{"id":6600,"date":"2019-09-22T19:04:44","date_gmt":"2019-09-22T19:04:44","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=6600"},"modified":"2019-09-22T19:47:24","modified_gmt":"2019-09-22T19:47:24","slug":"no-catete-em-21-de-setembro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/no-catete-em-21-de-setembro\/","title":{"rendered":"No Catete, em 21 de setembro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Elevado torcedor flamengo, ilustre torcedora flamenga, fa\u00e7am sempre uma rever\u00eancia ao passar em frente ao Imperial Hotel, na rua do Catete n\u00ba 186. Afinal, foi naquele pr\u00e9dio, no mais importante de seus 92 quartos, que nasceu o Flamengo como n\u00f3s o conhecemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Se faz tempo? \u00d4, se faz.\u00a0Naquela \u00e9poca o cart\u00e3o amarelo era em preto e branco, a bola precisava vir da Inglaterra \u2013\u00a0o que atrasava muito o recome\u00e7o dos jogos \u2013\u00a0e ouvir as coletivas dos t\u00e9cnicos no r\u00e1dio era complicado, pois n\u00e3o havia t\u00e9cnicos nem r\u00e1dio. Corria o ano de 1911 \u2013 ano em que, segundo Nelson Rodrigues, a misteriosa espi\u00e3 \u201cMata-Hari, com um seio s\u00f3, ateava paix\u00f5es e suic\u00eddios; e as mulheres, aqui e alhures, usavam umas ancas imensas e intransport\u00e1veis.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Imensos e intransport\u00e1veis, tamb\u00e9m, j\u00e1 eram o ego de alguns dirigentes, e foi um deles que mudou para sempre a hist\u00f3ria do futebol. Certa manh\u00e3, um z\u00e9 cartola qualquer das Laranjeiras acordou com uma ideia das mais brilhantes, digna de qualquer manda-chuva atual da CBF: era preciso barrar o goleador e l\u00edder da equipe campe\u00e3 do Rio de Janeiro, Alberto Borgerth. Chamado pela diretoria \u00e0s v\u00e9speras de uma porfia decisiva, o capit\u00e3o tricolor foi comunicado que estava sendo sacado pelo comit\u00ea do Fluminense, e em seu lugar iria entrar Ernesto Paranhos \u2013 um zagueiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Que fleugma a de Alberto Borgerth, estimado leitor, dign\u00edssima leitora. Remador valente, \u00eddolo da cidade, filho de um chefe de seguran\u00e7a de Dom Pedro 2\u00ba, meros 19 anos na identidade \u2013 ningu\u00e9m hoje se chocaria se sua rea\u00e7\u00e3o imediata fosse um sonoro palavr\u00e3o (com <em>ph<\/em> ainda por cima), uma bifa ou mesmo uma bela cusparada, talvez merecida. Mas Alberto fez o contr\u00e1rio: entubou a barra\u00e7\u00e3o, acalmou os \u00e2nimos entre os companheiros para evitar um motim (e um W.O.), e refletiu \u2013 h\u00e1bito cada vez mais raro nos dias de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">A explos\u00e3o dessa crise\u00a0elenco x diretoria\u00a0se deu num 11 de setembro (olha\u00ed) e o desligamento oficial de Borgerth &amp; cia ocorreu apenas no dia 3 de outubro de 1911, por meio de um of\u00edcio selado, registrado e carimbado (se quiser voar\u2026). O Dia D, no entanto, foi mesmo a 21 de setembro, no pr\u00e9dio de tr\u00eas andares onde hoje se imp\u00f5e o magn\u00edfico Imperial Hotel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u00c0 \u00e9poca, ali funcionava a apraz\u00edvel pens\u00e3o Almeida, onde morava o zagueir\u00e3o P\u00edndaro Rodrigues \u2013\u00a0um paulista, prova de que o Flamengo sempre formou e foi formado por gente do Brasil todo. Reuni\u00e3o marcada, elenco avisado, e a pauta era uma s\u00f3: a sa\u00edda do