{"id":8615,"date":"2020-08-16T01:12:48","date_gmt":"2020-08-16T01:12:48","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=8615"},"modified":"2020-08-16T03:33:02","modified_gmt":"2020-08-16T03:33:02","slug":"moraes-80-anos-e-zico-na-italia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/moraes-80-anos-e-zico-na-italia\/","title":{"rendered":"Moraes 80 anos e Zico na It\u00e1lia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Hoje, o m\u00edtico torcedor Francisco Moraes completa 80 anos, mas parece que fez 79. Em homenagem ao maior acumulador de milhas da hist\u00f3ria rubro-negra, recordamos um de seus textos antol\u00f3gicos, publicados no site Historiadetorcedor.com.br.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><em><strong>****\u201cZico em Udine\u201d****<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Em 1983 o Flamengo conquistou o tricampeonato brasileiro. Fomos a todos os jogos do campeonato e pudemos atestar a popularidade do Flamengo e da Ra\u00e7a Rubro-Negra. Onde o time jogasse, era festa na cidade e havia sempre gente querendo saber onde os &#8220;Caras da Ra\u00e7a&#8221; estavam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Numa dessas viagens, logo na primeira fase, fomos a Manaus, Bel\u00e9m e S\u00e3o Lu\u00eds. Em Bel\u00e9m, est\u00e1vamos Z\u00e9 Carlos e eu no sagu\u00e3o do hotel, fazendo hora, quando chega um grupo de rapazes dizendo-se fundadores da \u201cFla-Fla de Bel\u00e9m&#8221;. Eles iam estrear a nova torcida no jogo contra o Paissandu e queriam oferecer o apoio da torcida. Um deles, m\u00e9dico, falou:<br \/>\n\u2013\u00a0Tudo o que voc\u00eas precisarem a gente faz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">N\u00e3o sei por qu\u00ea, me deu um estalo e falei:<br \/>\n\u2013\u00a0T\u00e1 bom, vamos agitar um pouco Bel\u00e9m. Isso aqui t\u00e1 meio morno. Vamos promover esse jogo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">O pessoal da Fla-Fla era bem relacionado e come\u00e7amos uma peregrina\u00e7\u00e3o pelas r\u00e1dios e televis\u00f5es. Viramos celebridades locais, dando entrevistas, desafiando o Paissandu a fazer gol no Flamengo e, mais do que tudo, convocando toda a torcida do Flamengo para ficar onde a faixa da Ra\u00e7a estivesse. Foram dois dias de promo\u00e7\u00e3o, que inflamaram a cidade. O jogo, que j\u00e1 ia ser sucesso garantido, arrebentou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">No domingo n\u00e3o cabia nem uma pulga no est\u00e1dio, que estava sendo inaugurado \u2013\u00a0inacabado, claro \u2013 naquele dia. Deu at\u00e9 medo do tro\u00e7o desabar. Mas o mais bonito era ver que 80% do est\u00e1dio eram Flamengo, e que todo mundo que entrava apontava logo para a faixa da Ra\u00e7a e vinha em nossa dire\u00e7\u00e3o. S\u00e3o espet\u00e1culos como esse que recompensam o esfor\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Mas, claro, o fato marcante do ano de 1983 foi a venda do Zico para a Udinese. Uma trag\u00e9dia. Uma frustra\u00e7\u00e3o enorme ver o Galo jogando com outra camisa (e, o pior, alvinegra). Quando foi anunciada a venda, a galera queria quebrar a G\u00e1vea. Foi uma loucura conter o pessoal. S\u00f3 salvou mesmo a lideran\u00e7a do Cl\u00e1udio Cruz, pois, se fosse hoje, n\u00e3o sobrava nem azulejo na sede.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">O que mais irritava era a atitude de indiferen\u00e7a de certos setores do clube. No meio da confus\u00e3o em que a G\u00e1vea se transformara, um &#8220;benem\u00e9rito&#8221; gritou:<br \/>\n\u2013\u00a0Esses merdas ficam reclamando da venda do Zico! Mas foram 4 milh\u00f5es de d\u00f3lares! O Flamengo precisa do dinheiro, esses favelados n\u00e3o devem nem ter no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">O Z\u00e9, que morava num apartamento que valia isso, berrou tamb\u00e9m:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u2013\u00a0Quatro milh\u00f5es acabam em um m\u00eas, com a roubalheira aqui dentro. Isso