{"id":1476,"date":"2015-09-21T15:21:01","date_gmt":"2015-09-21T15:21:01","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=1476"},"modified":"2015-09-21T18:29:01","modified_gmt":"2015-09-21T18:29:01","slug":"despretensiosa-tese-sobre-a-bola-aerea","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/despretensiosa-tese-sobre-a-bola-aerea\/","title":{"rendered":"Despretensiosa tese sobre a bola a\u00e9rea."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> A campanha do Flamengo no segundo turno evidencia o que j\u00e1 dev\u00edamos ter aprendido h\u00e1 tempos mas nos recusamos a enxergar, sobretudo nas derrotas: a import\u00e2ncia de encarar o futebol de acordo com o que ele tem de mais b\u00e1sico \u2013 o coletivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Da mesma forma que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil apontar quais foram os destaques em nossas seis vit\u00f3rias consecutivas, j\u00e1 que todos estiveram muito bem, \u00e9 dif\u00edcil salvar atua\u00e7\u00f5es individuais em derrotas como as das duas \u00faltimas rodadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Claro que um conjunto formado por grandes jogadores ser\u00e1 sempre mais forte que um outro formado por jogadores medianos, mas o primordial \u00e9 que haja um conjunto. Enquanto n\u00e3o entendermos isso e continuarmos crucificando o Par\u00e1 aqui, o C\u00e9sar Martins ali e o Cirino acol\u00e1, pouco avan\u00e7aremos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Minha mulher n\u00e3o acompanha futebol, a n\u00e3o ser pelas minhas rea\u00e7\u00f5es. Quando acabou a partida com o Coritiba, ela me peguntou o que dera errado e o que tinha sido pior. Respondi que tudo dera errado e que o pior estava por vir. Eu falava do jogo que ter\u00edamos contra o Atl\u00e9tico Mineiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Talvez o Atl\u00e9tico n\u00e3o seja o melhor time do Campeonato Brasileiro \u2013 pra mim, \u00e9 \u2013, mas quem o enfrenta no Est\u00e1dio Independ\u00eancia r\u00f3i um osso. Eles jogam de forma agressiva, marcam firme, acuam o advers\u00e1rio, concluem a toda hora. Al\u00e9m disso, em uma dessas quest\u00f5es que n\u00e3o encontram explica\u00e7\u00e3o no futebol, tudo indica que haja uma certa incompatibilidade entre os dois jeitos de jogar, o nosso e o deles, que favorece a eles. Acontece. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Temos dificuldades nas bolas a\u00e9reas, quesito em que o Atl\u00e9tico \u00e9 muito eficiente; nosso time com Oswaldo de Oliveira ficou mais organizado e valoriza o toque de bola, j\u00e1 o deles cultiva uma falsa bagun\u00e7a (que eles mesmos chamam de \u201cGalo Doido\u201d) e privilegia a velocidade; eles n\u00e3o t\u00eam meio-campistas carregadores de bola \u2013 quem carrega a bola no Atl\u00e9tico \u00e9 o bom lateral Marcos Rocha \u2013, enquanto n\u00f3s temos M\u00e1rcio Ara\u00fajo e Everton que atuam no sistema delivery. Na hora da on\u00e7a beber \u00e1gua, nessa briga gerada pelos diferentes estilos de elencos e treinadores, nossas partidas com o Atl\u00e9tico s\u00e3o sempre uma tremenda dureza. N\u00e3o que isto seja insuper\u00e1vel, mas h\u00e1 que se jogar no limite. E n\u00e3o est\u00e1 no seu limite um time que perde p\u00eanalti aos oito minutos e mete uma furiosa cabe\u00e7ada contra suas pr\u00f3prias redes aos dezesseis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Por menos rubro-negro que seja pensar desse jeito \u2013 sabendo que somos os fod\u00f5es do Bairro Peixoto \u2013, perder para o Atl\u00e9tico Mineiro fora de casa deveria estar em qualquer proje\u00e7\u00e3o realista que se fizesse quanto \u00e0s nossas pretens\u00f5es no campeonato. E isso s\u00f3 aumenta o qu\u00e3o desastrosa foi a