{"id":11319,"date":"2024-04-12T04:14:05","date_gmt":"2024-04-12T04:14:05","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=11319"},"modified":"2024-04-26T23:41:50","modified_gmt":"2024-04-26T23:41:50","slug":"prioridades-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/prioridades-2\/","title":{"rendered":"Prioridades"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">Os torcedores do Flamengo n\u00e3o assistem aos jogos do time, disse o Ruy Castro certa vez, mergulham nele como se fosse um banho morno. Nada mais verdadeiro, mestre Ruy. Imagine estar na quarta-feira passada solidamente escarrapachado num surrado sof\u00e1 de couro capiton\u00ea, como eu estava, mergulhando naquele imenso banho p\u00fablico, naquela jacuzzi termal, naquela Caxambu tricampe\u00e3 da Am\u00e9rica, naquele Ganges, naquele Rio Jord\u00e3o para 40 milh\u00f5es de almas que s\u00e3o os jogos do Meng\u00e3o na Libertadores.<br>.<br>Em pouco tempo submergi, imponder\u00e1vel, flutuando nas t\u00e9pidas profundezas do genu\u00edno encantamento, naquele estado peculiar de pura priva\u00e7\u00e3o sensorial, quando \u201cdo nada\u201d um acontecimento extraordin\u00e1rio se deu:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\"><br>Algo chamou a minha aten\u00e7\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\"><br>E n\u00e3o era o estupefaciente fardamento oficial do Flamengo, com seus caracter\u00edsticos cal\u00e7\u00f5es brancos e os mei\u00f5es rubro-negros, em conformidade com o que disp\u00f5e o estatuto do clube, com o qual os jogadores adentraram o mal cuidado relvado maracanesco.<br>.<br>Enquanto uma correnteza gentil e morninha me envolvia, t\u00e3o convidativa e am\u00e1vel que poderia nos pr\u00f3ximos 90 minutos me levar flutuando at\u00e9 a injusti\u00e7ada costa de S\u00e3o Gon\u00e7alo, do outro lado da Ba\u00eda de Guanabara. . . percebi, num rasgo de clarivid\u00eancia inabitual que o Flamengo estava encontrando dificuldades jamais previstas para submeter a primitiva equipe chilena. Que apesar da comovente indig\u00eancia t\u00e9cnica, se recusava a assumir de uma vez o papel do cordeiro sacrificial que lhe tinha sido previamente designado. Os chile se aferraram ao seu direito de embarreirar o roteiro sonhado por todos os rubro-negros e serem impiedosamente goleados pela equipe mais poderosa, menos vazada e mais bem vestida das tr\u00eas Am\u00e9ricas.<br>.<br>Mas, como assim? Que reviravolta, que perip\u00e9cia, que <em>plot twist <\/em>era aquele? O Flamengo exercia seu totalit\u00e1rio controle das a\u00e7\u00f5es, n\u00e3o deixava que os palestinos ficassem muito tempo de posse do brinquedo, mas era incapaz de machucar os dimen\u00f3. Que foram pouco a pouco se afei\u00e7oando ao jogo, ou melhor, se afei\u00e7oando ao pouco pau duro que o Flamengo exibia na hora de concluir suas tramas ofensivas.<br>.<br>N\u00e3o fosse o pict\u00f3rico gol de Pedro e o Flamengo correria o risco de ir para o vesti\u00e1rio no intervalo amargando um empate em casa com o time mais fraco do Grupo E. Com o perd\u00e3o da <em>mala dicha<\/em>, talvez n\u00e3o fosse uma m\u00e1 ideia. Porque o Flamengo voltou para o segundo tempo exibindo os mais conhecidos sintomas relacionados aos jogos na altitude, a falta de f\u00f4lego, a baixa estamina e uma peculiar desorienta\u00e7\u00e3o espacial. Os jogadores do Flamengo s\u00e3o antes de tudo atletas, mas, fora o canoniz\u00e1vel Ronaldo Angelim, n\u00e3o s\u00e3o de a\u00e7o.<br>.