{"id":10604,"date":"2022-03-15T14:38:31","date_gmt":"2022-03-15T14:38:31","guid":{"rendered":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/?p=10604"},"modified":"2022-03-15T14:43:16","modified_gmt":"2022-03-15T14:43:16","slug":"urubus-no-cacto-o-duelo-juca-x-antonio-maria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/urubus-no-cacto-o-duelo-juca-x-antonio-maria\/","title":{"rendered":"Urubu no cacto: o duelo Juca x Maria"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>Cumpro o dever de informar que recebi, h\u00e1 n\u00e3o muito tempo, uma mensagem do redator Juca Kfouri, por email (ema\u00edu).<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>Sim, aquele irm\u00e3o da grande jornalista e music\u00f3loga Maria Luiza Kfouri, voc\u00eas devem conhecer.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>O assunto da mensagem, claro, foi um s\u00f3: ornitologia.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>Jos\u00e9 Carlos Amaral Kfouri n\u00e3o morre de amores por urubus, o bicho da fam\u00edlia dos catart\u00eddeos. Acha a ave l\u00fagubre, sinistra, com seu h\u00e1bito de papa-defunto e gosto por carni\u00e7a.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>Inflado de aud\u00e1cia, enviei a Juca um argumento definitivo para todo bom brasileiro amar os nossos urubus, orgulhos da p\u00e1tria. Escrevi que Alberto Santos Dumont, o grande inventor, rascunhou seus avi\u00f5es inspirado no voo do grandioso, embora mal-afamado, urubu rei. Se espiasse andorinhas, provavelmente Santos Dumont teria morrido farmac\u00eautico.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>Juca ent\u00e3o devolveu o ema\u00edu:<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>\u201cMoro em um edif\u00edcio alto. Um dia acordei e tinha um urubu pousado no corrim\u00e3o da varanda. Me senti como John Wayne baleado no Texas e sobrevoado por um bando deles. N\u00e3o gosto nem do ator, nem da ave. Vade retro!\u201d<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>Juca, para ser exato, revelava o n\u00famero de seu andar, informa\u00e7\u00e3o que decidi omitir \u2013 vai que um vizinho chato, ou outro urubu, passe a importun\u00e1-lo. Seja como for, deixei Juca Wayne sem resposta, ali a torrar sob o calor do velho oeste, at\u00e9 hoje.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>Outro dia, por\u00e9m, ganhei de amigos estimados o livro \u201cVento vadio\u201d, com as divinas cr\u00f4nicas de Ant\u00f4nio Maria. S\u00f3 as bonitas men\u00e7\u00f5es ao Flamengo e ao grande rubro-negro Cyro Monteiro valem a leitura, mas o livro ainda tem mais. Tem a cr\u00f4nica \u201cA morte do urubu\u201d, que faria at\u00e9 o cora\u00e7\u00e3o texano de Juca amolecer.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>Ant\u00f4nio Maria, para quem chegou agora, foi um jornalista, compositor e radialista pernambucano, que criou o apelido carinhoso de \u201cMengo\u201d na r\u00e1dio Tupi do Rio de Janeiro, quando narrava futebol. Maria torcia mesmo para o Sport Recife.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>O que n\u00e3o o impediu de se comover com uma cena pungente, em janeiro de 1962, na avenida Epit\u00e1cio Pessoa. A cena de um urubu morto, atravessado na pista.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>Maria estava de carro, onde carregava sua m\u00e1quina de escrever para poder bater nas letrinhas da rua ou do bar. Estacionou e foi espiar a finada ave negra. \u201cJ\u00e1 vira gente, boi, cavalo, galinha, coelho, cachorro e gato mortos. Urubu era a primeira vez.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>Passou ent\u00e3o um menino com uma lata de \u00e1gua da lagoa, rumo \u00e0 velha favela do morro da Catacumba. Deu-se o inusitado di\u00e1logo:<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>\u2013 Menino, como morreu este urubu?<br>\u2013 Um carro pegou. Era seu?<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>N\u00e3o era. Mas a como\u00e7\u00e3o excessiva do cronista que motivou a pergunta do molecote tinha sua raz\u00e3o de ser. \u201cNo mesmo local, j\u00e1 vira algumas vezes um ou outro gato morto\u201d, escreveu Maria. \u201cEm sua volta, v\u00e1rios urubus. Agora, um urubu morto e gato nenhum ao p\u00e9 de si. Morto e abandonado, por qu\u00ea?\u201d<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>\u00c9 quando o genial cronista percebe tudo. Todo o desprezo que homem e urubu nutrem um pelo outro, em 1962 como hoje. Engatilha e dispara, Maria:<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>\u201cO urubu voa e voa bonito, enquanto n\u00f3s somos prisioneiros do ch\u00e3o. N\u00e3o temos mais que os nossos pesados e dolorosos passos. Quando inventamos voar, ap\u00f3s dezenas de tentativas fracassadas, criamos um aparelho constru\u00eddo \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a do urubu. O que \u00e9 o avi\u00e3o, sen\u00e3o um urubu em transe de aperfei\u00e7oamento?\u201d<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>Eu n\u00e3o diria melhor, nem pior nem apenas diferente. Grande Maria. Mas calma l\u00e1, que ainda vou entregar o desfecho. Um desfecho que leva a cr\u00f4nica a ganhar ares de duelo improv\u00e1vel, no qual o Ant\u00f4nio Maria de 1962, chap\u00e9u enfiado na testa, parece se dirigir ao Juca de 2022:<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>\u201c\u00c0 beira da lagoa Rodrigo de Freitas, dentro da bruma da manh\u00e3, s\u00f3 eu, velando o urubu. S\u00f3 eu, pensando em urubu. Outros urubus, garbosamente, sobrevoavam-nos. E eu, humildemente homem, eu que s\u00f3 tenho bra\u00e7os e passos (estes pesados e dolorosos), era, ali, o \u00fanico representante da imprensa. Isto \u00e9, a primeira pessoa a reconhecer que um urubu, em muitas coisas, \u00e9 mais perfeito que o homem. Se esta verdade a algu\u00e9m doer, paci\u00eancia. O papel do jornalista \u00e9 dizer a verdade, s\u00f3 a verdade, nada mais que a verdade. At\u00e9 sobre os urubus\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>Jornalistas como o Juca s\u00e3o assim mesmo. Passam todo o tempo a prestar aten\u00e7\u00e3o na morte das gentes, no sofrimento das coisas e pessoas prisioneiras do ch\u00e3o, e acabam por n\u00e3o notar a import\u00e2ncia de um bich\u00e3o imponente feito o urubu.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<p>S\u00f3 faltou talvez ao temido Juca Wayne, h\u00e1 60 anos, cruzar bigodes e prosear com o xerif\u00e3o Maria nas brumas da lagoa, com o menino da lata de \u00e1gua por testemunha.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<div class='button-row'>\n\t<a href='http:\/\/republicapazeamor.com.br\/site\/marcelo\/' class='button small-button \n\t\t\t \n\t\t\trounded-corners \n\t\t\torange-button text-uppercase' style=\"color: #ffffff; background-color: #000000; box-shadow: 0 0 0 3px #991b1b inset;\">\n\t\t\t\tSobre Marcelo Dunlop\t<\/a>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\"><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\"><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cumpro o dever de informar que recebi, h\u00e1 n\u00e3o muito tempo, uma mensagem do redator Juca Kfouri, por email (ema\u00edu). Sim, aquele irm\u00e3o da grande jornalista e music\u00f3loga Maria Luiza Kfouri, voc\u00eas devem conhecer. O assunto da mensagem, claro, foi um s\u00f3: ornitologia. 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