{"id":6500,"date":"2019-09-04T07:22:16","date_gmt":"2019-09-04T07:22:16","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=6500"},"modified":"2019-09-05T18:35:24","modified_gmt":"2019-09-05T18:35:24","slug":"o-dinheiro-dos-outros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/o-dinheiro-dos-outros\/","title":{"rendered":"O Dinheiro dos Outros"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">H\u00e1 uns dias, num programa de TV, o rubro-negro Aydano Motta sugeriu, com not\u00e1vel desprendimento pelos bens materiais pertencentes a terceiros, que o Flamengo, na sua condi\u00e7\u00e3o de primo rico do futebol nacional, deveria ajudar os clubes menos favorecidos. Foi o suficiente para que parte da torcida do Flamengo nas redes mostrasse veemente discord\u00e2ncia com instrumentos de pol\u00edticas compensat\u00f3rias baseados na transfer\u00eancia de renda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Como Aydano n\u00e3o envolveu o seu nobre objetivo de melhorar o n\u00edvel do futebol brasileiro apontando qualquer fonte de recursos que n\u00e3o o pr\u00f3prio caixa do clube, destilou-se um bocado de preconceito neoliberal por parte de alguns rubro-negros defensores do estado m\u00ednimo, que no fundo parecem que n\u00e3o lutam com o estado, mas sim com o Estado de Bem-Estar Social. Um modelo de organiza\u00e7\u00e3o social e politica que, apesar de todos seus defeitos de origem, ainda \u00e9 capaz de diminuir desigualdades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Desigualdade que se \u00e9 inerente \u00e0 competi\u00e7\u00e3o esportiva, n\u00e3o \u00e9 desgra\u00e7a obrigat\u00f3ria na divis\u00e3o de riquezas de uma na\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 mol\u00e9stia que atinge a todos, sem exce\u00e7\u00e3o. Com mais intensidade aos clubes e entidades que n\u00e3o foram tocados pela gra\u00e7a divina da meritocracia ou pelas asas da liberdade econ\u00f4mica que est\u00e1 fazendo o pa\u00eds avan\u00e7ar c\u00e9lere em dire\u00e7\u00e3o ao Brasil grande dos anos 70.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Tinha algum ressentimento nas cr\u00edticas, reclama\u00e7\u00f5es sinceras de que quando est\u00e1vamos na lama nunca fomos ajudados. E muito preconceito com os clubes com a corda no pesco\u00e7o que dependem das cotas de TV como n\u00f3s dependemos do ar que respiramos. Achei que ficou meio feio, pareceu coisa de novo rico com p\u00e9ssima mem\u00f3ria. N\u00e3o adianta andar bem vestido se n\u00e3o for tamb\u00e9m gente fina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">E quem \u00e9 gente fina mesmo n\u00e3o esquece que outro dia ainda est\u00e1vamos na merda e n\u00e3o fica tripudiando dos pobres. A proposta do jornalista era abusada, mas n\u00e3o tinha nada de her\u00e9tica. S\u00f3 era pouco consistente, mais um assunto pra preencher o enorme tempo em que se est\u00e1 no ar nessas resenhas televisivas. Mas que deveria provocar reflex\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">N\u00e3o \u00e9 muito coerente que a torcida do Flamengo, popular e multitudin\u00e1ria, compartilhe com a nossa elite econ\u00f4mica morena, cevada por gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es nas tetas da vi\u00fava, dessa grave miopia em rela\u00e7\u00e3o aos mercados consumidores. Que ricos oligarcas que desde 1889 vem financiando caquistocracias rapaces prefiram exterminar com a concorr\u00eancia para operar com altas margens e r\u00e1pido retorno em mercados concentrados ainda v\u00e1 l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Mas estranhei que logo a mulambada, cuja for\u00e7a econ\u00f4mica est\u00e1 firmemente alicer\u00e7ada no lumpemproletariado urbano e rural, que minera seu ouro suado nos corres infinitos de ro\u00e7as, tendinhas e barracas de camel\u00f4, fosse cair nesse <em>trompe-l&#8217;oeil<\/em> liberal. Um conto-do-vig\u00e1rio ao qual julgava ser o rubro-negro m\u00e9dio imune.