derrota para o Coritiba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> No futebol, h\u00e1 jogadas que mudam os jogos e h\u00e1 jogos que mudam os destinos de um time na competi\u00e7\u00e3o, tanto para o bem como para o mal. Para o bem aconteceram, e todos lembram, nossas vit\u00f3rias sobre Palmeiras e Atl\u00e9tico Mineiro, ambas fora de casa, na arrancada em 2009. Se n\u00e3o recuperarmos rapidamente o equil\u00edbrio, a efici\u00eancia e as vit\u00f3rias, e n\u00e3o alcan\u00e7armos nosso objetivo verdadeiro (levantar o t\u00edtulo era fantasia, pois n\u00e3o?), os dois a zero para o Coritiba ter\u00e3o um peso bem maior do que pens\u00e1vamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Bom. Est\u00e1 mais do que na hora de entrar no tema que d\u00e1 t\u00edtulo ao post, e que j\u00e1 se transformou em um dos mais atormentadores pesadelos de toda a exist\u00eancia rubro-negra. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Mistura de fil\u00f3sofo de rua e t\u00e9cnico de futebol de praia, Nen\u00e9m Prancha virou mito no futebol carioca tanto pelo que dizia quanto pelas frases que Jo\u00e3o Saldanha e Sandro Moreyra colocavam-lhe na boca. Mas n\u00e3o importa: cultivemos o mito. Apesar da dificuldade de fazer a bola rolar nas areias fofas da orla do Rio de Janeiro, Nen\u00e9m Prancha abominava o jogo pelo alto, os bicos para cima e os chut\u00f5es a esmo. Quando, nos treinos, um dos seus pupilos optava por jogada semelhante, Nen\u00e9m Prancha parava tudo, pegava a bola, dirigia-se at\u00e9 o botinudo e dizia o seguinte: \u201cT\u00e1 vendo isso aqui, meu filho? O nome disso \u00e9 bola. A bola \u00e9 feita de couro. Couro \u00e9 feito da vaca. Vaca n\u00e3o voa, anda com as quatro patas no ch\u00e3o. Portanto, a bola n\u00e3o \u00e9 feita para voar, mas para correr rente ao campo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Nosso futebol sempre foi pr\u00f3digo em t\u00e9cnica e durante muito tempo todos os times contavam com caras inteligentes e habilidosos no meio-campo. Isso acontecia at\u00e9 nos clubes pequenos. O Campo Grande da minha inf\u00e2ncia tinha Alves, o Bangu tinha Cabralzinho, no Olaria brilhavam Afonsinho e Roberto Pinto. N\u00e3o cheguei a ver, mas os maiores meias da hist\u00f3ria do futebol brasileiro, Didi e G\u00e9rson, come\u00e7aram no Madureira e Canto do Rio. Esse era o nosso jeito, ao qual infelizmente renunciamos a partir da derrota da encantadora sele\u00e7\u00e3o de 82. Os tr\u00eas gols de Paolo Rossi no Est\u00e1dio Sarri\u00e1 mudaram o nosso car\u00e1ter para muito pior e fizeram entrar em campo o futebol de resultados, os meio-campistas que correm muito e jogam pouco, os cruzamentos altos para a \u00e1rea. O horror. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Mesmo com Nen\u00e9m Prancha se revirando no t\u00famulo que passou a habitar desde 17 de janeiro de 1976, desistimos de fazer a bola rolar e britanizamos nosso estilo. Tanto que desenvolvemos um novo tipo de jogador: da mesma forma que at\u00e9 os anos oitenta nossos times n\u00e3o abriam m\u00e3o de gente muito boa no meio-campo, hoje n\u00e3o h\u00e1 clube brasileiro que n\u00e3o tenha um especialista em cruzamentos com a bola parada. Mudamos o foco, e andamos para tr\u00e1s. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Entretanto, o maior absurdo dessa hist\u00f3ria est\u00e1 em n\u00e3o buscarmos solu\u00e7\u00f5es para neutralizar a pouco inspirada jogadinha, e n\u00e3o se trata de exclusividade rubro-negra. O problema \u00e9 geral e creio que n\u00e3o o resolveremos se n\u00e3o mudarmos radicalmente a maneira com que nossos goleiros se comportam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> N\u00e3o sei se depois da derrota de ontem algu\u00e9m teve \u00e2nimo para assistir a qualquer coisa de futebol, mas pego como exemplo o gol contra do zagueiro Rafael Lima, da Chapecoense, no jogo com o Cruzeiro. Vendo pela c\u00e2mera de tr\u00e1s, percebe-se como \u00e9 estranho o posicionamento do goleiro Danilo, t\u00edpico de quem est\u00e1 perdido e quer tirar o seu da reta. O cruzeirense Willian bate a falta e, nas fra\u00e7\u00f5es de segundo em que a bola viaja, Danilo recua e chega a ultrapassar a linha de seu pr\u00f3prio gol, numa decis\u00e3o suicida: qualquer toque, ali, torna a defesa imposs\u00edvel. Pra que, ent\u00e3o, ficar dentro do gol?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Ningu\u00e9m, em s\u00e3 consci\u00eancia, pode atribuir qualquer responsabilidade a Paulo Victor pelos gols de cabe\u00e7a que levamos ontem, mas n\u00e3o ser\u00e1 o caso de nossos goleiros adotarem uma postura diferente, trocando a infrut\u00edfera passividade pelo ato de atacar a bola? Se tiv\u00e9ssemos um outro olhar para esse tipo de lance, a bola cruzada no segundo gol do Atl\u00e9tico n\u00e3o seria do PV? <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Outro clich\u00ea do futebol de antigamente dizia haver uma not\u00e1vel diferen\u00e7a entre os goleiros argentinos e os brasileiros. Sempre que uma bola era levantada na \u00e1rea, o goleiro argentino gritava confiante para o zagueiro: \u201csai que \u00e9 minha\u201d; j\u00e1 o goleiro brasileiro gritava desesperado: \u201cvai que \u00e9 sua\u201d. Nossos goleiros melhoraram muito, mas permanecem pregados na linha do gol e gritando \u201cvai que \u00e9 sua\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> O conceito de confian\u00e7a, que permeou boa parte das discuss\u00f5es sobre a performance do nosso time nas seis primeiras rodadas do segundo turno, tamb\u00e9m se insere na atua\u00e7\u00e3o dos nossos goleiros \u2013 todos eles \u2013 nas bolas paradas levantadas para a \u00e1rea. Foi inacredit\u00e1vel, em mais um exemplo desse fim de semana, a indecis\u00e3o do goleiro gremista Tiago no gol de cabe\u00e7a do palmeirense Vitor Hugo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> Os goleiros do atual futebol profissional s\u00e3o todos muito altos, e \u00e0 sua altura deve ser somado o metro a mais que adquirem por poder interceptar a bola com as m\u00e3os. Com treinamentos adequados e repetidos \u00e0 exaust\u00e3o, ajuste no posicionamento dos zagueiros \u2013 que n\u00e3o devem atrapalh\u00e1-lo, como Felipe Melo fez com J\u00falio C\u00e9sar na Copa de 2010 \u2013 e confian\u00e7a para definir a jogada, nossos goleiros podem diminuir os riscos desse tipo de lance. Embora seja muito mais c\u00f4modo manter a cara de pastel enquanto as bolas estufam suas redes jogo ap\u00f3s jogo, al\u00e9m de repetir os eternos gestos de reclama\u00e7\u00f5es contra os zagueiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> N\u00e3o sei se a minha tese \u00e9 v\u00e1lida e se a minha sugest\u00e3o \u00e9 a melhor, s\u00f3 sei que estou de saco cheio. N\u00e3o aguento mais tomar gol desse jeitinho rid\u00edculo. Eu e, tenho certeza, todos voc\u00eas que tiveram a paci\u00eancia de ler esse texto at\u00e9 aqui. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;margin-bottom:24px\"> J\u00e1 deu.<\/p>\n<div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/jorge-murtinho\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Jorge Murtinho\t<\/a>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A campanha do Flamengo no segundo turno evidencia o que j\u00e1 dev\u00edamos ter aprendido h\u00e1 tempos mas nos recusamos a enxergar, sobretudo nas derrotas: a import\u00e2ncia de encarar o futebol de acordo com o que ele tem de mais b\u00e1sico \u2013 o coletivo. 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