{"id":4710,"date":"2018-05-17T11:06:24","date_gmt":"2018-05-17T11:06:24","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=4710"},"modified":"2018-05-17T13:44:35","modified_gmt":"2018-05-17T13:44:35","slug":"uma-oitava-acima","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/uma-oitava-acima\/","title":{"rendered":"Uma Oitava Acima"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Foi um parto dif\u00edcil. Em suspense, os 40 milh\u00f5es de pais da crian\u00e7a se perguntavam se haveria abertura p\u00e9lvica suficiente para passar a enorme cabe\u00e7a do menino gestado durante uma an\u00f4mala e complicad\u00edssima gravidez que durou 8 anos. Depois de muito perrengue e da regulamentar dose de sofrimento de todos os parentes, presentes e assistentes, o Dr. Everton Ribeiro, na base do chut\u00e3o, come\u00e7ou a trazer \u00e0 luz o esperado rebento, que s\u00f3 pode levar as palmadas no bumbum de praxe aos 46 minutos do 2\u00ba Tempo, ap\u00f3s o renomado obstetra executar uma cobran\u00e7a de falta de efeito quase cesariano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Milagre da vida! O Flamengo conseguiu se classificar pro mata-mata da Libertadores! A comemora\u00e7\u00e3o exagerada que se seguiu n\u00e3o escondia o al\u00edvio da Na\u00e7\u00e3o. Entre <em>ufas<\/em> e <em>at\u00e9 que enfins<\/em> cat\u00e1rticos, pouca gente reparava no sorriso bobo da progenitora, toda arrebentada na mesa de parto. Por tr\u00e1s do esporro da arquibancada algu\u00e9m jurou ouvir o rebarbativo soneto de Coelho Neto, outrora o Pr\u00edncipe dos Prosadores Brasileiros, hoje s\u00f3 lembrado como o pai do Preguinho:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><em>Ser m\u00e3e \u00e9 desdobrar fibra por fibra<\/em><br \/>\n<em> O cora\u00e7\u00e3o! Ser m\u00e3e \u00e9 ter no alheio<\/em><br \/>\n<em> L\u00e1bio, que suga, o pedestal do seio,<\/em><br \/>\n<em> Onde a vida, onde o amor cantando vibra.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">O jogo em si n\u00e3o teve nada de po\u00e9tico. Foi mais uma pelada de maus bofes em que o time do Flamengo demonstrou, para quem era capaz de enxergar \u00f3bvio, o quanto pesavam nas suas costas os anos de fracassos e ilus\u00f5es desfeitas. \u00c9 verdade que o juiz, safado como ele s\u00f3, tamb\u00e9m n\u00e3o ajudava a criar um clima amig\u00e1vel. Mas do vi\u00e9s cleptocrata das arbitragens dos seus jogos o Flamengo j\u00e1 perdeu o direito de reclamar. \u00c9 sempre assim, em qualquer jurisdi\u00e7\u00e3o, \u00e9 obrigat\u00f3rio se adaptar a essa realidade. Confuso, nervoso, atabalhoado, o Flamengo desperdi\u00e7ava a sua opressora posse de bola em conclus\u00f5es inconclusivas, deixando espa\u00e7os abertos para a trag\u00e9dia que rondava o Maraca se criar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Diego, Paquet\u00e1 e Vinicius Junior, n\u00e3o fugiram do pau, mas frustraram as exageradas esperan\u00e7as sobre eles depositadas. J\u00e1 os forasteiros Cuellar, humildemente tocando o terror, e Ren\u00ea, refutando a tese pernambucana que para brilhar no Flamengo \u00e9 preciso ser bonito e ter amigos, ao lado do inatac\u00e1vel Everton Ribeiro, pareciam ser os \u00fanicos que n\u00e3o entraram em campo como se estivessem devendo alguma coisa. Mesmo na hora dos sustos, que esbarraram em um Diego Alves em noite inspirada, os tr\u00eas n\u00e3o perderam a linha. E foram decisivos para que a inhaca continental fosse enfim derrotada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">A torcida, como sempre, esteve de parab\u00e9ns. Bem vestida, ligada no jogo, prestando aten\u00e7\u00e3o no servi\u00e7o e cantando bonito. Provando que bandeiras e instrumentos de percuss\u00e3o abrilhantam a festa, mas que o clima da arquibancada se cria \u00e9 no gog\u00f3. O que deixa no ar alguns questionamentos sobre umas teorias socioecon\u00f4micas que relacionam a efic\u00e1cia da torcida ao valor m\u00e9dio de seus contracheques. Ontem o jogo era decisivo, o ingresso tava caro pra chuchu, a arquibancada n\u00e3o lotou e mesmo assim os 40 mil \u201cricos\u201d que botaram a cara cantaram como se n\u00e3o tivessem um s\u00f3 dente na boca. Soci\u00f3logos de botequim e doutorandos em precifica\u00e7\u00e3o, ao combate, seus malas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Embora reste o jogo com o River a ser jogado em Buenos Aires a fase de grupos j\u00e1 acabou, o que importa agora s\u00e3o as oitavas. Ainda nem sei se temos roupa pra isso. Mas como qualquer desafinado sabe, na escala crom\u00e1tica uma oitava \u00e9 o intervalo entre uma nota musical e outra com a metade ou o dobro de sua frequ\u00eancia. No caso, o Flamengo est\u00e1 indo uma oitava acima, e aquele d\u00f3 mixuruca do come\u00e7o da escala tem que ser tocado muito mais alto. Prestem aten\u00e7\u00e3o nessa letra, isso n\u00e3o \u00e9 negoci\u00e1vel. N\u00e3o desafinem!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Com essa dram\u00e1tica p\u00e1gina virada, teoricamente n\u00e3o h\u00e1 mais motivos para que o Flamengo jogue t\u00e3o mal, para que sinta tamanho desconforto e inadequa\u00e7\u00e3o ao meio-ambiente da Libertadores. Daqui pra frente a atmosfera vai ficar cada vez mais irrespir\u00e1vel. \u00c9 hora de inflar o peito de confian\u00e7a e recobrar a antiga e indispens\u00e1vel arrog\u00e2ncia que distingue os campe\u00f5es dos meros coadjuvantes. \u00c9 hora do Flamengo voltar a ser Flamengo outra vez. Est\u00e1 mais do que provado que a chave pro sucesso rubro-negro nessa carn\u00edvora competi\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais \u00e9tica e motivacional do que f\u00edsica ou t\u00e1tica. N\u00e3o que seja proibido jogar mal, acontece nas melhores fam\u00edlias, o que \u00e9 terminantemente proibido \u00e9 jogar mole.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Podemos e devemos comemorar, mas ainda n\u00e3o ganhamos nada. Voltando a glosar o Coelho Neto, <em>Ser m\u00e3e \u00e9 ter um mundo e n\u00e3o ter nada! Ser m\u00e3e \u00e9 padecer no para\u00edso.<\/em><\/p>\n<p>A m\u00e3e se fode toda, mas o costume \u00e9 dar parab\u00e9ns aos papais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><strong>Meng\u00e3o Sempre<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/arthur-muhlenberg\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Arthur Muhlenberg\t<\/a>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi um parto dif\u00edcil. 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