{"id":1790,"date":"2016-02-01T17:28:29","date_gmt":"2016-02-01T17:28:29","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=1790"},"modified":"2016-02-01T19:27:14","modified_gmt":"2016-02-01T19:27:14","slug":"um-conto-de-futebol-argentino","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/um-conto-de-futebol-argentino\/","title":{"rendered":"Um Conto de Futebol Argentino"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Anda muito dif\u00edcil se empolgar com o nosso pobre Carioqueta. Os debates que ele suscita al\u00e9m de inconclusivos, repetitivos e paroquiais, ofendem a nossa intelig\u00eancia. Para n\u00e3o submergir na convidativa mediocridade pr\u00e9-carnavalesca, e para que a nossa segunda-feira seja menos miser\u00e1vel, traduzi nas coxas um conto de Jos\u00e9 Pablo Feinmann, escritor e roteirista argentino, apresentador do que talvez seja o \u00fanico programa de televis\u00e3o dedicado \u00e0 filosofia no mundo, o esquisit\u00edssimo\u00a0<em>Filosofia Aqui y Ahora<\/em>. Vejam a\u00ed o que acham da prosa do rapaz.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Dieguito<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Segundo seu pai, que talvez o odiasse, Dieguito era decididamente um idiota. Segundo sua m\u00e3e, que algo havia aceitado ao quere-lo, Dieguito era s\u00f3 um menino com problemas. Um menino com oito anos que n\u00e3o conseguia avan\u00e7ar nos seus estudos prim\u00e1rios \u2013 tinha repetido duas vezes o primeiro ano -, taciturno, solit\u00e1rio, que parecia servir apenas para se fechar no mezanino e brincar com seus bonecos, costurava e descosturava, os vestia e os despia, vivia consagrado a eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Um idiota, insistia o pai, e um maricas tamb\u00e9m, agregava, j\u00e1 que nenhum homenzinho de oito anos brinca t\u00e3o obstinadamente com bonecos e, o c\u00famulo, com bonecas. Um menino com problemas, insistia a m\u00e3e, n\u00e3o sem deslizar uma palavra cient\u00edfica que amparava a excentricidade de Dieguito.: s\u00edndrome disto ou s\u00edndrome daquilo, algo assim. E n\u00e3o um maricas, contradizendo o pai, mas um verdadeiro homenzinho: por acaso n\u00e3o amava o futebol? Por acaso n\u00e3o ligava a televis\u00e3o sempre que Diego Armando Maradona aparecia na tela m\u00e1gica fazendo, precisamente magia, a mais implac\u00e1vel das magias que um ser humano pode fazer com uma bola?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Dieguito deslizava pela vida alheio a estes debates paternos. Levantava cedo, ia ao col\u00e9gio, cometia ali todo tipo de erros, embara\u00e7os ou, sempre segundo seu pai, imbecilidades que logo se expressavam nas est\u00fapidas notas do seu boletim, e depois, Dieguito voltava para casa, se trancava no mezanino e brincava com seus bonecos at\u00e9 a hora de comer e dormir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Certo dia, um dia em que incorreu no infrequente h\u00e1bito de caminhar pelas ruas do bairro, presenciou um acontecimento extraordin\u00e1rio. Foi numa passagem de n\u00edvel. Um poderoso autom\u00f3vel tentou cruzar a linha com as barreiras baixadas e foi atropelado pelo trem. Simples assim. O trem seguiu sua marcha de vertigem e o carro, feito em peda\u00e7os, ficou num descampado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Dieguito n\u00e3o pode dominar sua curiosidade. Quem dirigia um carro t\u00e3o bonito? Correu \u2013 alegremente? \u2013 pelo descampado e se deteve junto ao carro. Sim, estava em peda\u00e7os, negro, fumegante e com muitos ferros retorcidos e muit\u00edssimo sangue. Dieguito olhou pela janela e teve a maior surpresa de sua curta vida: ali dentro, um pouco arrebentado, estava ele, o homem que mais admirava no mundo, seu \u00eddolo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Uma semana depois todos os jornais argentinos dedicavam sua primeira p\u00e1gina a um acontecimento habitual: Diego Armando Maradona j\u00e1 estava h\u00e1 10 dias sem comparecer aos treinamentos do seu time. Houve pol\u00eamicas, reportagens com varias personalidades (desde ministros a psicanalistas e fil\u00f3sofos) e conjecturas de todos os calibres. Uma delas