n\u00e3o \u00e9 dinheiro para um clube do tamanho do Flamengo. O Zico \u00e9 muito mais importante do que essa merreca, seu merda! Meu apartamento vale isso e tu n\u00e3o tem dinheiro pra comprar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">O Z\u00e9 ali\u00e1s ficou t\u00e3o abalado que cheguei a sugerir que fosse a um analista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Mas div\u00e3 de torcedor fan\u00e1tico \u00e9 a arquibancada. O Flamengo foi convidado para fazer o jogo de apresenta\u00e7\u00e3o do Zico em Udine, e depois para participar do Mundialito de Clubes Campe\u00f5es Mundiais, que seria realizado em Mil\u00e3o, com a participa\u00e7\u00e3o da Juventus, Milan, Internazionale e o Pe\u00f1arol, do Uruguai. Era a nossa oportunidade de espantar a depress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">S\u00f3 que, para variar, est\u00e1vamos duros. N\u00e3o dava para guardar dinheiro. Era viagem em cima de viagem, no Brasil e no exterior. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o dava para perder a estreia do Galo. Imposs\u00edvel perder esse jogo. Fizemos os planos, contamos o dinheiro, vendemos o que restava para vender, e conseguimos uns trocados. Para nossa sorte, dessa vez o d\u00f3lar paralelo estava com um \u00e1gio de quase 100% sobre o oficial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Pegamos 300 verdinhas na m\u00e3o, fomos a uma casa de c\u00e2mbio trocar por cruzeiros, no mercado paralelo. Quase dobramos nossa grana. Depois fomos ao Banco do Brasil para comprar US$ 500 no c\u00e2mbio oficial, em nome do Z\u00e9 Carlos. Como o gerente era componente da Ra\u00e7a, nos deu a grana em papel, cash mesmo. Voltamos \u00e0 casa de c\u00e2mbio: vendemos os 500 no paralelo e repetimos a opera\u00e7\u00e3o no Banco do Brasil, agora em meu nome. \u00cata pa\u00eds legal! Com apenas duas atravessadas de rua transformamos 300 d\u00f3lares em mil. Depois vendemos as mil doletas no paralelo e j\u00e1 deu para a entrada nas passagens a\u00e9reas. Puxa daqui, arranja dali, conseguimos mais uns trocados em d\u00f3lar. Para engrossar o or\u00e7amento, levamos 50 camisas do Flamengo, pensando em vender, no m\u00ednimo, a 50 d\u00f3lares cada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Compramos as passagens Rio-Madri-Rio, planejando encarar o resto da viagem de trem. Sabia que, se a coisa apertasse, dava pra correr para Barcelona e rever os amigos do Regencia Colon.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Chegamos a Udine na v\u00e9spera do jogo e ficamos num hotelzinho perto da esta\u00e7\u00e3o. Nessa altura do campeonato, o Zico j\u00e1 era o dono da cidade \u2013\u00a0era prefeito, gari, m\u00e9dico, deputado etc. Ficamos conhecidos na cidade como \u201camigos do novo jogador\u201d E olha que ele nem tinha estreado ainda. Quando chegamos ao hotel vestidos com a camisa do Flamengo, a di\u00e1ria baixou para 20 d\u00f3lares (o apartamento duplo). J\u00e1 deu uma aliviada, porque t\u00ednhamos gastado mais de 150 d\u00f3lares com passagens e comida de Madri at\u00e9 Udine.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Por volta das dez da manh\u00e3 fomos ao hotel do Flamengo, que ficava nos arredores da cidade. Lembro-me bem da cara de espanto do doutor Taranto, m\u00e9dico da delega\u00e7\u00e3o, quando nos viu:<br \/>\n\u2013\u00a0At\u00e9 aqui Moraes?! N\u00e3o acredito! Eu j\u00e1 devia estar acostumado&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">O Zico tamb\u00e9m estava no hotel. Uma confus\u00e3o dos diabos. A imprensa do mundo inteiro estava l\u00e1, sem entender como o maior jogador do mundo foi jogar no Madureira de l\u00e1. Coisas da vida&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">A essa altura todo mundo j\u00e1 tava sabendo \u201cda nossa fama\u201d, tanto assim que os dirigentes da Udinese se colocaram \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o. N\u00f3s s\u00f3 pedimos as entradas para a partida e que