{"id":3722,"date":"2017-08-12T13:21:02","date_gmt":"2017-08-12T13:21:02","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=3722"},"modified":"2017-08-12T13:21:02","modified_gmt":"2017-08-12T13:21:02","slug":"o-tao-do-brasileirao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/o-tao-do-brasileirao\/","title":{"rendered":"O Tao do Brasileir\u00e3o."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> A hist\u00f3ria aconteceu no final da d\u00e9cada de noventa. Eu trabalhava em uma ag\u00eancia de propaganda no centro do Rio de Janeiro, e havia um revisor chamado Luiz Ot\u00e1vio, gente boa toda vida e um dos mais sacrificados da equipe. Chegava por volta das tr\u00eas da tarde, ia para casa no m\u00ednimo doze horas depois, j\u00e1 de madrugada. Para piorar, ao rabo de Luiz Ot\u00e1vio apontavam as kidbeng\u00e1licas picas trazidas pela possibilidade de seguir para o jornal um an\u00fancio com erro de pre\u00e7o \u2013 o principal cliente da ag\u00eancia era um grandalh\u00e3o do setor de varejo. Mesmo com toda a responsa e todo o perrengue, Luiz Ot\u00e1vio era frila. N\u00e3o tinha direito a FGTS, f\u00e9rias, vale-refei\u00e7\u00e3o, nada. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Pouco antes do Natal, algu\u00e9m veio com a infeliz ideia de promover um amigo oculto, brincadeira da qual at\u00e9 ent\u00e3o mant\u00ednhamos dist\u00e2ncia. E a cada um de n\u00f3s foi solicitado que pusesse, numa folha de papel pousada junto \u00e0 garrafa de caf\u00e9, sugest\u00f5es de poss\u00edveis presentes, o que s\u00f3 aumentava a sem-graceza da coisa. Naquele ano faziam sucesso os livros de inspira\u00e7\u00e3o tao\u00edsta, e eles dominavam a pequena lista de desejos. <em>O Tao da F\u00edsica<\/em>, <em>O Tao do Jeet Kune Do<\/em>, <em>O Tao da Busca<\/em>. De saco cheio daquela vida de exclu\u00eddo, Luiz Ot\u00e1vio seguiu a tend\u00eancia e tacou l\u00e1 o que gostaria de ganhar: <em>O Tao do D\u00e9cimo Terceiro<\/em>. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Vinte anos depois, entre uma e outra das nossas duas \u00faltimas derrotas (Santos na quarta-feira, Vit\u00f3ria no domingo), eu esquecia a sofr\u00eancia rubro-negra mergulhando na deliciosa prosa da autora mo\u00e7ambicana Ana C\u00e1ssia Rebelo. O livro, <em>Ana de Amsterdam<\/em>, re\u00fane escritos originalmente postados no blog de mesmo nome e \u00e9 uma pequena obra-prima. Em um dos textos Ana C\u00e1ssia joga a toalha em rela\u00e7\u00e3o a certos preconceitos de seu velho pai: \u201cH\u00e1 batalhas que j\u00e1 n\u00e3o merecem ser travadas.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Lembrei da fina ironia do Luiz Ot\u00e1vio, da caretice do pai da Ana C\u00e1ssia, da situa\u00e7\u00e3o do Flamengo no atual Campeonato Brasileiro, e sei l\u00e1 por que tentei unir os pontos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Nessa altura do campeonato, ainda \u00e9 poss\u00edvel viver \u00e0 espera de um milagre que leve o Flamengo ao <em>tao do t\u00edtulo<\/em>? Dureza. O jeito \u00e9 se agarrar a situa\u00e7\u00f5es passadas, relembrar pontos conquistados ou n\u00e3o em outras edi\u00e7\u00f5es da competi\u00e7\u00e3o, citar campe\u00f5es e reviravoltas, tirar leite de pedra. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Opa: encerramos o primeiro turno com vinte e nove pontos, enquanto na conquista de 2009 o fizemos com vinte e sete. A quest\u00e3o \u00e9 que, como sabemos, aquele foi um Brasileiro diferente, e talvez t\u00e3o fora da curva como o que tem sido o de 2017. Desde que o campeonato passou a ser disputado sob o sistema de pontos corridos, em 2003, o de 2009 foi o \u00fanico em que um clube levou a ta\u00e7a com menos de setenta pontos. Ganhamos quarenta no segundo turno \u2013 treze a mais do que no primeiro \u2013 e fechamos com sessenta e sete. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Algum alento nisso? Lamento: n\u00e3o. Se repetirmos os tais treze pontos a mais, terminaremos com setenta e um, pontua\u00e7\u00e3o que dificilmente ser\u00e1 superior \u00e0 de Gr\u00eamio e Corinthians. Melhor buscar outra linha de racioc\u00ednio. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Se no primeiro turno somamos vinte e nove pontos e o Corinthians quarenta e sete, por que no segundo n\u00e3o pode acontecer o inverso? Matematicamente, \u00e9 poss\u00edvel; futebolisticamente, haja f\u00e9. Ainda que seja correto prever e esperar derrapadas corintianas, a quest\u00e3o \u00e9 saber qual ser\u00e1 o tamanho do tombo, e sobretudo se ele permitir\u00e1 ao Flamengo que se aproxime. Dezoito pontos de diferen\u00e7a exigem um baque capaz de quebrar a mais s\u00f3lida das firmas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Ocorre que o segundo turno sequer come\u00e7ou e, pelo menos para mim, \u00e9 maior a decep\u00e7\u00e3o de ver o time fora da briga na metade do Campeonato Brasileiro do que eliminado na fase de grupos da Libertadores. Para quem tem um elenco como o nosso \u2013 e que ainda n\u00e3o era esse a\u00ed quando encaramos San Lorenzo, Universidad Cat\u00f3lica e Atl\u00e9tico Paranaense \u2013, a precipitada despedida do Brasileiro me parece mais dolorosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> N\u00e3o sou um otimista exagerado. Todavia, o segundo tempo contra o Corinthians e a partida com o Santos, at\u00e9 a inaceit\u00e1vel pregada de Rodinei em Jean Mota, me deixaram com a sensa\u00e7\u00e3o de que faltava pouco, uma hora dessas o time ia dar liga e poderia embalar. Flamengo e Vit\u00f3ria, na Ilha do Urubu, foi o balde de \u00e1gua fria. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Para adicionar gelo, achei no m\u00ednimo imprudente a escala\u00e7\u00e3o contra o Palestino. Com Diego suspenso e fora do jogo com o Atl\u00e9tico Mineiro, seria adequado n\u00e3o correr o risco de tamb\u00e9m perder Everton Ribeiro. N\u00e3o demorou para a ficha cair: apesar das compreens\u00edveis negativas, tudo leva a crer que o nosso departamento de Futebol adotara a resignada senten\u00e7a de Ana C\u00e1ssia Rebelo, passando a considerar o Brasileiro uma batalha que j\u00e1 n\u00e3o merece ser travada. (N\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia maior do que a contrata\u00e7\u00e3o de Reinaldo Rueda, que embora represente uma escolha ousada e positiva, sinaliza com a desist\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao Brasileiro de 2017 e mira o fortalecimento do time para o ano que vem.) <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Na \u00faltima quarta-feira, assistindo a Flamengo e Palestino pelo Fox Sports, ouvi o narrador Jo\u00e3o Guilherme dizer que, fora da Libertadores e do Campeonato Brasileiro, resta ao Flamengo lutar pela Copa do Brasil e pela Sul-Americana. Voc\u00eas eu n\u00e3o sei, mas eu n\u00e3o me conformo. Quase cento e vinte dias cumprindo tabela, depois de investir uma grana preta em estrutura e contrata\u00e7\u00f5es, chega a ser um despaut\u00e9rio. E nem a desgarrada pontua\u00e7\u00e3o do Corinthians serve de desculpa: tiv\u00e9ssemos feito o que at\u00e9 agora fez o Gr\u00eamio, estar\u00edamos firmes na batalha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Confesso que me sinto como o revisor Luiz Ot\u00e1vio, que conservava um in\u00fatil fio de esperan\u00e7a em um dia adquirir as benesses da CLT, por\u00e9m tudo indica que Jo\u00e3o Guilherme esteja certo, e eu errado. Para o narrador, um torcedor rubro-negro achar que ainda h\u00e1 chance de conquistar o Brasileiro de 2017 \u00e9 como acreditar em Papai Noel ou no Coelhinho da P\u00e1scoa. Eu fico com o Saci Perer\u00ea. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Se voc\u00eas duvidam que ele existe, perguntem aos moradores de Botucatu.<\/p>\n<div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/jorge-murtinho\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Jorge Murtinho\t<\/a>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria aconteceu no final da d\u00e9cada de noventa. Eu trabalhava em uma ag\u00eancia de propaganda no centro do Rio de Janeiro, e havia um revisor chamado Luiz Ot\u00e1vio, gente boa toda vida e um dos mais sacrificados da equipe. 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