{"id":11450,"date":"2024-04-24T03:58:44","date_gmt":"2024-04-24T03:58:44","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=11450"},"modified":"2024-04-24T14:35:22","modified_gmt":"2024-04-24T14:35:22","slug":"queremos-tudo-ao-mesmo-tempo-agora","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/queremos-tudo-ao-mesmo-tempo-agora\/","title":{"rendered":"Queremos Tudo ao Mesmo Tempo Agora"},"content":{"rendered":"\n<p>Nunca foi a minha inten\u00e7\u00e3o, posto que n\u00e3o costumo pratica-la, escrever sobre poupan\u00e7a. Mas o momento que o Flamengo atravessa torna uma abordagem ao \u00e1rido tema quase obrigat\u00f3ria. Jamais, em tempo algum, a conjuga\u00e7\u00e3o do verbo poupar esteve t\u00e3o na moda entre os tradicionalmente imprevidentes torcedores do Flamengo. Fen\u00f4meno rar\u00edssimo, que pouca vezes testemunhara, mas que n\u00e3o poderia ter surgido mais naturalmente.<br>.<br>Porque tudo que o Comiss\u00e1rio Tite tem feito ultimamente \u00e9 poupar nossos melhores jogadores no Brasileiro, poupar na Libertadores, poupar em toda ocasi\u00e3o em que for poss\u00edvel. Menos no safado Carioca, a \u00fanica competi\u00e7\u00e3o do planeta na qual o Flamengo parece estar devidamente autorizado a colocar em campo sua for\u00e7a m\u00e1xima. Quando age assim o Comiss\u00e1rio Tite parece um adepto da economia planificada e dos planos quinquenais que levaram \u00e0 Uni\u00e3o da Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas \u00e0 garra no fim do s\u00e9culo passado.<br>.<br>Como a justificativa mais frequente para essa sanha poupat\u00f3ria do Comiss\u00e1rio Tite se alicer\u00e7a essencialmente nas tecnicidades fisiol\u00f3gicas \u00e0s quais a torcida, esse lament\u00e1vel sodal\u00edcio de apedeutas, n\u00e3o possui nem o preparo, nem a predisposi\u00e7\u00e3o e muito menos o acesso aos dados para se educar adequadamente, sobra muito pouca margem para uma express\u00e3o de pensamentos coerente. Restando ao torcedor contrariado fazer biquinho, bater o p\u00e9 no ch\u00e3o e lamentar que a comiss\u00e3o t\u00e9cnica do Flamengo n\u00e3o compartilhe a sua vis\u00e3o de mundo.<br>.<br>O que podemos fazer \u00e9 combater a nossa pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia e entender o conceito da poupan\u00e7a como algo um pouco al\u00e9m do que a muquiranagem praticada pelos m\u00e3o de porco, p\u00e3o duros e casquinhas. Na economia, poupan\u00e7a \u00e9 um conceito amplo que se refere a toda receita n\u00e3o destinada ao consumo imediato. E existe um campo das ci\u00eancias econ\u00f4micas, a economia comportamental, que estuda os efeitos de fatores psicol\u00f3gicos, sociais, cognitivos, emocionais nas decis\u00f5es de indiv\u00edduos e institui\u00e7\u00f5es. No momento, nada pode ser mais \u00fatil ao rubro-negro do que tentar entender o processo de tomada de decis\u00f5es adotado pelo Comis\u00e1rio Tite.<br>.<br>\u00c9 l\u00f3gico supor que na raiz das decis\u00f5es tomadas pelo treinador esteja a avers\u00e3o ao risco. O medo p\u00e2nico que Tite parece ter de perder jogadores por esgotamento f\u00edsico ou mesmo por contus\u00f5es provocadas pela fadiga tem sido determinante no seu processo decis\u00f3rio. Por isso mesmo que a economia comportamental est\u00e1 principalmente preocupada com os limites da racionalidade dos tomadores de decis\u00f5es.<br>.