{"id":8434,"date":"2020-07-19T13:55:48","date_gmt":"2020-07-19T13:55:48","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=8434"},"modified":"2020-07-19T13:55:48","modified_gmt":"2020-07-19T13:55:48","slug":"jk-jj-e-o-beco-do-mota","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/jk-jj-e-o-beco-do-mota\/","title":{"rendered":"JK, JJ e o Beco do Mota."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Em 1971, o amadorense Jorge Fernando Pinheiro de Jesus completou dezessete anos de idade, e \u00e9 prov\u00e1vel que jamais tivesse escutado uma can\u00e7\u00e3o de Milton Nascimento. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Naquele ano, alguns integrantes do que viria a ser conhecido como Clube da Esquina se encontraram casualmente, em Diamantina, com o ex-presidente da Rep\u00fablica Juscelino Kubitschek e armaram uma descontra\u00edda roda de viol\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Uma das m\u00fasicas que tocaram foi <em>Beco do Mota<\/em>. O trecho final da letra de Fernando Brant diz que \u201cDiamantina \u00e9 o Beco do Mota \/ Minas \u00e9 o Beco do Mota \/ Brasil \u00e9 o Beco do Mota \/ Viva o meu pa\u00eds\u201d. Para quem n\u00e3o sabe, o extinto Beco do Mota estava para Diamantina do mesmo modo que a Pinto de Azevedo para a cidade do Rio de Janeiro. Ou, como disse Cazuza com menos sutileza, na letra de <em>O Tempo N\u00e3o Para<\/em>: \u201cTe chamam de ladr\u00e3o, de bicha, maconheiro \/ Transformam o pa\u00eds inteiro num puteiro \/ Pois assim se ganha mais dinheiro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Nascido em Diamantina, JK n\u00e3o conhecia a can\u00e7\u00e3o, que fora gravada em 1969. No entanto, arteiro e serelepe, tudo indica ter frequentado, na juventude, o local que a inspirara. Ao ouvir os versos finais, deu um sorriso maroto para os talentosos m\u00fasicos mineiros e comentou: \u201cVoc\u00eas s\u00e3o uns safados.\u201d Mais de meio s\u00e9culo depois de Beco do Mota, o Brasil segue parecendo uma zona de meretr\u00edcio de dimens\u00f5es continentais, e isso talvez seja fundamental para entender a decis\u00e3o tomada por Jorge Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> No dia em que o Mister anunciou oficialmente sua sa\u00edda, conversei por WhatsApp com meu genro, Caio, que mora em Portugal. Na troca de mensagens, mandei: se eu fosse ele, teria feito a mesma coisa. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Aos motivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Primeiro: o vitorioso treinador est\u00e1 a cinco dias de completar 66 anos, e apesar de suas in\u00fameras conquistas em terras lusitanas, nunca teve a carreira t\u00e3o em alta. JJ jamais levantou um t\u00edtulo com tanta import\u00e2ncia para o futebol portugu\u00eas quanto a Libertadores tem hoje para o nosso. Tornou-se o \u00fanico t\u00e9cnico a vencer, na mesma temporada, o Campeonato Brasileiro e a mais cobi\u00e7ada competi\u00e7\u00e3o das Am\u00e9ricas. (Basta uma gota de imparcialidade para admitir que \u00e9 for\u00e7ar demais a barra afirmar que o Santos conseguiu o mesmo na d\u00e9cada de sessenta. Em 1962, Pel\u00e9 e seus companheiros ganharam a Ta\u00e7a Brasil enfrentando dois advers\u00e1rios e disputando cinco jogos. Em 1963, foram dois advers\u00e1rios e quatro partidas. Chamar isso de Campeonato Brasileiro \u00e9 uma ofensa ao bom senso. A Libertadores de 1963 tamb\u00e9m foi levantada com somente quatro jogos contra dois advers\u00e1rios.) A temporada de 2019 deu a Jorge Jesus um prest\u00edgio que ele n\u00e3o tinha ao partir de Lisboa para o Al-Hilal e nem quando veio, em seguida, para o Flamengo. E a gente n\u00e3o pode esquecer: o esporte que est\u00e1 sendo jogado no mundo inteiro, com est\u00e1dios desertos, \u00e9 algo que lembra vagamente o futebol. D\u00e1 um azar, o time desconcentra, \u00e9 eliminado nas quartas de final da Libertadores, perde