pud\u00e9ssemos ir ao gramado colocar nossas faixas. Digo \u201cnossas\u201d porque t\u00ednhamos duas, desta vez: a tradicional, da Ra\u00e7a, e uma feita com esparadrapo no hotel, com os dizeres &#8220;Buona fortuna, Zico&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Na hora do jogo, veio um carro nos levar e tivemos total liberdade para nos movimentar no est\u00e1dio e pendurar as faixas. Dentro do est\u00e1dio fomos aplaudidos. Os caras deliravam&#8230; J\u00e1 imaginou? Uma cidadezinha, do tamanho de um ovo, recebendo o maior jogador do mundo, o que atraiu toda a imprensa do planeta? Algu\u00e9m j\u00e1 havia ouvido falar de Udine???<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Aproveitando o sucesso, abrimos logo a nossa &#8220;boutique&#8221;. Do nosso estoque s\u00f3 levamos dez camisas, que foram vendidas em pouco tempo a 70 d\u00f3lares cada. Se tiv\u00e9ssemos levado todas para o est\u00e1dio, n\u00e3o sobraria uma. Mais uma vez deu vontade de matar o Z\u00e9. Foi ele que insistiu que, em Mil\u00e3o, o pre\u00e7o seria maior&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Levamos um \u201cchocolate\u201d. Eles fizeram 4 a 1 rapidinho e, n\u00e3o fosse o Raul em dia inspirado, \u00edamos tomar de dez. Triste mesmo foi ver o Zico jogar, ainda que s\u00f3 por 15 minutos, com aquela camisa preta e branca. O Z\u00e9 estava arrasado, pronto para voltar para o psicanalista:<br \/>\n\u2013\u00a0Nunca pensei, Moraes, nunca pensei que fosse ver o Zico jogando contra. \u00c9 de doer \u2013\u00a0choramingava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">No dia seguinte, retornamos a Mil\u00e3o para ver o \u201cMundialito\u201d. Nosso problema era grana e, nosso trunfo, o Flamengo. Conhecemos um cara chamado William, brasileiro, goiano e flamenguista roxo, que morava em Mil\u00e3o e estudava medicina. Como era per\u00edodo de f\u00e9rias, ele conseguiu que fic\u00e1ssemos no dormit\u00f3rio da faculdade (que era cat\u00f3lica) por sete d\u00f3lares por pessoa. Mais barato imposs\u00edvel. O \u00fanico inconveniente era o hor\u00e1rio e a disciplina do local. Havia uma esp\u00e9cie de toque de despertar, \u00e0s seis da matina, e outro de recolher, dez da noite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Conseguimos contornar a situa\u00e7\u00e3o \u201csubornando\u201d o administrador do pr\u00e9dio com uma camisa do Flamengo. Assim, dorm\u00edamos o quanto quis\u00e9ssemos e sa\u00edamos dos quartos s\u00f3 quando a barra estava limpa. \u00c0 noite era mais f\u00e1cil. Os padres dormiam cedo e entr\u00e1vamos pelos fundos, com a chave que o administrador nos emprestou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u00cdamos ficar quase 15 dias em Mil\u00e3o, com pouca grana, pouqu\u00edssima. Passe\u00e1vamos pela cidade e \u00edamos sempre para o hotel da delega\u00e7\u00e3o, que ficava num condom\u00ednio imenso, uma verdadeira cidade dentro de Mil\u00e3o. Tanto que se chamava Milano Due (Mil\u00e3o 2). Era longe pra burro, peg\u00e1vamos um metr\u00f4 e um trem para chegar l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Dada a nossa prec\u00e1ria situa\u00e7\u00e3o financeira, pedimos, pela primeira vez na vida, para ir aos jogos e aos poucos treinos no \u00f4nibus da delega\u00e7\u00e3o. Fomos prontamente atendidos, at\u00e9 porque parecia que a viagem era de f\u00e9rias. Todos os jogadores que quiseram levaram as mulheres, noivas, namoradas e agregadas. Havia tamb\u00e9m uns 30 diretores com as respectivas esposas. Uma verdadeira festa \u2013\u00a0o dinheiro da venda do Zico estava sendo bem aplicado&#8230; Resolvemos, ent\u00e3o, ser &#8220;beirinhas vips\u201d. Se arrependimento matasse&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">A Ana, mulher do goleiro Raul, desconfiou que est\u00e1vamos numa pior e, com instinto de \u201csuper-m\u00e3e\u201d, todo dia, no caf\u00e9 da manh\u00e3 dos jogadores, preparava um verdadeiro farnel para n\u00f3s: p\u00e3o, biscoito, manteiga, geleia, queijo, frutas etc. Tudo devidamente surrupiado e entregue num sacol\u00e3o. Aquilo era o nosso caf\u00e9, almo\u00e7o, jantar e ceia. Manjar dos deuses para quem estava como a gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Na v\u00e9spera da primeira partida recebemos um refor\u00e7o de peso. Chegou de Londres, onde estudava ingl\u00eas, meu amigo Emanuel de Castro, o popular Danone. Por sinal, o Danone hoje \u00e9 um grande produtor de filmes de surfe, bicampe\u00e3o mundial dessa atividade e um \u201cgrand\u00e3o\u201d da TV Globo. Ta\u00ed uma coisa que eu gostaria de entender: at\u00e9 a \u00faltima vez que o vi, o Danone entendia tanto de surfe como eu entendo de medicina nuclear. Se algu\u00e9m quebrasse o quengo dele com uma prancha de surfe, ele ia pensar que tinha sido atropelado por uma t\u00e1bua de passar roupa&#8230; Por favor, irm\u00e3o, me ensina o caminho das pedras!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Ficamos os tr\u00eas juntos at\u00e9 o final do torneio. No jogo contra o Milan vendemos as 3- camisas restantes. O menor pre\u00e7o foi 70 d\u00f3lares. Dependendo da cara do fregu\u00eas, custava cem\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Decidimos o t\u00edtulo com o Juventus e, al\u00e9m de jogarmos mal, fomos escancaradamente roubados pelo juiz. Perdemos de 2 a 1. Jogamos t\u00e3o mal que o pr\u00f3prio presidente do Flamengo, que estava com a esposa, saiu antes do fim do jogo, resmungando:<br \/>\n\u2013\u00a0Nunca vi tanto rebolado na minha vida&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Ap\u00f3s a partida algo bem mais desagrad\u00e1vel do que a derrota nos esperava. O problema come\u00e7ou no dia em que aceitamos a gentileza do Flamengo de nos ceder ingressos. Apesar do gesto simp\u00e1tico, n\u00f3s continu\u00e1vamos sendo torcedores e fomos \u00e0s pr\u00f3prias custas ver o nosso time jogar. N\u00e3o \u00e9ramos profissionais de torcida. E, como torcedores pagantes, t\u00ednhamos todo o direito de xingar, pedir ra\u00e7a, enfim, agir como um torcedor normal quando v\u00ea uma jogada errada ou um gol perdido. Isso \u00e9 normal em qualquer est\u00e1dio do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">(Eu, particularmente, j\u00e1 xinguei o Zico, o Leandro, o J\u00fanior, o Carpegiani, craques que tamb\u00e9m erravam.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Mas uma das madames, que viajou de gra\u00e7a, se sentiu ofendida ao ver e ouvir o nome do maridinho em nossas bocas, e foi reclamar com o Carlos Alberto Torres, t\u00e9cnico da equipe. Disse que n\u00f3s est\u00e1vamos ofendendo os jogadores, chamando-os de mascarados, frouxos, maricas (quem ainda usa \u201cmaricas&#8221;?) etc. Coisa t\u00edpica de perua&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Depois do jogo, todos de cabe\u00e7a quente, e n\u00f3s no \u00f4nibus que levaria a delega\u00e7\u00e3o de volta para o hotel. O Carlos Alberto Torres chegou no meio do \u00f4nibus e come\u00e7ou um discurso enaltecendo a garra do time do Flamengo. At\u00e9 a\u00ed, tudo ia bem, se bem que nenhum de n\u00f3s entendia aonde ele queria chegar. De repente, ele passou a berrar de dedo em riste:<br \/>\n\u2013\u00a0Voc\u00ea e voc\u00ea (apontando para n\u00f3s dois): nenhum jogador do Flamengo \u00e9 maricas, frouxo ou covarde. S\u00e3o homens que honram a camisa&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">A gente, sem entender absolutamente nada, falou:<br \/>\n\u2013\u00a0Tu t\u00e1 maluco, o que aconteceu?