria perto de meio metro. Chegou-se a autorizar o experimento, em torneios das divis\u00f5es inferiores do futebol europeu. N\u00e3o se teve mais not\u00edcia da aberra\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Todavia, \u00e9 injusto dizer que as mudan\u00e7as promovidas pela Comiss\u00e3o de Arbitragem da Fifa s\u00e3o invariavelmente para pior. A altera\u00e7\u00e3o que permitiu a um jogador de linha receber o tiro de meta dentro da sua \u00e1rea pode contribuir para deixar o jogo mais bem jogado. O S\u00e3o Paulo, dirigido por Fernando Diniz, tem utilizado de forma constante o novo recurso. Quando o goleiro Tiago Volpi vai bater um tiro de meta, o meio-campista Tch\u00ea Tch\u00ea encosta para recolher o passe na marca do p\u00eanalti, e dali sai tocando. Claro que n\u00e3o \u00e9 para qualquer um: o Bahia tentou fazer igual contra o Flamengo, s\u00f3 que, grosso toda vida, o zagueiro Lucas Fonseca entregou a mariola no primeiro gol de Pedro. Passarinho que come pedra, o resto da frase voc\u00ea conhece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Mais uma: com a interrup\u00e7\u00e3o do futebol e a comemora\u00e7\u00e3o pelos cinquenta anos do t\u00edtulo mundial de 1970, a tev\u00ea passou a mostrar antigas partidas da sele\u00e7\u00e3o brasileira. Nada mais antijogo do que o zagueiro dominar a bola perto da \u00e1rea, ser apertado pelo atacante e recuar nas m\u00e3os do goleiro. A mudan\u00e7a na regra, que ocorreu em 1992 e transformou o lance em infra\u00e7\u00e3o, foi boa provid\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> N\u00e3o perdi a esperan\u00e7a de que a penaliza\u00e7\u00e3o da bola na m\u00e3o, de t\u00e3o absurda, ser\u00e1 reavaliada. Entretanto, desanimo quando vejo a Fifa aplaudir as decis\u00f5es da arbitragem em lances como os das citadas finais da Copa do Mundo, em Moscou, e da Champions League, em Madri. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Por fim: ao contr\u00e1rio das outras duas \u2013 est\u00e1dios vazios por conta da pandemia e obedi\u00eancia a uma determina\u00e7\u00e3o da Fifa \u2013, a terceira sa\u00fava pode e deve ser repensada pelos mandachuvas do futebol brasileiro: o uso indiscriminado, equivocado e abusivo do VAR.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Antes de qualquer coisa: n\u00e3o sou contra o VAR. Relutei no in\u00edcio e sucumbi ao ver a modernidade irreversivelmente instalada, por\u00e9m continuo achando inconceb\u00edvel que se leve mais de dois minutos para tomar uma decis\u00e3o no campo. Se um p\u00eanalti precisa de mais de dois minutos para ser marcado, que n\u00e3o se marque. Se um gol precisa de mais de dois minutos para ser anulado, que n\u00e3o se anule. Demoras superiores a dois minutos s\u00e3o evid\u00eancias da procura por pelo em ovo, e o VAR n\u00e3o foi feito para isso. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> E o que dizer do anticl\u00edmax? Na d\u00e9cada de oitenta, a Rede Bandeirantes tinha um programa dominical chamado <em>Gol: O Grande Momento do Futebol<\/em>. A abertura trazia os acordes iniciais de \u201cEquinoxe 5\u201d, new age brega de Jean Michel Jarre, e o apresentador Alexandre Santos garantia ter em m\u00e3os \u201co maior arquivo de gols da televis\u00e3o brasileira\u201d. Era uma del\u00edcia. Do jeito que est\u00e1 sendo aplicado no Brasil, o VAR mudaria o nome do programa. O gol tem se tornado, frequentemente, o momento mais sensabor\u00e3o do futebol.   <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Outra medida que a Fifa deveria adotar, para ontem, seria a revis\u00e3o do crit\u00e9rio que na pr\u00e1tica anula o fim do impedimento na mesma linha. Atualmente, com aqueles tra\u00e7ados em azul e vermelho determinando cientificamente se a unha de um est\u00e1 \u00e0 frente da do outro, a ideia foi pro saco. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Entretanto, o maior problema est\u00e1 na importa\u00e7\u00e3o, para o futebol \u2013 esporte em que h\u00e1 contato f\u00edsico constante e muitas decis\u00f5es exigem interpreta\u00e7\u00e3o \u2013, de um recurso que funciona de forma inquestion\u00e1vel e r\u00e1pida, por exemplo, no v\u00f4lei ou no t\u00eanis. A c\u00e2mera registra se a bola bateu fora ou dentro, se algu\u00e9m invadiu por cima ou por baixo, se houve ou n\u00e3o o toque na m\u00e3o do bloqueio. N\u00e3o h\u00e1 o que discutir. No futebol o buraco \u00e9 mais embaixo, e a\u00ed voltamos ao eterno calcanhar de Aquiles: a necessidade de qualificar a arbitragem. O cara pode assistir \u00e0s jogadas dezenas de vezes e por diversos \u00e2ngulos, se ele n\u00e3o for um bom int\u00e9rprete das regras, vai errar. Al\u00e9m do que, nossas transmiss\u00f5es costumam n\u00e3o ajudar, com narradores e comentaristas garantindo que \u201chouve o contato\u201d (narram e comentam futebol ou v\u00f4lei?) e repetindo imagens \u00e0 exaust\u00e3o, at\u00e9 que se perceba o dedo mindinho do zagueiro central cutucando o umbigo do centroavante. De novo, pelo em ovo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Para ilustrar, alguns exemplos tirados dessas primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro, a respeito de decis\u00f5es que se escoraram nas consultas \u00e0 tecnologia. Flamengo x Gr\u00eamio: discordo do p\u00eanalti marcado contra o Gr\u00eamio. Flamengo x Botafogo: discordo tanto da anula\u00e7\u00e3o do gol de Gabriel quanto do p\u00eanalti a favor do Flamengo. Botafogo x Internacional: concordo com a anula\u00e7\u00e3o do gol de Mateus Babi, discordo da anula\u00e7\u00e3o do gol de Bruno Naz\u00e1rio. (Menor paci\u00eancia com ju\u00edzes que, estejam no gramado ou na cabine, ainda caem no conto das simula\u00e7\u00f5es dos manhosos jogadores brasileiros.) Santos x Flamengo: concordo com a anula\u00e7\u00e3o dos dois gols do Santos. Palmeiras x Internacional: discordo do p\u00eanalti a favor do Inter. Santos x Vasco: concordo com a valida\u00e7\u00e3o do gol de Felipe Bastos, discordo do p\u00eanalti contra o Santos. Atl\u00e9tico Mineiro x S\u00e3o Paulo: discordo da anula\u00e7\u00e3o do gol s\u00e3o-paulino. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Ou seja, minha rela\u00e7\u00e3o com os ju\u00edzes de futebol n\u00e3o mudou nada. Eles continuam acertando e errando como sempre, eu sigo concordando e discordando como tem acontecido h\u00e1 mais de cinquenta anos. O problema \u00e9 que, devido \u00e0 lentid\u00e3o e \u00e0 falsa sensa\u00e7\u00e3o de infalibilidade, o VAR virou uma sa\u00fava voraz. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Mesmo estando fora de cogita\u00e7\u00e3o descart\u00e1-lo, a CBF precisa urgentemente aprender a lidar com ele.<\/p>\n<div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/jorge-murtinho\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Jorge Murtinho\t<\/a>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faz tempo. 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