<br>A racionalidade dos tomadores de decis\u00f5es \u00e9 fundamental, mas a racionalidade \u00e9 um valor inteiramente subjetivo, que varia de acordo com as circunst\u00e2ncias, esp\u00edrito da \u00e9poca e a grandeza dos objetivos. O que \u00e9 racional hoje pra voc\u00ea e sua galera poder\u00e1 ser considerado terrivelmente irracional sob a \u00f3tica de outros grupos em outros momentos. <\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma decis\u00e3o que foi considerada racional antes do Curica jogar com o Deportivo T\u00e1chira nos 900 metros de altitude de Caracas na Liberta em 2012 pode ser idiotamente irracional antes do Flamengo pegar o Bol\u00edvar nos apraz\u00edveis 3.640 metros de La Paz hoje \u00e0 noite. As decis\u00f5es racionais n\u00e3o s\u00e3o intercambi\u00e1veis. Como a marcha da hist\u00f3ria tem dolorosamente nos ensinado, a experi\u00eancia profissional \u00e9 uma val\u00eancia superestimada.<br>.<br>Porque at\u00e9 os profissionais mais experientes est\u00e3o sujeitos a cair no golpe da &#8220;Utilidade Condicional Esperada\u201d, uma forma de racioc\u00ednio em que o indiv\u00edduo tem uma ilus\u00e3o de controle e calcula as probabilidades de eventos externos e, portanto, sua utilidade como uma fun\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o, mesmo quando n\u00e3o t\u00eam capacidade causal de afetar esses eventos externos. O Comiss\u00e1rio Tite parece ter plena convic\u00e7\u00e3o de que todos os cuidados, precau\u00e7\u00f5es e previd\u00eancias tomadas s\u00e3o in\u00fateis e que ele nada poder\u00e1 fazer se hoje \u00e0 noite o ar se tornar por demais rarefeito e o Flamengo tomar uma girombada dos bol\u00edvia.<br>.<br>\u00c9 a\u00ed que meu lado burro, sempre com maior posse de bola, argumenta grosseiramente que toda essa poupan\u00e7a, popularmente chamada de economia, \u00e9 o princ\u00edpio da porcaria. De que adianta poupar os caras no Brasileiro, na Libertadores, na Copa do Brasil. \u00c9 pra eles estarem 100% no Mundial que nem sabemos ainda se vamos jogar? E se perder alguma dessas competi\u00e7\u00f5es com os caras devidamente poupados? \u00c9 como o caso dos velhos fazendo gin\u00e1stica febrilmente em vez de beber, fumar e pegar prostitutas que lhes sugar\u00e3o as aposentadorias. Pra qu\u00ea? Pra morrer cheio de sa\u00fade? Nonsense! <br>.<br>Em 1952, Maurice Allais, que receberia o Nobel de Economia em 1988, elaborou um teste que ficou conhecido como <em>Paradoxo de Allais<\/em>. O teste eram duas perguntas, que adapto aqui aos objetos de nosso interesse para um melhor entendimento.<br>.<br><strong>1) Voc\u00ea prefere a situa\u00e7\u00e3o A ou a situa\u00e7\u00e3o B?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>.<br><strong>Situa\u00e7\u00e3o A<\/strong>: certeza de ganhar a Libertadores da Am\u00e9rica;<\/p>\n\n\n\n<p>.<br><strong>Situa\u00e7\u00e3o B<\/strong>: 10% de probabilidade de ganhar a Libertadores da Am\u00e9rica, a Copa do Brasil e o Campeonato Brasileiro; 89% de probabilidade de ganhar s\u00f3 a Libertadores; 1% de probabilidade de n\u00e3o ganhar nada.<\/p>\n\n\n\n<p>.<br><strong>2) Voc\u00ea prefere a situa\u00e7\u00e3o C ou a situa\u00e7\u00e3o D?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>.<br><strong>Situa\u00e7\u00e3o C<\/strong>: 11% de probabilidade de ganhar a Libertadores; 89% de probabilidade de n\u00e3o ganhar nada.<\/p>\n\n\n\n<p>.<br><strong>Situa\u00e7\u00e3o D<\/strong>: 10% de probabilidade de ganhar a Libertadores da Am\u00e9rica, a Copa do Brasil e o Campeonato Brasileiro; 90% de probabilidade de n\u00e3o ganhar nada.