{"id":5617,"date":"2019-04-08T23:31:06","date_gmt":"2019-04-08T23:31:06","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=5617"},"modified":"2019-04-09T01:10:38","modified_gmt":"2019-04-09T01:10:38","slug":"presente-de-avo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/presente-de-avo\/","title":{"rendered":"Presente de av\u00f3"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\"><em><strong>Por Rodrigo C. Robredo*<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Na minha fam\u00edlia era assim: meu av\u00f4 era tricolor, mas n\u00e3o ligava tanto para futebol. Quem gostava mesmo era minha av\u00f3. E ela era completamente apaixonada pelo Flamengo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Os dois vieram da Bahia para o Rio ainda jovens, acho que tinham menos de 20 anos. Isso na d\u00e9cada de 1930. Eu n\u00e3o sei explicar o amor da minha av\u00f3 pelo Flamengo. Nunca me preocupei com isso e nunca perguntei. \u00c9 bem verdade que motivos n\u00e3o faltavam: ela viveu os tempos de Domingos e Le\u00f4nidas. A era do r\u00e1dio, em que as partidas do Flamengo despertavam paix\u00f5es em todo o Brasil, no embalo da gaitinha do Ary Barroso. Depois vieram os tricampeonatos, Valido, Zizinho, Dida, o Maracan\u00e3&#8230; at\u00e9 chegar \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de Zico. Pensando bem, por que diabos ela n\u00e3o seria Flamengo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">O certo \u00e9 que minha v\u00f3 Maria foi uma flamenguista fervorosa. Lembro das f\u00e9rias na casa dela, quando eu devia ter uns 8 ou 9 anos. Na cabeceira da cama estava o r\u00e1dio-rel\u00f3gio, encarregado de transmitir os jogos do Flamengo. Eu tamb\u00e9m acompanhei alguns jogos naquele radinho, honrado por compartilhar momentos que eram t\u00e3o dela e ao mesmo tempo de tantos milh\u00f5es Brasil afora. Era uma esp\u00e9cie de inicia\u00e7\u00e3o, de batismo, e eu entrava numa etapa mais avan\u00e7ada na vida de torcedor, quando j\u00e1 n\u00e3o bastava ver os jogos que passavam na televis\u00e3o, ou ficar sabendo o resultado depois. L\u00e1 estava eu, Flamengo, come\u00e7ando a te seguir a todo lado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Aos poucos, fui me familiarizando com a narra\u00e7\u00e3o vertiginosa dos locutores. E a m\u00e1gica aconteceu. J\u00e1 visualizava os lances que eles descreviam, e imitava as jogadas distribuindo chutes e lan\u00e7amentos. Ao som do r\u00e1dio, jogava um \u201cair futebol\u201d raiz. E tamb\u00e9m tentava dar a minha contribui\u00e7\u00e3o para o time. Se vinha cruzamento, eu me antecipava para cabecear, na esperan\u00e7a de que o feiti\u00e7o funcionasse ao contr\u00e1rio e, l\u00e1 do outro lado, o nosso atacante fizesse o gol. \u00c0s vezes dava certo. Eram os anos 1980.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Uma rel\u00edquia da av\u00f3 que guardo com imenso carinho \u00e9 um LP chamado \u201cSempre Flamengo\u201d, que eu ouvi muito quando era garoto. No lado A, traz raridades das d\u00e9cadas de 1930, 40 e 50. Sambas de Wilson Batista e Geraldo Pereira. Um deles, \u201cCoisas do destino\u201d, tem as vozes dos campe\u00f5es de 1942, Nandinho, Pirilo e Vev\u00e9. Diz assim: \u201cAi, ai, s\u00e3o coisas do destino \/ Sou rubro-negro, meu patr\u00e3o \u00e9 vasca\u00edno \/ Ai, ai, esse emprego eu vou perder \/ Mas deixar de ser Flamengo, n\u00e3o, n\u00e3o pode ser\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">O lado B tem grava\u00e7\u00f5es mais novas, ou menos velhas, com gente como Moraes Moreira, Jorge Ben (que ainda n\u00e3o era Jor), Jo\u00e3o Nogueira e at\u00e9 o tricolor Chico Buarque emprestando seus talentos ao Mais Querido. \u00c9 um disco sensacional. Mas o especial mesmo, no meu exemplar herdado, est\u00e1 do lado de fora da capa. S\u00e3o as assinaturas de v\u00e1rios campe\u00f5es mundiais de 1981. A hist\u00f3ria que sei \u00e9 que minha av\u00f3 deu um jeito de pegar os aut\u00f3grafos na G\u00e1vea. Est\u00e3o l\u00e1 Leandro, Lico, Andrade, Nunes, Marinho e o t\u00e9cnico Carpegiani. Est\u00e3o tamb\u00e9m Zico e Sandra. Tem at\u00e9 a cantora Aracy de Almeida, que no disco interpreta, com voz de passarinho, a preciosa \u201cMem\u00f3rias de Torcedor\u201d (\u201dFa\u00e7o sacrif\u00edcio \/ Venho l\u00e1 do Realengo \/ Uma vez Flamengo, sempre Flamengo&#8230;\u201d). Grava\u00e7\u00e3o de 1946.