{"id":4723,"date":"2018-05-19T17:38:47","date_gmt":"2018-05-19T17:38:47","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=4723"},"modified":"2018-05-19T19:50:57","modified_gmt":"2018-05-19T19:50:57","slug":"o-cata-latas-marcos-virou-rei-no-maraca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/o-cata-latas-marcos-virou-rei-no-maraca\/","title":{"rendered":"Um cata-latas no Maraca"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">O que poderia haver de mais importante na noite da \u00faltima quarta-feira, fiel leitor, do que ver o Flamengo jogar, vencer o Emelec e arrancar os tr\u00eas pontos mais dram\u00e1ticos desta d\u00e9cada para o clube rubro-negro?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Bem, para o jovem Marcos, apenas um dos 37,6 milh\u00f5es de rubro-negros espalhados por esse mund\u00e3o, havia outra singela prioridade: catar algumas latinhas de alum\u00ednio para poder comer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">E, vamos e venhamos, poucas noites s\u00e3o mais prop\u00edcias para a coleta de materiais recicl\u00e1veis do que um jogo do Flamengo na Ta\u00e7a Libertadores. Os constantes traumas e micos pagos nos \u00faltimos anos, numa competi\u00e7\u00e3o famosa por ter mais juiz frouxo e safado que o STF, s\u00e3o um alento para os trabalhadores informais, of\u00edcio moleza em que bastam ajuntar 255 quilos de alum\u00ednio para trocar por um sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Aos 40.390 rubro-negros que aflu\u00edam para o est\u00e1dio, de fato n\u00e3o restava outra atitude a n\u00e3o ser entornar uma atr\u00e1s da outra, tentando esquecer que n\u00e3o contratamos treinador, que a Fifa de uma \u00c9gua e seus engravatados destru\u00edram de vez o \u00eddolo Guerrero, que nossa esperan\u00e7a de gols se chama Henrique Dourado. E \u00e9 o nervosismo, s\u00f3 pode, que faz nossa torcida esquecer os bons modos e esparramar centenas, milhares de latas e garrafas pelas cal\u00e7adas da Tijuca. Tudo para sorte e deleite do atento Marcos, que se agachava diante dos torcedores para garantir mais uma lata, e de repente beber aquele resto quentinho deixado no fundo, \u00f4 sorte. A noite prometia ser lucrativa para Marcos, como se v\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">At\u00e9 que passaram os malucos com um ingresso sobrando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">\u201cEstou com dois no bolso e o Dado foi no setor Sul mesmo. N\u00e3o tou na pilha de vender n\u00e3o\u201d, disse o chefe da patota. Pronto, concordaram, vamos convidar algu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">A primeira op\u00e7\u00e3o foi um men\u00f3, mas estavam todos em grupo, querendo ajudar cambistas mais velhos a vender o encalhe, pouco interessados no jogo. \u201cN\u00e3o posso ficar at\u00e9 tarde, mas se quiser me dar eu revendo\u201d, respondeu um dos baixinhos. Descartado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">A segunda op\u00e7\u00e3o foi um cata-latas que passou, mas era evidente pelo olhar e os passos tr\u00f4pegos que n\u00e3o passaria na Lei Seca, e at\u00e9 o ato de vencer a roleta seria complexo. Foi quando Marcos, at\u00e9 ent\u00e3o um invis\u00edvel, foi visto. \u201cFala, fera. \u00c9s flamengo?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Convite feito, e o rosto de Marcos, por baixo do bon\u00e9 falsifa da Reserva, virou um clar\u00e3o. \u201cEu? No Maracan\u00e3? Eu? Ah, bem que eu queria! Mas tenho que me defender. Se eu n\u00e3o ficar aqui na fun\u00e7\u00e3o das latinhas, amanh\u00e3 ningu\u00e9m come l\u00e1 em casa na Mangueira. Mas obrigado, viu?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">A empatia rolou forte, e agora o grupo n\u00e3o entraria sem Marcos: \u201cQuanto tu faz numa noite?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">\u201cQuinze reais, preciso catar 15 reais em latinha\u2026\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">\u201cA gente tem 15 aqui, topa?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">A\u00ed era esmola demais para o santo Marcos recusar.\u00a0Dando um\u00a0drible na meritocracia, ele doou o sac\u00e3o de latas para um colega de labuta e soltou o grito euf\u00f3rico: \u201cToma de presente, mano. Eu vou ao jogo do Meng\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Marcos se misturou ao bonde no talento, mas tinha perguntas antes de entrar no est\u00e1dio: que campeonato era? Contra quem? &#8220;Meleca? R\u00e1 r\u00e1&#8230;&#8221; E o Juan, vai jogar? \u201cJuan sabe muito, aprendeu tudo com o Gamarra&#8221;, mostrou conhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Aboletado no setor Norte, Marcos come\u00e7ou desde o primeiro tempo a dar aula para muito torcedor mais ass\u00edduo. Com o pulm\u00e3o entalado, sem gritar pelo Flamengo h\u00e1 papo de 20 anos, Marcos n\u00e3o parava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">\u201cMengo bola, Mengo bola, Mengo bola!