para o Atl\u00e9tico Goianiense no Campeonato Brasileiro, pimba, demiss\u00e3o. E a\u00ed? A garantia de voltar por cima da carne seca era agora. Assinar um contrato de tr\u00eas anos. Enfiar no bolso a grana que lhe assegura uma aposentadoria abastada e tranquila. Estar ao lado da fam\u00edlia e dos amigos de f\u00e9. Usufruir as del\u00edcias das casas de pasto preferidas. Viver em um belo pa\u00eds \u2013 que h\u00e1 muito deixou de ser motivo de piada \u2013, ao contr\u00e1rio da esculhamba\u00e7\u00e3o que insistimos em ter por aqui. Foi o que eu disse ao Caio: n\u00e3o sei por que o Mister demorou tanto para decidir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Segundo: em momento algum JJ deixou transparecer que sua vinda para o Flamengo representava um projeto profissional de longo prazo. Acredito que a ideia tenha passado por sua cabe\u00e7a, devido ao estrondoso sucesso e \u00e0 idolatria da torcida rubro-negra, por\u00e9m sempre se falou em cl\u00e1usula de sa\u00edda se chegasse alguma proposta europeia. N\u00e3o enganou ningu\u00e9m. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Por fim, o que est\u00e1 com toda a pinta de ter sido o elemento inesperado, incontorn\u00e1vel e decisivo: os sacrif\u00edcios exigidos pela pandemia, amplificados pela estranha maneira com que o pa\u00eds decidiu (n\u00e3o) enfrentar o problema, com negacionismo, loas a um medicamento ineficiente, aus\u00eancia de ministro da Sa\u00fade etc. Trata-se de uma conjectura, claro, mas pode ser que, se tiv\u00e9ssemos feito o dever de casa assim que o coronav\u00edrus desembarcou aqui, estar\u00edamos agora com a situa\u00e7\u00e3o melhor encaminhada e um ritmo de vida menos distante do velho normal, o que incluiria o futebol. E isso teria colaborado \u2013 quem sabe? \u2013 para outro Dia do Fico. Hoje, domingo, 19 de julho, Drauzio Varella encerra sua coluna na Folha de S.Paulo com a seguinte frase: \u201cO Brasil desanima a gente.\u201d <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Jorge Jesus \u00e9 t\u00e3o competitivo e apaixonado pelo que faz que, durante a acanhada celebra\u00e7\u00e3o pelo t\u00edtulo estadual, no gramado do Maracan\u00e3, ele conversava com Everton Ribeiro a respeito de quest\u00f5es t\u00e1ticas. O Mister mostrava os tr\u00eas dedos centrais da m\u00e3o esquerda, como a indicar o posicionamento correto, Everton Ribeiro retrucava. A obsess\u00e3o pelo Mundial \u2013 que eu, particularmente, n\u00e3o compartilho \u2013 foi varrida pelo cancelamento do torneio. Libertadores permanece uma inc\u00f3gnita. Falta o calor das sessenta mil vozes a entoar ol\u00ea, ol\u00ea, ol\u00ea, ol\u00ea, Mister, Mister. E, convenhamos, o distanciamento na solid\u00e3o aumenta as saudades da fam\u00edlia, dos amigos, da terrinha e da cabe\u00e7a de garoupa do afamado Solar dos Presuntos \u2013 restaurante onde JJ joga em casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Em artigo publicado no UOL na sexta-feira, 17 de julho, Rodrigo Mattos afirma que \u201cJorge Jesus deu uma rasteira no Flamengo\u201d, racioc\u00ednio apoiado no sil\u00eancio com que ele conduziu as tratativas junto ao Benfica. Discordo. Comparando laranjas com bananas: trabalhei por quase quatro d\u00e9cadas em propaganda, profiss\u00e3o em que, nos tempos das vacas gordas, era constante a troca de um bom emprego por outro melhor ainda. N\u00e3o conheci ningu\u00e9m que, ao receber a sondagem de uma ag\u00eancia a respeito de uma eventual mudan\u00e7a, tivesse batido \u00e0 porta do chefe ou patr\u00e3o para dizer: olha, tenho falado com a ag\u00eancia tal e se eles chegarem ao que eu quero, vou aceitar. Nas vezes em que isso aconteceu comigo, mantive segredo at\u00e9 dos familiares. Voltando ao excelente Rodrigo Mattos: se o Grupo Globo o chamasse para uma conversa, ele voltaria \u00e0 reda\u00e7\u00e3o do UOL e contaria ao editor os detalhes daquele primeiro