<br>Tais rea\u00e7\u00f5es f\u00edsicas seriam at\u00e9 normais n\u00e3o estivesse o jogo em tela sendo disputado ao n\u00edvel do mar, com o uso do farto estoque de oxig\u00eanio produzido pelas diatom\u00e1ceas vizinhas franqueado a todos e todas. Mas no segundo tempo o Flamengo, fazendo apenas seu segundo jogo da temporada (Carioca n\u00e3o conta) estava mortinho, esfalfado, exangue. Considerando as credenciais do seu <em>uber<\/em> preparador f\u00edsico de ascend\u00eancia arm\u00eania e sobrenome impronunci\u00e1vel nas l\u00ednguas crist\u00e3s o Flamengo apresentava um desempenho f\u00edsico de surpreendente mediocridade.<br>.<br>O que poderia justificar aquela decad\u00eancia aer\u00f3bica do Mais Querido? Despertado abruptamente do meu semicoma beat\u00edfico e aquoso fiz imediatamente o que qualquer um de voc\u00eas faria: procurei apontar culpados. E o meu culpado de estima\u00e7\u00e3o estava ali, ao alcance das minhas justi\u00e7as, em suspense, est\u00e1tico, pedindo pra ser grampeado. Que n\u00e3o poderia ser outro que n\u00e3o o malfeitor e mandri\u00e3o Campeonato Carioca, macr\u00f3bio e contumaz ladr\u00e3o do tempo e do dinheiro do Flamengo.<br>.<br>Como n\u00e3o existe exerc\u00edcio mais satisfat\u00f3rio para o ego do que fazer previs\u00f5es do passado, imediatamente constru\u00ed um libelo acusat\u00f3rio mental listando as inconveni\u00eancias e desnecessidade praticadas pelo Flamengo no \u00faltimo jogo do centen\u00e1rio torneio praiano. Tite precisava ter escalado algum dos titulares para um jogo meramente festivo? Por que colocar em risco a integridade f\u00edsica e o melhor condicionamento f\u00edsico dos craques capazes de decidir partidas realmente importantes? Por que n\u00e3o poupa-los de maiores esfor\u00e7os e compromissos, descansando n\u00e3o s\u00f3 os corpos, mas principalmente as mentes da nossa rapaziada mais braba? <br>.<br>Perguntas que, de certa forma, Tite acabou respondendo na coletiva. Revelando, <em>urbi et orbi<\/em>, que a \u00ednclita diretoria do Flamengo determinou, <em>top down<\/em>, que a conquista do Carioca tinha primazia sobre a fase de grupos da Libertadores. An\u00e1tema! N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que dirigentes do maior clube do universo ousem comparar competi\u00e7\u00f5es sediadas em gal\u00e1xias distintas. Qual seria o m\u00e9todo axiol\u00f3gico utilizado para atribuir valor \u00e0s coisas? Bananas e laranjas, corram aos botes, no Flamengo ningu\u00e9m \u00e9 de ningu\u00e9m! A resposta de Tite deixou transparecer que dar um refresco para os titulares no segundo jogo contra o Nova Igua\u00e7u nunca foi uma op\u00e7\u00e3o.<br>.<br>Os otimistas podem erguer as m\u00e3os pro c\u00e9u e afirmar acacianamente que agora, pelo menos, dos Cariocas priorizados nos livramos esse ano. Ao que os realistas contraporiam que agora \u00e9 que vai ficar complicado, porque s\u00e3o tr\u00eas, e n\u00e3o duas, as competi\u00e7\u00f5es suscet\u00edveis \u00e0 prioriza\u00e7\u00f5es <em>ex-of\u00edcio<\/em>. O que o torcedor m\u00e9dio, tipo, padr\u00e3o, daqueles que mergulham nos jogos do Flamengo como se afundassem numa fonte magnesiana em Cambuquira, entende \u00e9 que ainda t\u00e1 muito cedo pro Flamengo priorizar competi\u00e7\u00f5es.<br>.<br>Na verdade, priorizar tudo bem, para o torcedor todas as competi\u00e7\u00f5es que envolvam o Flamengo s\u00e3o prioridade. Ta\u00ed mesmo o nosso recente Mundial de Pesca Submarina que n\u00e3o nos deixa mentir. O problema est\u00e1 em secundarizar competi\u00e7\u00f5es, como se n\u00e3o houvesse capacidade de sobra para que o Flamengo levasse a cabo o seu ambicioso, mas exequ\u00edvel, projeto de abra\u00e7ar o mundo com as pernas. Achar que d\u00e1 pra vencer Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores na mesma temporada \u00e9 o dever do torcedor, n\u00e3o o reprimam.<br>.