{"id":3974,"date":"2017-10-28T06:05:46","date_gmt":"2017-10-28T06:05:46","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=3974"},"modified":"2017-10-28T19:28:46","modified_gmt":"2017-10-28T19:28:46","slug":"o-flamengo-tem-que-aprender-a-aprender","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/o-flamengo-tem-que-aprender-a-aprender\/","title":{"rendered":"O Flamengo Tem que Aprender a Aprender."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Tem um poema do Leminski que diz <em>no fundo, no fundo, bem l\u00e1 no fundo, a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto, que extinto por lei todo o remorso, maldito seja quem olhar pra tr\u00e1s, l\u00e1 pra tr\u00e1s n\u00e3o h\u00e1 nada, e nada mais<\/em>. E o poema se conclui com o verso de inaudita sabedoria:<\/p>\n<p><em>mas problemas n\u00e3o se resolvem,<\/em><br \/>\n<em> problemas t\u00eam fam\u00edlia grande,<\/em><br \/>\n<em> e aos domingos<\/em><br \/>\n<em> saem todos a passear<\/em><br \/>\n<em> o problema, sua senhora<\/em><br \/>\n<em> e outros pequenos probleminhas<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Ora, uma grande parcela dos problemas e pequenos probleminhas que o Flamengo enfrentou nos \u00faltimos anos est\u00e1 intimamente relacionada ao fato de que o Flamengo ainda n\u00e3o se esqueceu do que \u00e9 ser um clube da Zona Sul carioca que ainda cultiva anacr\u00f4nicos fumos de elite <em>fin-de-si\u00e8cle<\/em> e tampouco aprendeu a ser a empresa que joga duro no <em>doggy-doggy<\/em> <em>world<\/em> do futebol <em>business<\/em>. \u00c0s vezes se comporta com excessiva brandura e lentid\u00e3o no trato das coisas flamengas, em outras se perde em uma imatura submiss\u00e3o \u00e0s leis do mercado para atingir suas metas. Metas que muitas vezes est\u00e3o na margem oposta ao comportamento institucional que o senso comum espera de um clube com seu tamanho, hist\u00f3ria e composi\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Esse Flamengo, meio clube meio empresa, que transita entre imaturidade e a obsolesc\u00eancia muitas vezes sem passar pela excel\u00eancia ainda tem muito o que aprender. O que suscita a pergunta: por que o Flamengo n\u00e3o aprende? Caso voc\u00ea ainda n\u00e3o o tenha feito vou responder logo \u00e0 pergunta. O Flamengo n\u00e3o aprende porque as organiza\u00e7\u00f5es, no geral, n\u00e3o aprendem. N\u00e3o \u00e9 segredo pra ningu\u00e9m que o Flamengo, j\u00e1 faz algum tempo, est\u00e1 vivendo a radical transi\u00e7\u00e3o de clube para empresa. Uma metamorfose complicada em que o mesmo corpo abriga um clube de 122 anos, orientado por ritos, tradi\u00e7\u00f5es e idiossincrasias ancestrais e a <em>startup<\/em> ainda na primeira inf\u00e2ncia, orientada para o crescimento r\u00e1pido, foco no sucesso e no resultado financeiro, mas ainda estabanada como qualquer crian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u00c9 at\u00e9 natural que o Flamengo apresente os sintomas de um dist\u00farbio de aprendizado. Que \u00e9 mol\u00e9stia comum at\u00e9 nas grandes corpora\u00e7\u00f5es que conhecem exatamente o produto que est\u00e3o vendendo. N\u00e3o tenho certeza que o Flamengo saiba exatamente o que \u00e9 que ele est\u00e1 colocando no mercado. Qual \u00e9 o <em>core business<\/em> do Flamengo, o seu neg\u00f3cio principal? H\u00e1 quem diga que o produto do Flamengo \u00e9 futebol, os mais emaconhados dizem que o Flamengo vende emo\u00e7\u00f5es e outros ainda que o Flamengo \u00e9 um fornecedor de conte\u00fado na ind\u00fastria de entretenimento. Resumindo: o Flamengo, e nisto est\u00e1 junto a todos os outros clubes do Brasil, ainda n\u00e3o sabe, ao menos n\u00e3o com um \u00edndice confi\u00e1vel de certeza, em que mercado est\u00e1 atuando. E isso o Flamengo tem que aprender o quanto antes. Pelo menos antes dos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Um estudo da Harvard School of Business fez pesquisas durante 10 anos com uma infinidade de empresas na gringol\u00e2ndia para entender porque as empresas t\u00eam tanta dificuldade para se tornar, ou permanecer, como organiza\u00e7\u00f5es onde o aprendizado \u00e9 constante. O estudo concluiu que as pessoas, que no fundo s\u00e3o as empresas, tem uma predisposi\u00e7\u00e3o a se concentrar excessivamente no sucesso, em agir muito rapidamente, a depender demais de especialistas. E que essas arraigadas tend\u00eancias humanas interferem diretamente sobre o aprendizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">E no caso especial do Flamengo o problema \u00e9 ainda mais agudo, porque para a grande maioria de seus consumidores o sucesso \u00e9 aferido atrav\u00e9s de resultados esportivos obtidos em uma janela de 3 anos, onde o imponder\u00e1vel fica respons\u00e1vel por pelo menos 80 centavos de cada Real investido. O foco no sucesso, que a olho nu \u00e9 uma virtude, e o bom tom recomenda que seja uma profiss\u00e3o de f\u00e9 de todo dirigente do Flamengo, \u00e9 na verdade uma armadilha. Lideres empresariais podem at\u00e9 dizer que o aprendizado vem dos fracassos, mesmo que todas as suas a\u00e7\u00f5es mostrem uma preocupa\u00e7\u00e3o exclusiva com o sucesso. Mas se o presidente do Flamengo der declara\u00e7\u00e3o semelhante soar\u00e3o as trombetas do Apocalipse em um troar ensurdecedor que colocar\u00e1 a Na\u00e7\u00e3o em f\u00faria iconoclasta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">O problema da preocupa\u00e7\u00e3o excessiva com o sucesso \u00e9 a fam\u00edlia que ele leva pra passear nos domingos. Os probleminhas s\u00e3o o medo de falhar, a mentalidade fixa, o excesso de cr\u00e9dito dado a performances pregressas e a tend\u00eancia de culpar terceiros pelos insucessos. Puxa vida, \u00e9 at\u00e9 dif\u00edcil lembrar de alguma crise no Flamengo nos \u00faltimos 40 anos que n\u00e3o tenha a ver com os probleminhas passeadores. O Flamengo at\u00e9 hoje tem suas estrat\u00e9gias definidas por vice-presidentes que v\u00e3o ao clube ap\u00f3s o t\u00e9rmino do expediente em seus respectivos neg\u00f3cios e empregos. A contrata\u00e7\u00e3o de especialistas para tocar o dia a dia do Flamengo n\u00e3o foi inven\u00e7\u00e3o da Chapa Azul em 2013, mas deve-se \u00e0 ela a despersonaliza\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o, afastando o dirigente amador dos processos executivos. Um ineg\u00e1vel avan\u00e7o, mas que como tudo na vida, tamb\u00e9m tem um custo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Ao concentrar os processos executivos em profissionais remunerados, os Azuis trouxeram para dentro do clube uma cultura corporativa onde, conforme vimos acima, o aprendizado fica prejudicado. Cultura que refor\u00e7ou em todo o corpo executivo a necessidade, muitas vezes irracional, de fazer algo, de assumir uma posi\u00e7\u00e3o ou declarar um princ\u00edpio moral ou c\u00edvico. A avers\u00e3o \u00e0 ina\u00e7\u00e3o \u00e9 uma constante no mundo dos neg\u00f3cios, mas os resultados pr\u00e1ticos desse vi\u00e9s ativo nem sempre sobrevivem ao escrut\u00ednio dos livros-caixa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">\u00c9 