papo, ou esperaria a proposta se concretizar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Agora, cabe \u00e0 torcida rubro-negra n\u00e3o se comportar como aquele ex-namorado que sai por a\u00ed dizendo cobras e lagartos da antiga paix\u00e3o. Jeito nenhum. A revolu\u00e7\u00e3o que o Mister operou no Flamengo me faz elev\u00e1-lo \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de mais not\u00e1vel entre centenas de treinadores que vi no clube. O futebol jogado pelo Flamengo de JJ virou unanimidade, objeto de admira\u00e7\u00e3o, inclusive, de assumidos desafetos e dos incr\u00e9dulos de primeira hora. \u00c9 for\u00e7oso admitir: apesar da qualidade superior e de tantas gl\u00f3rias alcan\u00e7adas, nem o time do in\u00edcio da d\u00e9cada de oitenta conseguiu isso. Durante um bom tempo os antis rotularam Zico como \u201cjogador de Maracan\u00e3\u201d e, no Sul, o Flamengo era chamado de \u201ctime da Globo\u201d. Sobravam ironias quanto \u00e0 conquista do Brasileiro de 80, pela expuls\u00e3o de Reinaldo na partida decisiva, e inc\u00f4modos risinhos pela expuls\u00e3o de cinco caras do Atl\u00e9tico Mineiro, no jogo que definiu a passagem \u00e0s semifinais da Libertadores de 81. Nas conquistas de 2019, n\u00e3o houve o que se discutisse ou questionasse. O respeito imposto pelo Flamengo de Jorge Jesus achatou achismos, arcoirismos, bairrismos e quaisquer outros ismos, bicando para escanteio todo tipo de despeito ou tentativa de alfinetada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Espero que nossos adeptos coloquem, acima de tudo, o muito que houve de bom e emocionante na jornada do Mister, desejo sorte e sucesso a ele, e tor\u00e7o para que o Flamengo acerte uma vez mais na escolha. Lembremos: os caras que cuidam do futebol do clube t\u00eam cr\u00e9dito. Depois de errar feio na primeira decis\u00e3o que tomaram \u2013 a op\u00e7\u00e3o por Abel \u2013, em todas as outras foram na mosca. Rafinha, Rodrigo Caio, Pablo Mar\u00ed, Filipe Lu\u00eds, Gerson, Arrascaeta, Gabriel, Bruno Henrique, JJ. Que continuem com a m\u00e3o boa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Tanto em termos t\u00e1ticos quanto an\u00edmicos, a passagem de Jorge Jesus pelo Flamengo encontra sua mais completa tradu\u00e7\u00e3o no t\u00edtulo do filme <em>O Homem que Virou o Jogo<\/em>. N\u00e3o podemos andar para tr\u00e1s, seria estupidez abandonar as li\u00e7\u00f5es que ele trouxe e aqui deixou. Dos nomes citados at\u00e9 agora como poss\u00edveis substitutos, confesso conhecer apenas os dois que comandam times da Am\u00e9rica do Sul. Marcelo Gallardo faz \u00f3timo trabalho no River Plate e, nas vezes em que vi jogar o Independiente del Valle, dirigido por Miguel \u00c1ngel Ram\u00edrez, gostei bastante. Os demais, n\u00e3o conhe\u00e7o direito. Como tamb\u00e9m mal sabia quem era o Mister, pouco palpito. (Indicado pelo pr\u00f3prio JJ, Leonardo Jardim parece largar na pole position.) <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> S\u00f3 por birra, pinta uma certa vontade de ver o clube convidar um dos treinadores brasileiros que tentaram relativizar a import\u00e2ncia do trabalho de Jorge Jesus, sob o argumento de que o Flamengo montou uma sele\u00e7\u00e3o e assim fica f\u00e1cil ganhar tudo. Chamar, por exemplo, Renato Ga\u00facho e dizer: agora vai l\u00e1, bonit\u00e3o, e faz igual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Ainda bem que vontade \u00e9 coisa que d\u00e1 e passa.<\/p>\n<div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/jorge-murtinho\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Jorge Murtinho\t<\/a>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1971, o amadorense Jorge Fernando Pinheiro de Jesus completou dezessete anos de idade, e \u00e9 prov\u00e1vel que jamais tivesse escutado uma can\u00e7\u00e3o de Milton Nascimento. 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