<br>Planejar \u00e9 preciso, viver n\u00e3o \u00e9 preciso, beleza, mas pra que cortar a onda dos torcedores antes mesmo que as conting\u00eancias, circunst\u00e2ncias e imprevistos nos obriguem a eleger uma competi\u00e7\u00e3o em detrimento de outra? Deixa acontecer naturalmente, n\u00e3o precisa ficar pensando no pior, atraindo baixas vibra\u00e7\u00f5es e cortando o barato das massas.<br>.<br>O torcedor rubro-negro se fez grande porque, a exemplo da pr\u00f3pria entidade Flamengo, n\u00e3o tem medo de buscar a grandeza. N\u00e3o considera o fracasso e jamais coloca a derrota em perspectiva. \u00c9 maluquice? \u00c9, mas tem dado certo. A torcida do Flamengo procura sempre a evolu\u00e7\u00e3o, est\u00e1 na sua natureza a busca pelo aperfei\u00e7oamento constante.<br>.<br>Houve um tempo, n\u00e3o muito remoto, que a maior aspira\u00e7\u00e3o esportiva dessa massa era o Flamengo disputar a Libertadores todo os anos. As for\u00e7as arco\u00edristas se escarneciam do que parecia ser s\u00f3 mais uma bravata rubro-negra desconectada da realidade f\u00e1tica. Como \u00e9 que pode agora esse mesmo pessoal, que h\u00e1 dez, quinze anos andava faminto de gl\u00f3rias mi\u00fadas n\u00e3o consegue mais se satisfazer com nada menos que o t\u00edtulo continental? Bendita ambi\u00e7\u00e3o rubro-negra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\"><br>E o processo evolutivo continua, inexor\u00e1vel. Note que ainda se tensionam em excesso os nervos rubro-negros durante a fase de grupos da Libertadores. Nas atuais circunst\u00e2ncias a presen\u00e7a do Flamengo nas oitavas em todas as edi\u00e7\u00f5es da copa continental \u00e9 mandat\u00f3ria, inescap\u00e1vel, impreter\u00edvel. N\u00e3o haveria real necessidade de nenhuma ang\u00fastia ou afoba\u00e7\u00e3o com o Flamengo jogando num grupo de quatro onde se classificam duas equipes.<br>.<br>A Libertadores s\u00f3 deveria come\u00e7ar a ser um drama para a torcida do Flamengo a partir do mata-mata. N\u00e3o \u00e9 uma meta exagerada, soberba ou malucona. S\u00e3o 32 clubes que come\u00e7am, o Flamengo, at\u00e9 pelas for\u00e7as econ\u00f4micas, sociopol\u00edticas e gravitacionais, TEM que estar sempre entre os 16 remanescentes da fase de grupos. Sempre! A torcida, a cada edi\u00e7\u00e3o da trai\u00e7oeira, leviana, falsa e biscateira Libertadores da Am\u00e9rica tem aprendido isso.<br>.<br>Mas para que o aprendizado da torcida seja completo \u00e9 preciso que os demais estamentos do Flamengo, elite dirigente, comiss\u00e3o t\u00e9cnica, jogadores e funcion\u00e1rios, tamb\u00e9m nos ajude a ajud\u00e1-los. Deixando, por exemplo, de dar mole contra Palestinos no Maraca em fun\u00e7\u00e3o de decis\u00f5es executivas baseadas em conceitos flu\u00eddos tais como seguran\u00e7a, previd\u00eancia e e-qui-l\u00ed-brio.<br>.<br>H\u00e1 que se permitir que a moderada e justificada megalomania que embala os desejos rubro-negros tenha espa\u00e7o e voz em todas as etapas dos processos de decis\u00e3o que envolvem o Flamengo. Nesse campo do conhecimento a torcida e, por extens\u00e3o, o Flamengo, \u00e9 catedr\u00e1tico. Vamo dar uma pirada a\u00ed, Flamengo! Tudo o que se pode acreditar j\u00e1 \u00e9 uma imagem da verdade. A \u00e1guia nunca perdeu tanto o seu tempo como quando resolveu aprender com a gralha. Esse papo de \u00e1guia tem nada a ver com o Flamengo, mas quem escreveu isso n\u00e3o fui eu, foi o William Blake.<br>.<br><strong>Meng\u00e3o Sempre<\/strong><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os torcedores do Flamengo n\u00e3o assistem aos jogos do time, disse o Ruy Castro certa vez, mergulham nele como se fosse um banho morno. Nada mais verdadeiro, mestre Ruy. 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