{"id":7935,"date":"2020-04-11T14:28:26","date_gmt":"2020-04-11T14:28:26","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=7935"},"modified":"2020-04-12T14:18:26","modified_gmt":"2020-04-12T14:18:26","slug":"licoes-de-1982-a-vinganca-do-touro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/licoes-de-1982-a-vinganca-do-touro\/","title":{"rendered":"Li\u00e7\u00f5es de 1982: a vingan\u00e7a do touro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Raras coisas nessa quarentena t\u00eam me animado a ligar a TV com tanto \u00e2nimo quanto esses estupendos jogos da Copa de 1982, reexibidos pelo canal Sportv. Ah, o Brasil de Zico, Leandro, S\u00f3crates e (gulp) Serginho Chulapa! Que toques curtos, que refino t\u00e9cnico, que buracos na zaga para a It\u00e1lia passar, snif.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">O Mauro Laviola, velho amigo e ex-jogador dos bons, me escreveu analisando o que de melhor aquele time nos oferecia: \u201cEra um futebol sem chut\u00f5es para longe ou carrinhos voadores. E nada parecido com o que h\u00e1 hoje: um bolo de gente no meio e no m\u00e1ximo dois crist\u00e3os na frente rezando para uma bola sobrar.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Tais reprises me fizeram lembrar de outro craque, este de fora dos gramados: o cronista Sandro Moreyra. Criador de causos, amigo de Garrincha e colunista do \u201cJornal do Brasil\u201d, necessariamente nessa ordem, o filho do genial poeta Alvaro Moreyra e da brilhante diretora Eugenia Moreyra cobriu a Copa de 1982 na Espanha, e deixou registrada a festa que fez nossa torcida por l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Com receio de que n\u00e3o passasse de pura literatura, perguntei ao Moraes, tremendo torcedor, se tudo aquilo que Sandro contou de fato ocorreu. Moraes confirma: \u201cSim. E v\u00e1rias vezes.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Convido, assim, o leitor a\u00ed confinado em casa para uma voltinha pela abafada Sevilha, na companhia do guia Sandro Moreyra:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cNa monumental pra\u00e7a de touros de Sevilha, durante a Copa do Mundo de 82, um deslumbrado torcedor brasileiro ao ver passar o toureiro \u00e0 sua frente ovacionado pela multid\u00e3o que lhe atirava flores, leques e mantilhas, jogou-lhe como suprema homenagem, o p\u00e9 direito de sua surrada e mal cheirosa conga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cEste foi um dos epis\u00f3dios de uma tarde inesquec\u00edvel, em que os canarinhos brasileiros avacalharam completamente essa secular e sagrada institui\u00e7\u00e3o espanhola que s\u00e3o as touradas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cO torcedor da conga, na verdade, foi o \u00fanico que durante todo o espet\u00e1culo se comportou corretamente, torcendo pelo toureiro como mandam as velhas e respeitadas regras das touradas. Os outros, ou seja, a imensa e vibrante torcida brasileira do futebol, com suas camisas amarelas, fitinha na testa e bandeira na m\u00e3o, entrou na pra\u00e7a de Sevilha decidida a torcer pelo touro, fato que em qualquer parte da Espanha \u00e9 considerado, no m\u00ednimo, uma heresia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cMas, acima da tradi\u00e7\u00e3o, falou a boa \u00edndole do brasileiro. Ele n\u00e3o se conforma com aquela luta desigual onde s\u00e3o dadas ao toureiro todas as vantagens e ao touro s\u00f3 se concede uma op\u00e7\u00e3o: a de se deixar matar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cAo tomar, por\u00e9m, essa posi\u00e7\u00e3o pr\u00f3-touro, a torcida canarinho ofereceu um espet\u00e1culo jamais visto em arenas e que ser\u00e1 relembrado atrav\u00e9s dos tempos pelos amantes da tauromaquia com vergonha e indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cO primeiro impacto surgiu quando o touro ao entrar na arena, ainda meio tonto com a claridade forte, foi recebido em vigorosos aplausos das arquibancadas repletas de brasileiros. Facilmente identificados por suas camisas amarelo-cheguei, os canarinhos agitavam bandeiras saudando o touro com o entusiasmo que dedicam ao Flamengo quando adentra o gramado do Maracan\u00e3. Era, contudo, apenas o