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Apenas uma assinatura segue sendo um mist\u00e9rio, nunca consegui identificar. Eu fico imaginando minha av\u00f3 pegando esses aut\u00f3grafos. J\u00e1 com mais de 60 anos, uma senhora elegante abordando os craques com seu disquinho na m\u00e3o. N\u00e3o devia ser algo muito comum para eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Quando eu morava em Bras\u00edlia, e a av\u00f3 no Rio, n\u00f3s t\u00ednhamos um ritual. A gente se falava pelo telefone depois dos jogos importantes. Eu sabia que ela tinha acompanhado, e ela sabia o mesmo de mim. E tome resenha, eu ainda muito crian\u00e7a para desenvolver melhor o assunto, mas sempre curtindo aquela conversa. \u201cVoc\u00ea viu que gola\u00e7o do Zico?\u201d; \u201cComo \u00e9 que pode o Flamengo perder esse jogo?!\u201d; \u201dV\u00f3, a gente vai ser campe\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">O jogo que mais me marcou, desses que comentamos pelo telefone, foi a semifinal do Brasileiro de 1987, no Mineir\u00e3o. Eu tinha 10 anos e vivia vestido com uma camisa do Flamengo, n\u00famero 9, do Bebeto. Assistir \u00e0quele jogo pela televis\u00e3o foi uma das coisas mais nervosas da minha vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">No primeiro tempo, Flamengo 2 a 0, Zic\u00e3o, de cabe\u00e7a, e Bebetinho, na categoria. No segundo tempo, press\u00e3o e empate do Atl\u00e9tico. Tens\u00e3o total. At\u00e9 que Renato Ga\u00facho arrancou do meio de campo e foi parar dentro do gol: 3 a 2, Meng\u00e3o classificado para a final. Quando acabou, eu sa\u00ed correndo da sala e me tranquei no quarto para chorar e extravasar a emo\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o sabia que o futebol podia fazer isso, que o Flamengo podia fazer isso. Mais uma etapa inaugurada na minha vida de torcedor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Eu n\u00e3o lembro direito os detalhes da conversa com a minha av\u00f3. S\u00f3 sei que a gente se falou no telefone e que era imposs\u00edvel esconder o meu estado. Ela estava se divertindo e eu quase morrendo. E eu perguntava, mesmo sabendo a resposta: \u201cV\u00f3&#8230; voc\u00ea viu?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Essa rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o marcante com a minha querida av\u00f3 flamenguista teve tamb\u00e9m um cap\u00edtulo de Natal. Quando crian\u00e7a, eu n\u00e3o costumava presentear ningu\u00e9m. Mas, naquele ano, fiz diferente. Talvez tenha sido na sa\u00edda do Maracan\u00e3, em algum jogo em que fui levado pelo meu irm\u00e3o, que compramos uma bandeira, dessas vendidas na rua. N\u00e3o era oficial e nem fazia esfor\u00e7o, vinha dividida em tr\u00eas listras verticais, uma vermelha, uma preta e uma branca no meio. Pra arrematar, um escudo do Flamengo e uma listagem de t\u00edtulos. Acho que nunca vi minha av\u00f3 t\u00e3o contente. A fotografia permanece n\u00edtida na minha mem\u00f3ria: ela agitando a bandeira, sorriso no rosto, len\u00e7o na cabe\u00e7a, ainda sem ter se arrumado para a festa do Natal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Hoje eu procuro essa foto em todos os arm\u00e1rios da fam\u00edlia, mas n\u00e3o encontro. Deve ter se perdido em alguma mudan\u00e7a. Para mim, \u00e9 a imagem definitiva da minha av\u00f3 Maria. \u00c9 t\u00e3o presente e s\u00f3lida como esse la\u00e7o que a gente criou e que n\u00e3o se desfaz nunca, eu, ela e o Flamengo. Quando tem jogo importante, eu ainda me permito fazer uma liga\u00e7\u00e3o para a minha av\u00f3 no meu pensamento. Eu digo a ela: \u201cV\u00f3&#8230; voc\u00ea viu?\u201d E acima de tudo: \u201cV\u00f3, obrigado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\"><em><strong>* Rodrigo C. Robredo \u00e9 flamengo, jornalista e ladrilheiro.<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\"><div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/ladrilheiros\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Ladrilheiros\t<\/a>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Rodrigo C. Robredo* Na minha fam\u00edlia era assim: meu av\u00f4 era tricolor, mas n\u00e3o ligava tanto para futebol. Quem gostava mesmo era minha av\u00f3. E ela era completamente apaixonada pelo Flamengo. Os dois vieram da Bahia para o Rio ainda jovens, acho que tinham menos de 20 anos. Isso na d\u00e9cada de 1930. 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