{"id":3942,"date":"2017-10-17T22:21:50","date_gmt":"2017-10-17T22:21:50","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=3942"},"modified":"2017-11-20T16:56:53","modified_gmt":"2017-11-20T16:56:53","slug":"e-la-nave-rubro-negra-va","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/e-la-nave-rubro-negra-va\/","title":{"rendered":"E la nave rubro-negra va\u2026"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Contam que Fellini, n\u00e3o o goleiro italiano dos anos 1960 mas o cineasta, tinha uma t\u00e1tica ao filmar. Enquanto rodava seu \u201cOito e meio\u201d, por exemplo, o diretor grudou na c\u00e2mera, pr\u00f3ximo ao visor com uma esp\u00e9cie de fita gomada, o singelo lembrete: \u201cLembre-se, este \u00e9 um filme de com\u00e9dia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">A temporada do Flamengo em 2017 n\u00e3o tem sido propriamente c\u00f4mica \u2013 salvo um gol contra do Par\u00e1 ou um penal do \u00c9verton Ribeiro \u2013 mas a sacada de Fellini para n\u00e3o perder a m\u00e3o at\u00e9 que pode ser \u00fatil. N\u00e3o custa nada afixarem nos \u00f4nibus, vesti\u00e1rios e nas salas da diretoria, a faixa: \u201cLembre-se, o Flamengo \u00e9 um clube de futebol\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Os tr\u00eas pontos conquistados contra a Chapecoense (n\u00e3o chame aquilo de vit\u00f3ria ou os jogadores v\u00e3o fazer de novo) foram obra da proverbial \u201cbastilha inexpugn\u00e1vel\u201d de Nelson Rodrigues, com a santa ajuda do goleiro Diego Alves. As camisas rubro-negras estavam jogando ao vento, sem cora\u00e7\u00f5es, nervos e sangue a reche\u00e1-las. \u00c9 uma equipe de reparti\u00e7\u00e3o, onde cada jogador-funcion\u00e1rio se isola em seu cub\u00edculo, sem aproxima\u00e7\u00e3o, sem passe, sem companheirismo. Sem corpo nem alma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">O humorista e torcedor fan\u00e1tico Ricardo Ara\u00fajo Pereira uma vez escreveu: \u201cO futebol \u00e9 demasiado importante para ser discutido a s\u00e9rio. E, no entanto, h\u00e1 um n\u00famero cada vez maior de pessoas que pretende ter conversas s\u00e9rias sobre bola\u201d. Estava certo o adepto do Benfica. O futebol, de t\u00e3o s\u00e9rio, s\u00f3 vale quando jogado\u00a0com alegria. Alegria para os de fora e os de dentro de campo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Uma pena que hoje a alegria parece passar longe dos gabinetes e gramados rubro-negros. Puxe o notici\u00e1rio do Flamengo e s\u00f3 se l\u00ea termos como metas, faturamento, G7, custo-benef\u00edcio, euros, negocia\u00e7\u00f5es e CEO, quando n\u00e3o vetos e proibi\u00e7\u00f5es. N\u00e3o\u00a0se ouve mais palavras como toque de bola, t\u00e1tica, suor, vibra\u00e7\u00e3o, gols. Se um incauto falar em \u00e9lan na G\u00e1vea, periga um executivo replicar: \u201c\u00c9 marca de qu\u00ea? Ser\u00e1 que topa anunciar no mei\u00e3o?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">O Flamengo sobreviveu a uma tempestade de quase 20 anos, com rombos no casco, marujos abandonando o navio e muito rato gordo entrando e saindo. Hoje singramos \u00e1guas bem mais calmas, m\u00e9rito de muitos que\u00a0permanecem no clube. Mas \u00e9\u00a0dif\u00edcil n\u00e3o notar como cada temporada que come\u00e7a nos lembra uma embarca\u00e7\u00e3o italiana partindo, imagem de que Fellini tanto gostava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Pode reparar: o transatl\u00e2ntico Flamengo\u00a0zarpa todo ano diante de criancinhas acenando, bandeirolas ao vento e um novo capit\u00e3o de peito estufado no conv\u00e9s, exalando confian\u00e7a. A convic\u00e7\u00e3o \u00e9 geral: essa odisseia\u00a0vai