{"id":7848,"date":"2020-03-04T11:52:21","date_gmt":"2020-03-04T11:52:21","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=7848"},"modified":"2020-03-04T11:52:21","modified_gmt":"2020-03-04T11:52:21","slug":"festa-na-favela-o-ultimo-capitulo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/festa-na-favela-o-ultimo-capitulo\/","title":{"rendered":"Festa na Favela, o \u00faltimo cap\u00edtulo."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> <em>Seguinte: no post que publiquei em 22 de dezembro de 2019, escrevi que deixaria o texto sobre nosso \u00faltimo jogo do ano reservado para o livro Festa na Favela, feito em parceria com a minha querida amiga Nivinha. Agora, com o livro j\u00e1 lan\u00e7ado e \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de quem quiser ter em casa um registro do que foi a fant\u00e1stica temporada do futebol do Flamengo, coloco o texto aqui, para as leitoras e os leitores, amigas e amigos desse incans\u00e1vel RP&amp;A. Tomara que voc\u00ea goste. SRN, sempre.              <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> <strong>2019. O ano para rubro-negro algum jamais esquecer.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> O cidad\u00e3o vai ficando velho. Filhos crescem. Netos nascem. Parentes e amigos queridos j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o mais aqui. Tudo colabora para que se vire um sujeito bab\u00e3o, choroso e cheio de manias.                                                                                                              <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Na verdade, elas sempre existiram. S\u00f3 que, agora, encorpam. Passam a fazer parte da personalidade. Natural que assim seja. Como disse Carlos Drummond de Andrade, \u00e0s v\u00e9speras de completar oitenta anos, se h\u00e1 alguma vantagem em virar um oitent\u00e3o \u00e9 a de poder dar uma banana para o mundo.                                                   <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Longe dos oitenta, por\u00e9m tiete do craque maior da nossa poesia e autor de um dos mais espetaculares textos j\u00e1 escritos sobre futebol \u2013 a cr\u00f4nica publicada em 7 de julho de 1982, no Jornal do Brasil, dois dias ap\u00f3s a elimina\u00e7\u00e3o da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira na Copa do Mundo, com o belo t\u00edtulo \u201cPerder, Ganhar, Viver\u201d \u2013, tenho ensaiado, aqui e ali, o arremesso de minhas primeiras bananas ao planeta.                             <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Digressiono. Bananas n\u00e3o s\u00e3o o mote do \u00faltimo cap\u00edtulo, j\u00e1 que jamais houve emo\u00e7\u00e3o em seu desfrute. E o assunto, nestas p\u00e1ginas finais, \u00e9 emo\u00e7\u00e3o.                                 <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> L\u00e1 nos dois primeiros par\u00e1grafos, estava eu a falar de manias. Tenho-as, e muitas, sobretudo no que envolve o futebol. J\u00e1 citei o mon\u00e1stico sil\u00eancio com que assistia aos jogos do Flamengo no Maracan\u00e3, criando uma intranspon\u00edvel barreira entre mim e os cantos e refr\u00f5es de mais de 100 mil pessoas. A partir do advento das transmiss\u00f5es ao vivo e da mudan\u00e7a para S\u00e3o Paulo, as manias sofreram adapta\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Uma delas: durante muito tempo, assisti aos jogos sem \u00e1udio, algo que imagino ter herdado de um dos meus tios, torcedor do Fluminense, que implicava com quem levava radinho de pilha ao Maraca. \u201cO cara n\u00e3o est\u00e1 aqui no est\u00e1dio? Precisa que algu\u00e9m lhe diga o que ele v\u00ea? Ora, ficasse em casa.\u201d O fim da esquisitice ocorreu em 28 de agosto de 2011, durante o cl\u00e1ssico entre Flamengo e Vasco em que o ent\u00e3o treinador cruz-maltino, Ricardo Gomes, sofreu um AVC. O pau cantando no gramado, e a c\u00e2mera n\u00e3o parava de mostrar o banco do Vasco. Eu n\u00e3o entendia a raz\u00e3o, s\u00f3 que n\u00e3o queria passar recibo. At\u00e9 que minha mulher estrilou, exigindo que eu aumentasse o som pra gente perceber o que acontecia. Capitulei. De l\u00e1 pra c\u00e1, as partidas pela tev\u00ea passaram a ser acompanhadas com \u00e1udio.                                            <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Chego a uma das manias atuais: n\u00e3o gosto de pr\u00e9-jogo e tenho o h\u00e1bito de sintonizar o canal s\u00f3 na hora em que a bola vai rolar. At\u00e9 compreendo que uma das fun\u00e7\u00f5es dos narradores \u00e9 vender o produto, destacar a rivalidade, o disse-me-disse, o fulano provocou e o beltrano respondeu. A quest\u00e3o \u00e9 que eles costumam exagerar, por vezes deixando de ser jornalistas para agir como publicit\u00e1rios. N\u00e3o cuspo no prato em que comi por mais de quarenta anos, s\u00f3 acho que, por falar em bananas, cada macaco no seu galho.                                                                                       <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Apesar dessa rejei\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna, liguei a tev\u00ea quinze minutos antes do in\u00edcio da decis\u00e3o do Mundial Interclubes. SporTV, com Gustavo Villani, L\u00e9dio Carmona e Petkovic na cabine. Villani chamou a mat\u00e9ria com a Orquestra Mar\u00e9 do Amanh\u00e3 interpretando \u201cPrimeiros Erros\u201d \u2013 ou, como prefere a Magn\u00e9tica, \u201cEm Dezembro de 81\u201d. A emo\u00e7\u00e3o passada pela m\u00fasica fez rodar um filme em minha cabe\u00e7a. Lembrei do pai dispensando a siesta que ele adorava tirar, ap\u00f3s os almo\u00e7os de domingo, para me levar ao Maracan\u00e3. Da irm\u00e3 mais velha, t\u00e3o tricolor e apaixonada por futebol quanto ele, e seu inconformismo com os cariocas que torciam contra os times da cidade. Nenhum dos dois est\u00e1 mais aqui, como n\u00e3o est\u00e1 o irm\u00e3o do meio, tamb\u00e9m tricolor e que, junto com outro irm\u00e3o, esse felizmente viv\u00edssimo da silva, substituiu meu pai na tarefa de me carregar ao est\u00e1dio. Lembrei da m\u00e3e, superando seu nenhum interesse por futebol e se declarando flamenguista, apenas para n\u00e3o me deixar sozinho entre as feras. E da irm\u00e3 dela, Tia Isa, rubro-negra doente, uma doce e inesquec\u00edvel professora de Flamengo.                                                                                                            <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Sozinho em casa \u2013 minha mulher estava trabalhando \u2013, lembrei de tudo e de todos, e da import\u00e2ncia que o futebol e o Flamengo tiveram para que eu me tornasse a pessoa que sou, e chorei feito crian\u00e7a, enquanto os sopros e cordas daquela garotada heroica e talentosa valorizava cada acorde da linda can\u00e7\u00e3o de Kiko Zambianchi.                                                                                                                                   <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Perder, ganhar, viver. Agradeci a todos, ao futebol e ao Flamengo. E vi um jogo diferente, que come\u00e7ou muito antes das 14h30 de 21 de dezembro e durou bem mais que os 90 minutos do tempo normal e 30 da prorroga\u00e7\u00e3o. Durou o ano inteiro, ainda que tenha come\u00e7ado, pra valer, no momento em que os respons\u00e1veis pelo futebol rubro-negro decidiram convidar Jorge Jesus para o comando t\u00e9cnico do time. E esse jogo n\u00f3s vencemos.                                                                                                    <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Vou discordar do nosso treinador sempre que, seja pelo motivo que for, ele tirar do time, ao mesmo tempo, Arrascaeta e Everton Ribeiro. Vou esbravejar contra a estupidez do nosso calend\u00e1rio, que consegue aumentar a j\u00e1 enorme dist\u00e2ncia que nos separa dos endinheirados clubes grandes da Europa. Vou admitir, mais uma vez, nossa necessidade de reduzir a diferen\u00e7a de qualidade entre alguns dos titulares e seus reservas imediatos, para que estes possam ser lan\u00e7ados sem susto e aqueles n\u00e3o sejam obrigados a jogar quase ininterruptamente.                                                   <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Tomemos como exemplo Willian Ar\u00e3o \u2013 escolhido por sua formid\u00e1vel atua\u00e7\u00e3o na final com o Liverpool. Nas 74 partidas oficiais disputadas pelo Flamengo na temporada, Ar\u00e3o participou de 62, al\u00e9m de ter entrado no finzinho um par de vezes. Os caras n\u00e3o s\u00e3o m\u00e1quinas.                                                                                                                                          <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Tr\u00eas ou quatro horas depois do jogo, percorri alguns sites de esportes, a fim de tomar o pulso das opini\u00f5es e ver se a leveza e o orgulho que eu sentia eram frutos de paix\u00e3o cega ou faziam algum sentido. Assim que entrei no UOL, vi a chamada para a coluna elogiosa do cara que mais admiro na imprensa esportiva brasileira. Tost\u00e3o. Pra mim, bastava. Mas quase todos os comentaristas de quem eu gosto seguiram na mesma toada. Andr\u00e9 Rocha, Carlos Eduardo Mansur, Juca Kfouri, Mauro Beting, Mauro Cezar Pereira, PVC, Vitor Birner. Elogios de Alisson, Firmino, Alexander-Arnold \u2013 talvez o melhor lateral-direito do mundo, que teve tanto trabalho com Bruno Henrique que, em certo momento da partida, como se para lhe dar um pouco de sossego e respiro, Jurgen Klopp o trocou de posi\u00e7\u00e3o com Robertson.                               <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Embora tenha sido muito mais do que isso, 2019 levou, no m\u00ednimo, o carimbo de maior ano do clube no S\u00e9culo XXI, pelo tanto de admir\u00e1vel que fizeram a torcida, os jogadores, o treinador, a comiss\u00e3o t\u00e9cnica, o Departamento M\u00e9dico, os caras que tocam o futebol do Flamengo. Um ano como, confesso, eu j\u00e1 perdera a esperan\u00e7a de ver. T\u00edtulos indiscut\u00edveis, recordes quebrados um atr\u00e1s do outro, Campeonato Brasileiro e Libertadores na mesma temporada \u2013 o que jamais aconteceu desde que o Brasileiro virou uma competi\u00e7\u00e3o nacional de verdade. E o melhor de tudo: a sensa\u00e7\u00e3o de que aquela aparentemente insana expectativa da diretoria rubro-negra em 2015, que deu origem ao livro, nada tinha de desvairada.                                                    <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Um pouquinho menos, talvez. Mas o caminho das vit\u00f3rias e das gl\u00f3rias n\u00e3o tem volta. E a festa na favela \u00e9 sem data para acabar.<\/p>\n<div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/jorge-murtinho\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Jorge Murtinho\t<\/a>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seguinte: no post que publiquei em 22 de dezembro de 2019, escrevi que deixaria o texto sobre nosso \u00faltimo jogo do ano reservado para o livro Festa na Favela, feito em parceria com a minha querida amiga Nivinha. 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