Fluminense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Tenho uma tese, amigo leitor, amiga leitora, que compartilho a seguir. Fosse a reuni\u00e3o em qualquer outro canto da cidade, em qualquer outro bairro, a decis\u00e3o final n\u00e3o seria t\u00e3o acertada. O Catete, o professor Simas me corrija se eu disser alguma besteira, \u00e9 um bairro imbat\u00edvel em termos de alma \u2013 deve haver soterrado ali algum cemit\u00e9rio ind\u00edgena ou campo sagrado parecido. Que outro bairro do pa\u00eds, do continente ou do planeta re\u00fane epis\u00f3dios parecidos, como um presidente que decide dar um tiro no pr\u00f3prio peito? Ou um revisor de jornal que, insone na madrugada, escreve uma obra-prima como \u201cVidas secas\u201d, como fez Graciliano em outra pens\u00e3o do Catete, na rua Corr\u00eaa Dutra? Tamb\u00e9m foi na vizinhan\u00e7a que a agremia\u00e7\u00e3o Ameno Resed\u00e1, com o m\u00fasico Sinh\u00f4 e outros bambas, revolucionou o carnaval e se tornou a av\u00f3 das nossas escolas de samba. E foi pertinho da pens\u00e3o Almeida, na rua do Catete n\u00ba 206, que um certo Joaquim Maria Machado de Assis come\u00e7ou a escrever uns poeminhas e contos\u2026\u00a0Alma pura!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">E foi onde o atacante Borgerth fez o mais bonito de seus gols, cercado pelo goleiro Baena, o beque Nery, o lateral Galo, o volante Amarante, o meia Arnaldo e outros \u00eddolos. Quem registrou os detalhes do evento foi o artilheiro Gustavinho Adolfo, no livro \u201cTorcedores de ontem e de hoje\u201d de Jo\u00e3o Antero de Carvalho (dez mangos na Estante Virtual). Leiam e tentem n\u00e3o se emocionar:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u201cAquele 21 de setembro de 1911, na pens\u00e3o Almeida, da rua do Catete, onde morava P\u00edndaro, n\u00e3o me saiu da lembran\u00e7a\u201d, narra o centroavante. \u201cNesse dia nos reunimos pela primeira vez para tratar da nossa sa\u00edda do time tricolor. Eu pretendia reviver o Rio FC, o c\u00e9lebre time da garotada do col\u00e9gio Alfredo Gomes, pelo qual havia jogado em companhia de Borgerth, Galo, Arnaldo e Baiano. Ap\u00f3s calorosas discuss\u00f5es, durante as quais se sugeriu at\u00e9 o nome de S\u00e3o Paulo FC, Borgerth apresentou a proposta conciliadora: a cria\u00e7\u00e3o do departamento terrestre do Flamengo com a entrada de todos para o seu quadro social. Foi nesse momento que se ouviu o primeiro \u2018alegu\u00e1\u2019 ao nosso futuro gr\u00eamio.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">N\u00e3o esque\u00e7am, portanto, de fazer um meneio respeitoso quando passarem diante do n\u00ba 186 da rua do Catete, talvez at\u00e9 pedir para o Uber encostar rapidinho, quem sabe mesmo entrar e sentir a energia do lugar. N\u00e3o fosse aquele encontro, naquele 21 de setembro, e a gente estaria hoje saindo feliz do Mineir\u00e3o cantando \u201cUma vez Rio FC, sempre Rio FC\u201d, ou, meu deus, \u201cnos S\u00e3o-Flus \u00e9 o Ai, Jesus\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Um hip e um hurra para o cavalheiro Alberto Borgerth, senhoras e senhores.<\/p>\n<div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/marcelo\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Marcelo Dunlop\t<\/a>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elevado torcedor flamengo, ilustre torcedora flamenga, fa\u00e7am sempre uma rever\u00eancia ao passar em frente ao Imperial Hotel, na rua do Catete n\u00ba 186. 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