longe! Sim, cruzaremos os sete mares e retornaremos cheios de trof\u00e9us e hist\u00f3rias para contar. Mas o navio d\u00e1 tr\u00eas voltinhas\u00a0em Paquet\u00e1 e regressa melancolicamente, com tr\u00eas bob\u00f5es de gel e camisa polo tirando selfie na amurada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Ah, minhas irm\u00e3s flamengas e meus irm\u00e3os flamengos, voc\u00eas eu n\u00e3o sei. Mas j\u00e1 ando tendo estocadas de saudades de um tempo borrascoso e sombrio, no qual o clube parecia um navio cargueiro com s\u00e9rvios\u00a0furiosos e cors\u00e1rios barbados,\u00a0com tatuagens \u00e0 la Guerrero e brincos \u00e0 la Adriano.\u00a0O conv\u00e9s cheirava a rum e volta e meia algum bo\u00e7al amarrava uma sereia no mastro, uma cena de dar medo. Mas, quando no horizonte surgia uma amea\u00e7a\u2026 Sai da frente, Simbad! Aqueles perebas comandados por um ou outro velho lobo do mar empunhavam suas espadas cegas e faziam mis\u00e9rias, fosse o inimigo um barquinho tricolor em formato de kombi, uma caravela portuguesa ou imponentes gale\u00f5es da Catalunha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Outro dia, encontrei um velho parceiro rubro-negro, que me contou uma hist\u00f3ria dos tempos do Hexa. O Palmeiras ainda liderava o Campeonato Brasileiro de 2009 com folgas, e o clima no Flamengo era a barafunda de sempre, voc\u00ea lembra. Dinheiro escasso, atletas jovens sem receber, t\u00e9cnico rec\u00e9m-demitido, Andrade tentando motivar o grupo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Ao conversar com os l\u00edderes da equipe, o Marcos Braz, homem forte do futebol \u00e0 \u00e9poca, prometeu que a cada vit\u00f3ria a partir dali haveria um bicho gordo, pago imediatamente no vesti\u00e1rio. Ningu\u00e9m botou f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">No primeiro jogo no Maracan\u00e3 ap\u00f3s o acordo, enquanto o time vestia as chuteiras, apareceu um sujeito nunca dantes visto na G\u00e1vea, com um mochil\u00e3o \u00e0s costas. Sentou-se num canto do vesti\u00e1rio e ficou, ignorando o olhar curioso dos jogadores. Vit\u00f3ria sacramentada, elenco em festa, o tal z\u00e9-mochila abre a sacola e tira de l\u00e1 o tesouro escondido: uns 10 mil reais em esp\u00e9cie, dados para o goleiro Bruno distribuir ao grupo. Dali at\u00e9 dezembro, o z\u00e9-mochila virou o cara mais querido do clube e apareceu em todas as partidas, mais que o Adriano. E o fim da hist\u00f3ria todos conhecem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">E hoje? O que motivaria nosso elenco a formar um time imbat\u00edvel? Falta tempo? Treino? T\u00e1tica? T\u00e9cnica? Tudo? Talvez\u00a0faltem detalhes, como um amigo avisar ao Muralha para pelamordedeus n\u00e3o pular tr\u00eas segundos antes nos p\u00eanaltis. Ou talvez a maior li\u00e7\u00e3o venha de outro grande g\u00eanio, j\u00e1 que nem Fellini salva: falo de Nen\u00e9m Prancha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Prancha, folcl\u00f3rico treinador de praia, prezava o futebol simples e ofensivo, e repetia que o jogador deve ir na bola como se fosse um prato de comida. Se nossos boleiros pararem de ir na bola como quem escolhe um canap\u00e9 na bandeja, de mindinho erguido, a alegria \u00e9 capaz de voltar. \u201cLembre-se, o Flamengo \u00e9 um clube de futebol\u201d.<\/p>\n<div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/marcelo\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Marcelo Dunlop\t<\/a>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Contam que Fellini, n\u00e3o o goleiro italiano dos anos 1960 mas o cineasta, tinha uma t\u00e1tica ao filmar. 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