se imp\u00f4s sobre as demais: Diego Armando Maradona havia fugido do pa\u00eds depois de ser atropelado por um trem enquanto cruzava uma passagem de n\u00edvel com seu deslumbrante BMW. Pra onde tinha fugido? Muito simples: para a Col\u00f4mbia, para se unir com o anci\u00e3o e desfigurado Carlos Gardel, que ainda sobrevivia \u00e0 sua trag\u00e9dia no pa\u00eds do realismo m\u00e1gico. Agora, desfigurados horrivelmente, os dois grandes \u00eddolos da nossa hist\u00f3ria se acompanhavam na dor, na solid\u00e3o e na humilha\u00e7\u00e3o de n\u00e3o poder se olhar no espelho. Eles, em quem havia se refletido o grande pa\u00eds do sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Em meio a essa tristeza nacional n\u00e3o pode sen\u00e3o surpreender o pai de Dieguito a alegria que iluminava sem cessar o rosto do menino, a quem ele, seu pai, chamava o pequeno idiota. O que tem o pequeno idiota?, perguntou \u00e0 m\u00e3e. \u201cN\u00e3o sei\u201d respondeu ela. \u201cCome bem. Dorme bem\u201d. E logo uma pequena vacila\u00e7\u00e3o \u2013 como se tivesse, demoradamente, lembrado de algum feito inusual -, acrescentou: \u201cS\u00f3 tem uma coisa estranha\u201d. \u201cO qu\u00ea\u201d, perguntou o pai. \u201cN\u00e3o quer mais ir ao col\u00e9gio\u201d, respondeu a m\u00e3e. Indignado, o pai convocou Dieguito. Se fechou com ele em seu escrit\u00f3rio e perguntou por que n\u00e3o ia mais ao col\u00e9gio. \u201cDieguito n\u00e3o querendo ir mais ao col\u00e9gio\u201d, respondeu Dieguito. O pai lhe pegou um sopapo e abandonou o escrit\u00f3rio em busca da m\u00e3e. \u201cEste idiota j\u00e1 nem sabe falar\u201d, lhe disse. \u201cAgora fala com ger\u00fandios\u201d. Dieguito respondeu: \u201cDieguito n\u00e3o sabendo o que s\u00e3o ger\u00fandios\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Transcorreu um par de dias. Dieguito, agora j\u00e1 quase n\u00e3o baixava do mezanino. Seus pais decidiram ignora-lo. Ou mais exatamente, esquece-lo. Que se arrebentasse esse idiota. Que apodre\u00e7a esse infeliz; s\u00f3 para trazer desgra\u00e7as e fazer papel\u00f5es tinha vindo ao mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">Por\u00e9m, h\u00e1 coisas que n\u00e3o se podem ignorar. Como ignorar o insidioso, nauseabundo fedor que vinha desde o mezanino at\u00e9 a sala de jantar e os quartos? Que diabo era isso? A quem poderiam convidar para o ch\u00e1 ou jantar com semelhante fedor na casa? Decidiram resolver t\u00e3o incomodo problema. \u201cIsso\u201d, disse o pai, \u201c\u00e9 obra do pequeno idiota\u201d. Chamou m\u00e3e e, juntos, decidiram empreender a marcha at\u00e9 o mezanino. Subiram a escada estreita, tentaram abrir a porta e n\u00e3o conseguiram: estava trancada. \u201cDieguito!\u201d, gritou o pai. \u201cAbre a porta, pequeno idiota!\u201d Se ouviram uns passos leves, girou a fechadura e se abriu a porta. Dieguito a abrira. Sorriu com cortesia e disse: \u201cDieguito trabalhando\u201d, e logo se dirigiu a mesa em que jazia o \u00eddolo nacional ausente. Sim, era ele. O pai n\u00e3o podia acreditar: n\u00e3o estava na Col\u00f4mbia, com Gardel, estava ali, sobre essa mesa, e o fedor era insuport\u00e1vel e tinha sangue por todas as partes e o \u00eddolo nacional ausente estava despeda\u00e7ado e Dieguito, com pura obsess\u00e3o, lhe costurava uma m\u00e3o (a m\u00e3o de Deus?) a um dos bra\u00e7os. E a m\u00e3e lan\u00e7ou um uivo de terror. E o pai perguntou: \u201cQue est\u00e1 fazendo, grandess\u00edssimo idiota? E Dieguito (secretamente satisfeito por haver sido, por fim, al\u00e7ado por seu pai aos dom\u00ednios da grandeza) apenas respondeu:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\">&#8211; Dieguito armando Maradona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><strong>Meng\u00e3o Sempre<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-bottom: 24px;\"><div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/arthur-muhlenberg\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Arthur Muhlenberg\t<\/a>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anda muito dif\u00edcil se empolgar com o nosso pobre Carioqueta. 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