<br>.<br>Allais, que era meio puto com algumas das conclus\u00f5es do Teoria dos Jogos e Comportamento Econ\u00f4mico, que John Von Neumann e Oskar Morgenstern escreveram em 1944, observou que mesmo pessoas muito cuidadosas, experientes, acostumadas ao c\u00e1lculo de probabilidades e consideradas racionais, invariavelmente preferiam A a B, mas ao mesmo tempo tamb\u00e9m preferiam D a C.<br>.<br>Fica evidente, e a partir daqui n\u00e3o \u00e9 Allais, mas o meu eu-burro que est\u00e1 falando, que a cobi\u00e7a, o olho grande, a vontade de ganhar tudo de uma vez s\u00f3, enfim, de abra\u00e7ar o mundo com as pernas, \u00e9 um componente muito importante no processo decis\u00f3rio que n\u00e3o deveria ser desprezado em nome de uma suposta seguran\u00e7a e de e-qui-l\u00ed-bri-o que s\u00e3o estados mentais ilus\u00f3rios.<br>.<br>\u00c9 ineg\u00e1vel que essa onda de poupar, que pega muito bem entre os planejadores, \u00e9 filha do medo, neta da avers\u00e3o ao risco, bisneta do materialismo, no sentido de entender a mat\u00e9ria como realidade ou subst\u00e2ncia primeira e \u00faltima de qualquer ser ou fen\u00f4meno do universo. E a gente sabe que o Flamengo \u00e9 muito mais do que isso. Planejamento, para o rubro-negro m\u00e9dio, \u00e9 comprar meia d\u00fazia de cervejas, em vez de uma s\u00f3, pra economizar as idas ao botequim.<br>.<br>Se preocupar com o jogo de hoje \u00e9 permitido, recomendado at\u00e9. Jogar no alto do morr\u00e3o \u00e9 sempre uma foda. Mas poupar a maior parte da nossa rapaziada, justamente no jogo mais encardido da fase de grupos, coloca em d\u00favida n\u00e3o os m\u00e9todos, mas os valores do Comiss\u00e1rio Tite. Vai poupar os pica hoje pra jogar completo com a porra do Foguinho no Domingo? <br>.<br>Nem eu que as escrevo e nem voc\u00eas que agora leem estas mal tra\u00e7adas sabem se ainda estar\u00e3o no plano dos vivos em dezembro. Nem o Comiss\u00e1rio Tite auxiliado por toda a ci\u00eancia do mundo sabe. N\u00e3o creio que seja ego\u00edsmo, imprevid\u00eancia ou porralouquice querer ver o Flamengo mais forte do mundo agora, hoje \u00e0 noite, com os melhores em campo se fudendo todo pra enfrentar a altitude, a hipoxia, a correria abor\u00edgene e vencer o jogo terr\u00edvel. \u00c9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de aproveitar o momento, viver o agora intensamente, <em>carpe diem<\/em>. <\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<p>A prud\u00eancia \u00e9 uma donzela rica e baranga, cortejada pela incapacidade. O Flamengo n\u00e3o nasceu pra queimar lentamente como uma varinha de incenso, o Flamengo est\u00e1 vocacionado pra explodir ruidosamente como um cabe\u00e7\u00e3o-de-nego do cosmos. Nascemos, crescemos e, eventualmente, nos fudemos de Big Bang em Big Bang. Explode cora\u00e7\u00e3o, na maior felicidade. \u00c9 lindo o meu Flamengo contagiando e sacudindo essa cidade. Sem mis\u00e9ria e sem regular a mixaria.<br>.<br><strong>Meng\u00e3o Sempre<\/strong><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca foi a minha inten\u00e7\u00e3o, posto que n\u00e3o costumo pratica-la, escrever sobre poupan\u00e7a. Mas o momento que o Flamengo atravessa torna uma abordagem ao \u00e1rido tema quase obrigat\u00f3ria. Jamais, em tempo algum, a conjuga\u00e7\u00e3o do verbo poupar esteve t\u00e3o na moda entre os tradicionalmente imprevidentes torcedores do Flamengo. 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