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Ele e um dirigente, transtornados, partiram para me dar porrada. Voc\u00eas j\u00e1 viram o tamanho do homem? Uns 2,95m por 0,90m, isso sentado. Desci do \u00f4nibus batendo todos os recordes de corrida com obst\u00e1culos. Quem salvou a p\u00e1tria foi o jornalista M\u00e1rcio Guedes, na \u00e9poca comentarista da TV Globo, que nos botou num carro e nos levou de volta ao nosso mosteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Arrasados (pela derrota e, principalmente, pelo incidente), iniciamos na mesma noite a volta para o Brasil, via Barcelona e Madri. Estava preocupado com o estado emocional do Z\u00e9, que nem falava, nem comia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Paramos um dia em Barcelona e fomos &#8220;conversar&#8221; com o pessoal da Varig. \u00c9 que nossos bilhetes a\u00e9reos eram da gloriosa Pluna (Las Primeras Lineas Uruguayas de Navegacion Aerea). Algu\u00e9m a\u00ed j\u00e1 viajou de Pluna? Naquela \u00e9poca, a simp\u00e1tica companhia a\u00e9rea cobrava um pre\u00e7o baratinho para a Europa, mas em compensa\u00e7\u00e3o&#8230; Para resumir: certa vez, pedi um copo d\u2019\u00e1gua no voo. Ouvi na lata:<br \/>\n\u2013\u00a0Vai pegar, se quiser!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Na hora da comida, o comiss\u00e1rio perguntava, no \u201cgrit\u00e3o\u201d mesmo: quem quer comer, levante a m\u00e3o! Quem levantasse a m\u00e3o tinha que ficar esperto porque eles jogavam a bandeja na tua dire\u00e7\u00e3o. Se pegasse, comia&#8230; Se n\u00e3o pegasse, levava uma bandejada nos cornos&#8230; Meus Deus, socorro!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Nossas passagens eram para dali a cinco dias, e n\u00e3o dava mais para ficar na Espanha sem dinheiro. Detalhe: nossos bilhetes Pluna n\u00e3o eram endoss\u00e1veis, valiam nada. Usando a triste e deplor\u00e1vel estampa do Z\u00e9 Carlos como argumento, consegui dobrar o gerente da Varig em Barcelona, que literalmente rasgou os bilhetes daquela companhia e nos colocou em um voo Varig do dia seguinte. Partimos no trem noturno para Madri. De manh\u00e3, na capital espanhola, fizemos a \u00fanica coisa sensata a fazer. Fomos para o aeroporto \u00e0s onze da manh\u00e3 para aguardar um voo que sa\u00eda meia-noite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Do aeroporto de Madri ligamos para o Cl\u00e1udio no Brasil, e relatamos o ocorrido no \u00f4nibus. Ele se movimentou e no dia seguinte o \u201cJornal do Brasil\u201d deu meia p\u00e1gina sobre o epis\u00f3dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Quando chegamos ao Gale\u00e3o, a galera rubro-negra nos esperava em massa, num ato de desagravo. N\u00e3o demorou muito, e o Carlos Alberto foi demitido do Flamengo. Pouco tempo depois, at\u00e9 o presidente do clube renunciou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/ladrilheiros\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Ladrilheiros\t<\/a>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, o m\u00edtico torcedor Francisco Moraes completa 80 anos, mas parece que fez 79. Em homenagem ao maior acumulador de milhas da hist\u00f3ria rubro-negra, recordamos um de seus textos antol\u00f3gicos, publicados no site Historiadetorcedor.com.br. ****\u201cZico em Udine\u201d**** Em 1983 o Flamengo conquistou o tricampeonato brasileiro. Fomos a todos os jogos do campeonato e pudemos atestar &#8230; <a class=\"read-more-link\" href=\"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/moraes-80-anos-e-zico-na-italia\/\">Read More <i class=\"ico-946\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":10,"featured_media":8628,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[103,32,30,107,35],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8615"}],"collection":[{"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/10"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8615"}],"version-history":[{"count":12,"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8615\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8629,"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8615\/revisions\/8629"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8628"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8615"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8615"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8615"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}