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">O Aydano podia at\u00e9 estar s\u00f3 querendo biscoito, mas o Flamengo, se na sua c\u00fapula houver algum real interesse em pensar no clube a longo prazo, que significa pensar no bem-estar da Na\u00e7\u00e3o nessa e\u00a0 nas futuras gera\u00e7\u00f5es, vai ter que ajudar os outros clubes, sim. \u00c9 inevit\u00e1vel. Ali\u00e1s, o Flamengo j\u00e1 faz uma esp\u00e9cie de filantropia h\u00e1 muitos e muitos anos. Com geral na nossa aba, no Rio de Janeiro, no Brasil e em parte significativa do mundo livre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u00c9 a torcida do Flamengo que mant\u00e9m o sistema funcionando e que d\u00e1 sustenta\u00e7\u00e3o a todo um setor da economia que gira milh\u00f5es em receitas, empregando milh\u00f5es de pessoas. At\u00e9 um analfan\u00famero de humanas como eu \u00e9 capaz de fazer uma conta de subtra\u00e7\u00e3o. A\u00ed \u00e9 s\u00f3 ver de que tamanho fica o mercado de futebol brasileiro depois que se subtrai o dinheiro relacionado ao Flamengo do resultado final do bolo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Mais cedo ou mais tarde, teremos que encontrar formas de ajudar ainda mais os pequenos. Quanto mais crescermos mais precisaremos deles pra viver. N\u00e3o podemos fazer campeonatos jogando contra n\u00f3s mesmos. Vejam o estado pr\u00e9-falimentar dos nossos embara\u00e7osos rivais cariocas. O Flamengo Superpot\u00eancia Mundial G7 mal saiu da casca e \u00e0 Vasca, ao Flor e ao Foguinho j\u00e1 n\u00e3o resta sequer a prataria para passar nos cobres. Pistoleiros do Serasa, da Light, da Cedae e do Prezunic andam pelas madrugadas na captura dos Tr\u00eas Patetas. A fal\u00eancia j\u00e1 nem bate na porta deles, chega chegando, metendo a m\u00e3o na ma\u00e7aneta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Mas por acaso seria bom para o Flamengo que Curly, Larry ou Moe fossem \u00e0 bancarrota? \u00c9 claro que n\u00e3o. Precisamos deles. N\u00e3o \u00e9 porque estamos no topo da cadeia alimentar que podemos esquecer que fazemos parte do mesmo ecossistema. O Flamengo at\u00e9 que sobreviveria se as tr\u00eas bocas fossem simultaneamente \u00e0 fal\u00eancia, pois pode jogar em qualquer lugar do Brasil com casa cheia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Mas a primeira v\u00edtima colateral de uma quebradeira entre os nossos rivais seria a pr\u00f3pria torcida do Flamengo no Rio de Janeiro, que perderia de uma s\u00f3 vez seus principais fregueses. S\u00e3o pequenos, n\u00e3o ganham nada, as camisas s\u00e3o feias, mas sem eles vamos zoar quem? Quem vai pagar a nossa cerveja? Isso pra n\u00e3o falar na brutal diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de jogos no Maracan\u00e3. Temos que salva-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u00c9 claro que \u00e9 maneiro ver os caras sofrendo sem um puto, sem \u00e1gua e no escuro, mas n\u00e3o \u00e9 muito inteligente deixar a casa cair pra depois ir buscar dinheiro p\u00fablico pra reformar o im\u00f3vel sinistrado. Mesmo porque n\u00e3o existe dinheiro p\u00fablico, o \u00fanico dinheiro que existe \u00e9 o de quem paga impostos. Ou seja, no final do ciclo econ\u00f4mico o dinheiro pra pagar a conta do salvamento dos pequenos vai sair do bolso da torcida do Flamengo mesmo. No fim das contas, o Aydano estava falando, talvez inadvertidamente, do dinheiro dele mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">N\u00e3o existe almo\u00e7o gr\u00e1tis, se a torcida do Flamengo quer ter algu\u00e9m pra zoar vai ter que pagar pelo servi\u00e7o. Teremos que aprender a lidar com isso, a interdepend\u00eancia n\u00e3o \u00e9 vergonha. \u00c9 melhor que o Flamengo anteveja o lance, se antecipe e fa\u00e7a a revolu\u00e7\u00e3o antes que o povo a fa\u00e7a. Como j\u00e1 citei Tatcher, Friedman e o Presidente Ant\u00f4nio Carlos, encerro com uma m\u00e1xima do meu querido Tio Levi, comerciante de tino: Z<em>em cliente o loja fecha.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><strong>Meng\u00e3o Sempre<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/arthur-muhlenberg\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Arthur Muhlenberg\t<\/a>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uns dias, num programa de TV, o rubro-negro Aydano Motta sugeriu, com not\u00e1vel desprendimento pelos bens materiais pertencentes a terceiros, que o Flamengo, na sua condi\u00e7\u00e3o de primo rico do futebol nacional, deveria ajudar os clubes menos favorecidos. 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