{"id":7465,"date":"2019-12-12T17:55:27","date_gmt":"2019-12-12T17:55:27","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=7465"},"modified":"2020-04-04T20:11:05","modified_gmt":"2020-04-04T20:11:05","slug":"o-naufrago-que-foi-salvo-pelo-flamengo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/o-naufrago-que-foi-salvo-pelo-flamengo\/","title":{"rendered":"O n\u00e1ufrago que foi salvo pelo Flamengo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">O dia 13 de fevereiro de 1960 n\u00e3o foi de grande relev\u00e2ncia para a hist\u00f3ria flamenga \u2013 o escrete, sem o artilheiro Dida, aprontava-se para uma excurs\u00e3o em solo argentino, onde empataria com o River Plate em 1 a 1 na primeira porfia, para perder a segunda por 1 a 4 (tomem, saudosistas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Naquela precisa data, por\u00e9m, um escritor apaixonadamente alvinegro surpreendeu os leitores da revista \u201cManchete\u201d, edi\u00e7\u00e3o n\u00famero 408, com um dos mais deliciosos textos rubro-negros\u00a0impressos at\u00e9 hoje, uma p\u00e9rola prestes a comemorar 60 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Na cr\u00f4nica, com link abaixo para quem n\u00e3o teve o prazer, o poeta Paulo Mendes Campos se v\u00ea \u00e0s voltas com um ferrabr\u00e1s na Su\u00e9cia, sem conseguirem se entender \u2013 e \u00e9 enfim, magicamente, \u201cSalvo pelo Flamengo\u201d, em incidente ocorrido em 1956.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">(Paulo Mendes Campos, figura\u00e7a, n\u00e3o deixaria que o caso diminu\u00edsse seu fervor e sua ranhetice de botafoguense. Jo\u00e3o \u201cPato\u201d Fontes, eterno \u201cpresidente\u201d do Leblon, contava que um dia recebeu um pedido do escritor: a filha, Gabriela, precisava fazer aulinhas de nata\u00e7\u00e3o. Jo\u00e3o prontamente foi ao clube da G\u00e1vea, tirou a carteirinha para Gabriela e a menina come\u00e7ou a nadar alegremente. Em poucos dias, Jo\u00e3o recebia um recado desaforado na secret\u00e1ria eletr\u00f4nica: \u201cJo\u00e3o, maldito seja! Agora h\u00e1 uma pequena rubro-negra em minha pr\u00f3pria casa! Com carteirinha e uniforme&#8230;\u201d)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">O mais incr\u00edvel, contudo, \u00e9 que o mirrado poetinha n\u00e3o foi o \u00fanico a salvar seu pesco\u00e7o espetacularmente por obra e gra\u00e7a do Mais Querido. Sim, em 1984 a hist\u00f3ria se repetiu. N\u00e3o na Su\u00e9cia, mas na Col\u00f4mbia. Em vez de um escritor mineiro em apuros, um marinheiro carioca, \u00e0 deriva por quatro semanas. E que tamb\u00e9m n\u00e3o era flamengo desde garotinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Tudo come\u00e7ou num navio da marinha mercante, onde Aldemir Chaves, ent\u00e3o com 22 anos, trabalhava conectando r\u00e1dios e tel\u00e9grafos. A embarca\u00e7\u00e3o j\u00e1 voltava ao Brasil quando se deparou com um fen\u00f4meno t\u00e3o raro quanto uma bela cr\u00f4nica rubro-negra de Paulo Mendes Campos: de 60 em 60 anos, o mar naquela regi\u00e3o baixava tanto que os rochedos ficavam \u00e0 mostra. Para piorar, como narrou Aldermir em seu livro \u201cEntre dois inimigos\u201d, e no programa de F\u00e1bio Porchat no canal GNT, as rochas surgiram no momento exato em que o comandante do navio, um animal, deixou o tim\u00e3o na m\u00e3o de um marinheiro para debater besteira com um de seus imediatos \u2013\u00a0c\u00e9lebre tradi\u00e7\u00e3o brasileira que pode ser vista no governo atual, por exemplo. O resultado foi \u00f3bvio: deu \u00e1gua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Com o navio adernado, arrombado e quase virando, Chaves dirigiu-se at\u00e9 sua cabine e encheu a mochila com uma muda de roupas, canivete e uns poucos pertences, e dirigiu-se \u00e0 baleeira a motor pr\u00f3pria para a fuga. Quando, contudo, o barquinho ficou preso mecanicamente \u00e0 nave-m\u00e3e, coube ao mais novato ir l\u00e1 soltar. Quando o fez, o comandante arrancou e o deixou para tr\u00e1s, louco total.