{"id":3816,"date":"2017-08-30T15:35:30","date_gmt":"2017-08-30T15:35:30","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=3816"},"modified":"2017-08-31T20:50:12","modified_gmt":"2017-08-31T20:50:12","slug":"berrio-maravilha-nos-gostamos-de-voce","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/berrio-maravilha-nos-gostamos-de-voce\/","title":{"rendered":"Berr\u00edo Maravilha, n\u00f3s gostamos de voc\u00ea"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Eu queria escrever uma cr\u00f4nica pura e imprevis\u00edvel como o drible do Berr\u00edo, que fizesse o leitor ir para um lado, inocente e apressado como um lateral do Botafogo, e de repente, n\u00e3o mais que de repente, eu caprichasse na letra e o texto estancasse; dali eu tomaria uma dire\u00e7\u00e3o totalmente diferente, deixando o leitor perdido, s\u00f3 observando meu toque a\u00e7ucarado, \u00e0 fei\u00e7\u00e3o para o gol. Por\u00e9m, como isso seria imposs\u00edvel, catei o telefone e liguei para o Jardim Zool\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Ocorre, amigo leitor, que dentro de todo cronista dorme um intr\u00e9pido e curioso rep\u00f3rter investigativo, que acorda tarde e, pior, atrasa o aluguel. Como gosto da apura\u00e7\u00e3o aprofundada, diplomado que sou no Telecurso C\u00edcero Mello de Jornalismo Esportivo (via ESPN Brasil), disquei 3878-4200 e mandei ver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">\u201c\u00c9 do Zool\u00f3gico?\u201d. Sim, respondeu a voz gentil. \u201cQuantos bichos chamados Berr\u00edo nasceram esta semana? U\u00e9? Nem um beb\u00ea guepardo? Uma eminha? Nenhum filhote do Z\u00e9 Colmeia? Nem um m\u00edsero c\u00e1gado barbudo?\u201d. A voz gentil me mandou pentear macaco e desligou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Pois \u00e9, compadres flamengos e comadres flamengas, o carioca j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo. Em outros tempos, o centauro Orlando Berr\u00edo, metade poeta, metade velocista, seria homenageado de todas as maneiras na Cidade Maravilhosa, ap\u00f3s o drible desconcertante na semifinal da Copa do Brasil, que o leitor ou leitora provavelmente j\u00e1 viu umas 10 milh\u00f5es de vezes, desde a quarta-feira 23 de agosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Renato Maur\u00edcio Prado garantiu em seu blog s\u00f3 ter visto poesia parecida escrita pelos p\u00e9s de Jo\u00e3o Batista de Sales, o Fio Maravilha, ali pelos anos 1970; Juca Kfouri escreveu que desde o el\u00e1stico de Rom\u00e1rio em Amaral em 1999 n\u00e3o via nada igual em gramados tupiniquins. De fato, a t\u00e9cnica de driblar parecia ter embarcado com as bagagens e os amigos do Neymar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa. At\u00e9 a \u00faltima quarta-feira, quando foi novamente importado pelo colombiano Berr\u00edo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Mas cad\u00ea que o forasteiro recebeu as devidas homenagens? Berr\u00edo n\u00e3o virou nome de bicho no Zool\u00f3gico do Rio, n\u00e3o foi convidado pelo Louro Jos\u00e9 para mostrar sua receita favorita na TV, n\u00e3o recebeu nenhuma mo\u00e7\u00e3o ou placa na Boca Maldita da G\u00e1vea. Incrivelmente, nem foi acompanhado por 217 fot\u00f3grafos na visita que fez ao Cristo Redentor, na quinta-feira ap\u00f3s a partida. Lament\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Sim, porque a arte de Orlando Berr\u00edo merecia ser louvada, ainda que sem oba-oba ou palha\u00e7adinha. Afinal, n\u00e3o \u00e9 sempre que vemos uma luminosa jogada de 9 segundos ofuscar 90 minutos de travas e trevas profundas no Maracan\u00e3. Sim, amigo leitor trabalhador que n\u00e3o aguentou varar a madrugada: aquele Flamengo x Botafogo descambava para uma pelada de uma pobreza franciscana \u2013 se S\u00e3o Francisco usasse caneleiras e botinas, claro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">At\u00e9 o lance de mestre que come\u00e7ou com o rec\u00e9m-chegado treinador Reinaldo Rueda. Sim, o Rueda. Ao ver seu compatriota Berr\u00edo implacavelmente marcado pelo veloc\u00edssimo lateral alvinegro, defensor quase t\u00e3o r\u00e1pido quanto o atacante rubro-negro (Berr\u00edo, por sinal, foi eleito outro dia o segundo jogador mais r\u00e1pido do mundo,\u00a0por algum ve\u00edculo sem ter o que fazer), o que Rueda arquitetou?