o caso cl\u00e1ssico das estrat\u00e9gias dos goleiros na hora do p\u00eanalti. Um estudo feito na Inglaterra mostra que os goleiros que ficam parad\u00f5es no meio do gol s\u00e3o os que tem a melhor performance. Claro, eles j\u00e1 saem com 33,3% de chance de impedir o gol. Ainda assim s\u00f3 6,3% dos goleiros adotam essa estrat\u00e9gia. Por que? Porque os humanos, e em especial os humanos exercendo fun\u00e7\u00f5es executivas, se sentem melhor e acham que ficam melhor na foto quando levam o gol se jogando pra um lado ou pro outro do que quando ficam parados esperando no meio do gol e deixando inteligentemente a responsabilidade da a\u00e7\u00e3o, e o peso total de um eventual fracasso, com o cobrador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">A fissura em agir gera exaust\u00e3o e rouba muito tempo do pensar. Podem perguntar pra qualquer executivo no que eles preferem trabalhar, no planejamento ou na execu\u00e7\u00e3o de uma a\u00e7\u00e3o e se conclui rapidamente que as organiza\u00e7\u00f5es reservam muito pouco tempo para o essencial trabalho de pensar. A falta de tempo para a reflex\u00e3o resulta em m\u00e1s decis\u00f5es. No Flamengo as m\u00e1s decis\u00f5es parecem se concentrar cruelmente no Departamento de Futebol. E resultam na montagem de equipes que, independente de quanto custem, encontram enorme dificuldade pra entregar o que delas se espera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Pelas minhas contas, que n\u00e3o s\u00e3o muito confi\u00e1veis, nos \u00faltimos 20 anos o Flamengo ainda n\u00e3o conseguiu ter sequer um elenco montado antes da pr\u00e9-temporada. Absolutamente todos, inclusive os que foram capazes de conquistas nacionais, foram montados ao longo das competi\u00e7\u00f5es, com todas as desvantagens que a pr\u00e1tica de trocar o pneu com o carro em movimento acarreta. Nossa seca de grandes conquistas esportivas \u00e9 um exemplo eloquente que a execu\u00e7\u00e3o repetitiva de um processo equivocado n\u00e3o o transforma em um processo acertado. \u00c9 outra coisa que o Flamengo precisa aprender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">A transforma\u00e7\u00e3o pela qual o Flamengo passa \u00e9 um processo longo, talvez eterno. Talvez nunca cheguemos a ser uma empresa, mas \u00e9 certo que jamais voltaremos a ser apenas um clube. \u00c9 imposs\u00edvel aos contempor\u00e2neos entender essa transi\u00e7\u00e3o em sua plenitude. O que \u00e9 poss\u00edvel entender \u00e9 que quem estiver \u00e0 frente do Flamengo, seja l\u00e1 quem for, tamb\u00e9m estar\u00e1, queira ou n\u00e3o, em um processo de aprendizado. E que toda solu\u00e7\u00e3o encontrada for\u00e7osamente criar\u00e1 novos problemas que exigir\u00e3o mais e mais aprendizado. Se a \u00fanica certeza que temos \u00e9 que tudo vai dar problema, a \u00fanica salva\u00e7\u00e3o est\u00e1 em aprender. Para que pelo menos n\u00e3o se repitam os erros j\u00e1 cometidos. Aprende, Flamengo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><strong>Meng\u00e3o Sempre<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/arthur-muhlenberg\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Arthur Muhlenberg\t<\/a>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem um poema do Leminski que diz no fundo, no fundo, bem l\u00e1 no fundo, a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto, que extinto por lei todo o remorso, maldito seja quem olhar pra tr\u00e1s, l\u00e1 pra tr\u00e1s n\u00e3o h\u00e1 nada, e nada mais. 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