\u201d, e Cu\u00e9llar roubava mais uma. \u201cD\u00e1 no garoto\u201d, incentivava, apaixonado \u00e0 primeira vista pelo estilo de Vinicius J\u00fanior. \u201cN\u00e3aaaao, sem bolinha para tr\u00e1s\u201d, irritava-se o mangueirense com o tico-tico-no-fub\u00e1 de Paquet\u00e1, em noite para se esquecer. O primeiro tempo terminou em zero, e nossa turma estava tensa. Menos Marcos. \u201cVai ser 3 a 0, fica tranquilo\u201d. E n\u00e3o parava de cantar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">O primeiro gol de \u00c9verton Ribeiro saiu logo no in\u00edcio do segundo tempo. Curiosamente, na mesma baliza em que Marcos lembrava de ter visto seu \u00faltimo tento no Maraca. O jogo estava um pouco menos encardido e Marcos se soltou mais nas lembran\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">\u201cEu sempre fui geraldino, vinha ver direto o Flamengo. Mas n\u00e3o entrava no Maracan\u00e3 desde um jogo contra o Paran\u00e1. Lembro at\u00e9 hoje: gol de Pingo!\u201d, repetia sem parar, euf\u00f3rico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Pelada inesquec\u00edvel, tamb\u00e9m para mim. Era agosto de 1999, o Flamengo era comandado por Carlinhos e tinha um time que poderia estar no livro \u201cOde a Mauro Shampoo e outras hist\u00f3rias da v\u00e1rzea\u201d, hil\u00e1ria colet\u00e2nea de cr\u00f4nicas futebol\u00edsticas de Luiz Antonio Simas: Clemer, Pimentel, Fab\u00e3o, Luiz Alberto e Athirson; Leandro \u00c1vila, Jorginho, Fabio Baiano e Jacozinho; L\u00ea e Reinaldo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Sim, Pingo nessa \u00e9poca era do Paran\u00e1 e fez no Maracan\u00e3, diante dos meus olhos, um de seus \u00fanicos dois gols na carreira. Foi exatamente a partir daquele jogo, que seria a despedida do geraldino Marcos, que vesti rubro-negro pela \u00faltima vez no Maracan\u00e3, me tornando um supersticioso contumaz (e louco, eu sei). Passei a usar branco, azul, laranja, marrom, cinza ou preto, menos vermelho, e as vit\u00f3rias voltaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">\u201cMengo bola, Mengo bola!\u201d, Marcos continuava a apoiar, e tome de puxar velhas m\u00fasicas dos seus tempos de torcedor ativo. Ao olhar para cima, refletiu: \u201cFaz muita falta os bandeir\u00f5es e bumbos da torcida, n\u00e9? Eles sabem fazer festa. Olha s\u00f3, foi dali de baixo que eu vi o J\u00fanior levantando a Ta\u00e7a das Bolinhas. Como que nego vem dizer agora que a gente n\u00e3o a merece, irm\u00e3o? T\u00e1 maluco\u2026\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Algu\u00e9m chega com uma cerveja para o mangueirense, e ele j\u00e1 n\u00e3o sabe mais o que fazer para retribuir aquele bando de maluco. \u00c9 quando ele lembra que tem um lance no bolso, e mostra um objeto parecido com um l\u00e1pis faber-castell branco ainda n\u00e3o apontado. \u201cA menina me deu esse haxixe j\u00e1 apertado, voc\u00eas querem?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Sai o segundo gol, o mais bonito do jogo e de \u00c9verton Ribeiro at\u00e9 hoje pelo Flamengo, e em meio ao banho de cerveja e ao cheiro do mato fumegante, todo mundo se abra\u00e7a nas arquibas como no velho Maracan\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">E v\u00ea-se a cena, cada vez mais rara e necess\u00e1ria nos dias de hoje, de dois irm\u00e3os rubro-negros se abra\u00e7ando, talvez da mesma idade, moradores quase vizinhos, com hist\u00f3rias t\u00e3o d\u00edspares. Um roto, sem banho e sem 20 reais no bolso; e o outro, que usa Dove\u00a0diariamente e dirige uma BMW nos fins de semana. Mas todos com os tr\u00eas pontinhos suados no bolso. \u201cMengo, porra!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Com o est\u00e1dio esvaziando pouco a pouco, era hora de retornar. Saudado como p\u00e9-quente por todo mundo, o rei cata-latas ainda mantinha o brilho nos olhos de ressaca, quando apertou minha m\u00e3o e se despediu, para talvez nunca mais:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">\u201cObrigado, gente boa. V\u00e3o na paz, que eu ainda vou juntar umas latinhas, olha quantas por aqui!\u201d<\/p>\n<div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/marcelo\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Marcelo Dunlop\t<\/a>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que poderia haver de mais importante na noite da \u00faltima quarta-feira, fiel leitor, do que ver o Flamengo jogar, vencer o Emelec e arrancar os tr\u00eas pontos mais dram\u00e1ticos desta d\u00e9cada para o clube rubro-negro? 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