come\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cLogo depois, quando o picador no seu cavalo cercou o touro e, num golpe r\u00e1pido, cravou-lhe sua pontuda lan\u00e7a fazendo jorrar um sangue grosso e vermelho pelo seu pelo preto, uma tremenda vaia explodiu de mistura com gritos compassados de \u2018filho-da-puta\u2019 e de pilhas de r\u00e1dio atiradas em sua dire\u00e7\u00e3o. O picador fugiu espavorido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cA entrada em seguida do mo\u00e7o das banderilhas, com suas cal\u00e7as justas e seu bolero bordado, foi de expectativa. Mas t\u00e3o logo o viram dar aquela corridinha de bailarino na ponta dos p\u00e9s os gritos ritmados de \u2018bicha, bicha, bicha\u2019 acompanharam todo seu trajeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cNesta altura, os espanh\u00f3is estupefatos n\u00e3o entendiam o que estava acontecendo, julgando-se cercados por um bando de malucos. De seu canto, aguardando o momento de entrar em a\u00e7\u00e3o, o toureiro, famoso matador, olhava abismado sem compreender aquela un\u00e2nime, in\u00e9dita e feroz manifesta\u00e7\u00e3o a favor do touro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cChegou, ent\u00e3o, o momento culminante. Ao som festivo de clarins, o toureiro, solene e grave, caminhando a passos firmes, com sua longa capa vermelha atirada aos ombros, entrou na arena, e cumprindo o ritual primeiro dirigiu-se \u00e0 tribuna de honra. L\u00e1, curvando-se num gesto elegante, atirou o seu solid\u00e9u, barrete ou que nome tenha a uma dama certamente ilustre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cEm seguida, com a mesma pompa, voltou-se para o p\u00fablico e em galante rever\u00eancia curvou-se numa sauda\u00e7\u00e3o fidalga. E ainda estava curvado quando das arquibancadas estourou uma gritaria bem brasileira, forte e cadenciada:<br \/>\n\u2013 Um, dois, tr\u00eas, quatro cinco mil! Eu quero que o toureiro v\u00e1 pra puta que o pariu!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cBoquiabertos, os espanh\u00f3is se interrogavam:<br \/>\n<em>\u2013 Que pasa, hombre? Los tipos son locos? <\/em><br \/>\nEvidentemente n\u00e3o podiam compreender aquele comportamento de fazer corar de vergonha Manolete, Dominguin, Paco Camacho, El Cordob\u00e9s e todos os toureiros , vivos ou mortos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cDo outro lado, arquejante, j\u00e1 bastante ferido e lamentando n\u00e3o ter nascido vaca, o touro mantinha, no entanto, um ar embevecido. Jamais, qualquer de seus antepassados recebera tamanha solidariedade. Comovido, ele olhava cheio de gratid\u00e3o para os canarinhos brasileiros. E t\u00e3o encantado estava que nem viu quando o matador friamente e com imensa espada matou-o na primeira estocada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cMorreu feliz, certamente, por saber que na alma daqueles canarinhos brasileiros havia piedade por ele e repulsa por seu carrasco.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Uma farra, como se v\u00ea, que quem teve a sorte de acompanhar de perto n\u00e3o esquece. \u201cA Espanha tinha mil op\u00e7\u00f5es para a torcida. Foi a Copa das Copas. Nunca vai ter outra igual\u201d, garante Moraes, com a marra de ter ido a todas as Copas do Mundo desde 1970 (s\u00e3o 13 at\u00e9 agora, mas o Marquinhos Dunlop garante que vai ultrapass\u00e1-lo um dia.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Enquanto isso n\u00e3o chega e n\u00e3o cansamos das reprises no Sportv, enchamos os pulm\u00f5es na varanda:<br \/>\n\u2013 Um, dois, tr\u00eas, quatro cinco mil! Eu quero que o corona\u2026<\/p>\n<div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/marcelo\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Marcelo Dunlop\t<\/a>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Raras coisas nessa quarentena t\u00eam me animado a ligar a TV com tanto \u00e2nimo quanto esses estupendos jogos da Copa de 1982, reexibidos pelo canal Sportv. Ah, o Brasil de Zico, Leandro, S\u00f3crates e (gulp) Serginho Chulapa! Que toques curtos, que refino t\u00e9cnico, que buracos na zaga para a It\u00e1lia passar, snif. 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