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">O s\u00e1bio treinador colombiano simplesmente ordenou erguerem a placa de substitui\u00e7\u00e3o do camisa 28 do Flamengo. Imediatamente, o latera de penugem descolorida do Botafogo relaxou, como qualquer um presente no Maracan\u00e3 reparou. E s\u00f3 por isso Berr\u00edo p\u00f4de arrancar com um nanoespa\u00e7o entre ele, o defensor e a bola, o que foi suficiente para o colombiano realizar sua arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Ainda n\u00e3o estou certo se a jogada foi t\u00e3o magistral assim ou se o jogo \u00e9 que era t\u00e3o pavoroso, mas que contraste, que contraste! O brilho de Berr\u00edo foi como o luar na noite escura, um sorriso de ring-girl interrompendo uma luta sangrenta de boxe tailand\u00eas, um solo de violino no palco com Wesley Safad\u00e3o, uma moeda de ouro numa fossa cheia de mer\u2026 OK, voc\u00ea j\u00e1 entendeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">\nMas que grande arte n\u00e3o nasce das trevas, n\u00e3o \u00e9 mesmo? O poeta Vinicius de Moraes costumava afirmar que Pel\u00e9 foi \u201cum g\u00eanio completo, porque o seu futebol representa um reflexo imediato de sua cabe\u00e7a nos seus p\u00e9s. Eu n\u00e3o sou g\u00eanio, n\u00e3o\u201d, garantia Vinicius, \u201cEu tenho que pensar um bocado para que a m\u00e3o transmita direito o que a cabe\u00e7a lucubrou.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">\nOutro genial torcedor, Nelson Rodrigues, explicava de forma sucinta o lampejo dos craques da bola: \u201cNo futebol, o racioc\u00ednio \u00e9 uma carro\u00e7a diante da velocidade vertiginosa do instinto\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Arte instintiva ou genialidade insuspeitada? O que teria levado o apagado Berr\u00edo a se atrever naquela jogada mirabolante diante de 53 mil almas, num lance em que qualquer um periga trope\u00e7ar na bola, cair de bunda no ch\u00e3o e nunca mais recuperar-se do tombo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">\u201cN\u00e3o foi atrevimento\u201d, disse um sereno Berr\u00edo logo ap\u00f3s o jogo, em conversa com um amigo colombiano pelo telefone. \u201cAcontece, amigo, que o campo estava acabando, e o \u00fanico lugar por onde eu poderia passar com a bola era por ali\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Orlando Berr\u00edo \u00e9 assim: n\u00e3o tenta impressionar, jamais busca a magia pela magia. Pode acontecer a m\u00e1gica, mas ele persegue a l\u00f3gica \u2013 talvez por ser filho de dois professores na Col\u00f4mbia. Sim, amigos, trata-se de um g\u00eanio. Um g\u00eanio que talvez precise chegar a 36km\/h para que sua genialidade pegue no tranco, mas um g\u00eanio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Eu queria nesta cr\u00f4nica exaltar ainda o chute seco do Diego barbante adentro, o salto preciso de Guerrero para deixar a bola entrar, mas \u00e9 hora do intr\u00e9pido jornalista que dorme dentro de mim (e \u00e9 um morto de fome) sair para almo\u00e7ar. Enquanto penso em onde ir, um amigo flamengo me liga. Atendo, logo ap\u00f3s me certificar que n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m l\u00e1 do Zool\u00f3gico me retaliando:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">\u201cFala fera! Bora ali conhecer o Capit\u00e3o Jacques Restaurante, em Copacabana?&#8221;, prop\u00f5e ele. &#8220;Os caras fazem uma espetada de peixe com camar\u00e3o acompanhada de arroz colombiano de lamber os bei\u00e7os, o pr\u00f3prio Berr\u00edo costuma aparecer l\u00e1 para rangar. Parece que depois do drible o prato vai ganhar o nome dele: espetada \u00e0 Berr\u00edo!\u201d. Ah, at\u00e9 que enfim o reconhecimento\u2026!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom: 24px\">Orlando Enrique Berr\u00edo Mel\u00e9ndez, 26 anos. E se nada mais fizer da vida, ter\u00e1 sido o primeiro artista a chocar a audi\u00eancia, uma multid\u00e3o fan\u00e1tica, com um \u00fanico e singular rabisco.<\/p>\n<div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/marcelo\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Marcelo Dunlop\t<\/a>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu queria escrever uma cr\u00f4nica pura e imprevis\u00edvel como o drible do Berr\u00edo, que fizesse o leitor ir para um lado, inocente e apressado como um lateral do Botafogo, e de repente, n\u00e3o mais que de repente, eu caprichasse na letra e o texto estancasse; dali eu tomaria uma dire\u00e7\u00e3o totalmente diferente, deixando o leitor &#8230; <a class=\"read-more-link\" href=\"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/berrio-maravilha-nos-gostamos-de-voce\/\">Read More <i class=\"ico-946\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":3819,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[32,30],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3816"}],"collection":[{"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3816"}],"version-history":[{"count":21,"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3816\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3839,"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3816\/revisions\/3839"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3819"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3816"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3816"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3816"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}