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">A hist\u00f3ria a partir da\u00ed \u00e9 boa pacas, mas destaquemos apenas as melhores partes daqueles 28 dias entre a vida e a morte:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Chaves agarrou-se a um kit com bote infl\u00e1vel e ra\u00e7\u00e3o e nadou como um personagem de desenho animado para fugir do navio que era sugado por Netuno;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Ao chapar, passou a ser acordado de noite por Astolfo, um pequeno tubar\u00e3o que come\u00e7ou a acompanhar o infeliz marinheiro, dando cabe\u00e7adinhas no fundo do barco laranja. \u201cO que voc\u00ea quer, Astolfo? Eu j\u00e1 estou magrinho, n\u00e3o tem nada aqui para voc\u00ea\u2026\u201d, papeava, para manter a sanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">O sinalizador luminoso n\u00e3o atra\u00eda ningu\u00e9m, a comida era seca e terr\u00edvel e Chaves come\u00e7ou a misturar a \u00e1gua salobra em latinhas com urina;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Ao atravessar dois furac\u00f5es, com ondas de 13 metros de altura, Chaves passou a se amarrar no bote, descarnando as canelas, pulsos e m\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Foi quando ele avistou os urubus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cVem me comer, urubu! Aqui, vem!\u201d, berrou o n\u00e1ufrago, doido para ca\u00e7ar um galeto. At\u00e9 que sua mente se iluminou: se\u00a0tinha aves por perto, tinha terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Ao enxergar a costa, passou a remar feito doido, at\u00e9 espiar os aparentes \u00edndios colombianos que j\u00e1 haviam notado a pequena balsa alaranjada. Ao chegar perto, contudo, viu que os instrumentos \u00e0 m\u00e3o dos locais eram metralhadoras e rifles, com cintur\u00f5es de balas cruzando os ombros. Sim, o sortudo tinha ido parar numa comunidade de traficantes de coca\u00edna fortemente armados, numa \u00e9poca em que Pablo Escobar chegou a transportar de barco 23 toneladas de pasta de coca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Aldemir torceu por ondas, novos furac\u00f5es e at\u00e9 por Astolfo, mas n\u00e3o teve sorte: foi arrastado do mar pelos cabelos, sob forte desconfian\u00e7a de ser um espi\u00e3o, ou pior, um policial monitorando o tr\u00e1fico na praia. Com a boca toda rachada e a garganta estropiada, n\u00e3o conseguia falar muito menos se explicar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">E o Flamengo na hist\u00f3ria? Calma, cacete, confia. Eis ent\u00e3o que surgiu o filho do cacique da tribo e chefe dos traficas, que antes do linchamento promoveria um r\u00e1pido julgamento, provavelmente para escolher se seria a faca, a bala ou enterrado vivo. Foi a\u00ed que lembraram de abrir a mochila do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Documentos de marinheiro, apetrechos e\u2026 uma camisa 10 do Flamengo. \u201cQuando embarcamos, me perguntaram qual era o meu time e eu disse que torcia para o Radar, time da praia de Copacabana. Mas o Mauricio, um marinheiro invocado, disse que at\u00e9 o fim da viagem ele me convenceria a ser flamengo, e me deu uma camisa do Zico\u201d, ele recordou, em papo com F\u00e1bio Porchat, que \u00e9 vasca\u00edno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Ao pegar aquele tecido m\u00edstico, com aquelas cores sagradas, o chefinho da tribo abriu um sorriso:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><em><strong>\u2013\u00a0Flamengo! Zico! Pel\u00e9! Brasile\u00f1o! Amigo\u2026!<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">E Aldemir Chaves, ap\u00f3s quase um m\u00eas de sofrimento, teve ent\u00e3o direito a um banquete dos deuses, como s\u00f3 um brasileiro da terra do Flamengo, de Zico, e hoje de Gabigol, podia mesmo merecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">O nobre leitor planeja viajar em dezembro? Seja na terra, seja no mar, ou mesmo no Catar, fica a dica: n\u00e3o saia de casa sem seu Manto Sagrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><strong>* Paulo Mendes Campos salvo pelo Flamengo:<\/strong><br \/>\nhref=&#8221;https:\/\/cronicabrasileira.org.br\/cronicas\/7112\/salvo-pelo-flamengo&#8221;&gt;https:\/\/cronicabrasileira.org.br\/cronicas\/7112\/salvo-pelo-flamengo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><strong>* Aldemir Chaves salvo pelo Flamengo:<\/strong><br \/>\nhttps:\/\/www.youtube.com\/watch?v=OJ_xJGw3rVE<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\"><div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/marcelo\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Marcelo Dunlop\t<\/a>\n<\/div><\/span><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dia 13 de fevereiro de 1960 n\u00e3o foi de grande relev\u00e2ncia para a hist\u00f3ria flamenga \u2013 o escrete, sem o artilheiro Dida, aprontava-se para uma excurs\u00e3o em solo argentino, onde empataria com o River Plate em 1 a 1 na primeira porfia, para perder a segunda por 1 a 4 (tomem, saudosistas). 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